Animais racionais (Parte 10)
A parte 9 da sequência Animais racionais está no Consciência Efervescente: http://conscienciaefervescente.blogspot.com/2009/11/animais-racionais-parte-9-um-reves-para.html
Essa foi uma feliz reportagem da Globo, sem manipulações, mas que comete o vicioso ato de considerar animais propriedade.
Peixes adestrados recebem cafuné no Espírito Santo (vídeo disponível aqui)
Peixes que gostam de carinho e atendem quando são chamados. Parece mentira, mas é o que acontece no Espírito Santo. A reportagem é de André Junqueira.
Na correria da cidade parece que não sobra tempo para conversa. A cidade não pode parar, tem que seguir. Quem quer saber de história? Ainda mais quando a história parece ser de pescador. Imagina! Vai dizer que nunca ouviu falar de peixe adestrado?
”É mentira”, avisa uma mulher.
“Eles inventam muita coisa sem lógica, muita lenda”, afirma a escrevente Sheila Brasil.
“Peixe adestrado? Já ouvi falar de cachorro e gato, mas agora é a primeira vez em que ouço falar de peixe adestrado”, diz o técnico em cabeamento Whender Silva.
Melhor deixar a cidade para trás.Vamos em direção ao noroeste do Espírito Santo pela rodovia, pela estrada de terra, a 130 quilômetros de Vitória. Até que chegamos a uma propriedade na zona rural de Marilândia. Lá ninguém pode pescar ou fazer mal aos peixes de estimação de Aguilar Lorencini.
No lago, aos pés da montanha, os enormes tambaquis têm tratamento de rei. São peixes de água doce, que podem pesar mais de 30 quilos. Gostam de frutas, sementes e adoram pão.
”Eles já fazem parte da família. O povo vem visitar e curtir a natureza”, conta o dono dos peixes.
São da família e também adoram visitas.Pescar aqui seria covardia…
“Esse peixe tem cara de muito feio e muito mau também”, explica Maria Júlia, de 9 anos, que foi até o lago para brincar com os peixes.
Então por que você está aí, menina? “Porque muita gente já veio aqui e eu já vi que eles são mansos”, avisa.
O garçom, Marcos, jamais imaginou que um dia poderia estalar os dedos para um peixe aparecer de bandeja, todo dócil e ainda aceitando cafuné. Se contar, ninguém acredita.
“Se alguém me contar essa história de peixe adestrado agora, eu acredito porque eu já vim aqui”, brinca.
Quando não tem visita, vem a dona da propriedade. Vânia Lorencini traz a ração para peixes.“A gente joga a ração para complementar a dieta deles”.
E olha só como eles ficam ainda mais tranqüilos, um atrás do outro, sem atropelos. A cada “colherada” da ração, um pouquinho de carinho da dona.
Vânia apelidou até um dos peixes de Tuba. É ele quem come mais. E não estranhe se vir Vânia conversando com eles. É uma excelente terapia.
“É uma delícia conversar com peixe, alivia qualquer estresse. Ele passa uma paz. O peixe não fala nada, não reclama. Você só trata e faz carinho”, conta.
Três coisas a pensar sobre isso:
1. A incredulidade absoluta das pessoas da cidade sobre animais inteligentes, não demonstrada apenas por Whender Silva, é para mim algo lamentável. Quando poderiam simplesmente assumir desconhecimento sobre o assunto, dizer algo do tipo “nunca vi” ou “não sabia”, negam com visível veemência que existam peixes inteligentes ao ponto de ter uma relação amistosa, praticamente canina, com o ser humano, como se já tivessem sido expostas a alguma comprovação irrefutável de que isso seria lenda, crendice sobrenatural. Transpareceu a especista subestimação das capacidades comportamentais dos animais não-humanos na breve opinião negativa d@s transeuntes, o preconceito de achar que capacidades inteligentes existem apenas em cães, primatas e outros animais curiosos mostrados na TV.
2. Esses peixes derrubam tal preconceito especista e dão uma lição ao ser humano de que boa parte das espécies animais são muito mais inteligentes e sentimentais do que se pensa. O fato de seu habitat estar dentro de uma área de propriedade particular e sua inteligência os salvaram da morte pela pesca.
Se existisse autorização para se pescar no lago deles, jamais saberíamos de suas capacidades. Seriam não os peixes amigáveis e inteligentes que hoje pudemos conhecer, mas apenas carne morta a se esvair rapidamente na mesa de onívor@s e piscitarian@s. É o que eu pude reparar na atitude de umas familiares minhas. Admiraram-se com o peso e assumiram que não pensariam duas vezes em comer esses bichos se pudessem capturá-los ou comprar seus corpos mortos. Mesmo querendo ser amigos do ser humano tanto quanto cachorros, para o ser humano onívoro (com exceção do casal habitante da propriedade) nada mais são do que trinta quilos de carne branca.
3. A atitude da Globo foi evidentemente tratar esses animais como propriedade. Para a emissora, somam-se à área que a reportagem visitou e compõem a propriedade de Aguilar e Vânia. É interessante que o casal esteja definido pela Globo não como amig@s dos peixes, mas como don@s do cardume, mesmo sabendo-se que a espécie daqueles bichos habita aquele ambiente desde milhares de anos antes do casal humano chegar ali.
O pensamento global é que o casal tomou posse da área e de todos os seres, sencientes ou não, inteligentes ou não, que a habita(va)m. É como se eu comprasse a casa de um leitor do Arauto e tornasse sua família parte de minha propriedade!
A Globo pode querer que não pensemos a realidade, que apenas a contemplemos, mas essa reportagem, com a ajuda de uma reflexão como a acima, convida @ telespectador/a a rever seus conceitos sobre os animais não-humanos cuja inteligência ainda não é de conhecimento da sociedade.
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