Resenha do documentário Super Size Me: a dieta do palhaço
A experiência de Morgan Spurlock com os 30 dias de refeições de tamanho até “Super Size” no seu documentário Super Size Me foi algo quase suicida. E muito corajoso também. Ele debilitou seu corpo com um mês de dietas nada saudáveis para denunciar como o fast-food estraga o organismo e vem provocando um crescimento epidêmico da obesidade na população dos Estados Unidos – e também do mundo, se considerarmos a clientela global das empresas multinacionais de comida rápida.
Ele resolveu se jogar na aventura perigosíssima de comer durante trinta longos dias três refeições diárias só com alimentos provenientes da McDonald’s, escolhida por ser a maior corporação de fast-food dos EUA. Aceitaria sempre as porções de tamanho “super size” quando fossem oferecidas. Viajaria por várias cidades norteamericanas para testar o serviço das lanchonetes da empresa.
Antes da experiência, era um homem muito saudável, com todas as taxas fisiológicas e desempenhos físicos “fora de série” de acordo com os muitos exames feitos. Era vegetariano assim como sua esposa, mas resolveu fazer como o Jesus bíblico – sacrificar a si mesmo, assim como o seu vegetarianismo, pela iniciativa de salvar as pessoas.
Esteve ligado a vários/as doutores/as para verificar como sua saúde passaria os trinta dias de tormenta alimentar. Em cada dia ele vai mostrando à câmera o que come e bebe. Paralelamente, o documentário mostra os podres da indústria de fast-food e as aberrações corporativas cometidas.
Entre esses podres e aberrações, o lobby da indústria alimentícia não-saudável, a quantidade de propagandas de alimentos ruins comparada às dos saudáveis, a invasão do fast-food nas escolas, a omissão de exibir os valores nutricionais do que se serve nas lanchonetes... Também são denunciados os problemas de saúde e socioculturais – neste caso, a autodepreciação que garotas obesas vivem quando se deparam com propagandas e programas de TV com mulheres magras – que a epidemia de obesidade veio acarretando.
Ele também tentava entrar em contato com alguém da McDonald’s para pedir esclarecimentos sobre a antinutritividade dos alimentos oferecidos, mas as pessoas responsáveis eram quase incomunicáveis, dando desculpas atrás de desculpas para não atenderem às ligações.
Durante o filme, ele foi surpreendido pelo fechamento da clínica Hælth, onde ele fazia alguns de seus exames, uma amostra, segundo ele, de que a saúde não era valorizada nos EUA – o que Michael Moore confirmaria no documentário Sicko anos depois.
A cada dia, Morgan sentia os sintomas da deterioração de sua saúde. Sentia estufamento, momentos de depressão, falta de fôlego, formigamentos, falta de ar, dores internas, entre vários outros problemas. Seu peso aumentava vários quilos em poucos dias. Seu fígado estava a caminho da deterioração, um fenômeno que nem mesmo um dos doutores que ele estava consultando havia visto antes. Estava ficando impotente sexualmente. Adquiriu um princípio de vício de hambúrgueres e refrigerantes. Ele poderia morrer se persistisse com a dieta suicida por mais tempo.
Quem assiste ao documentário torce para que os trinta dias de sofrimento de Morgan acabem logo. A pessoa pode ficar um pouco nervosa, enquanto assiste ao filme, na espera pelo fim da aventura sacrificante dele, compadecendo do princípio de doença que ele estava sofrendo.
No 30º e último dia do terrível hábito alimentar, o/a telespectador/a sente um alívio: enfim Morgan encerrou sua dieta patológica! Em seguida, ele mostra como sua saúde se deteriorou tão fortemente. Descobrimos que ele ingeriu quantidades bombásticas de açúcar (quase 14kg somados) e gordura (mais de 5kg no total) no mês da “dieta do palhaço”.
No final, antes dos créditos, os desfechos: ele recuperou sua saúde em poucas semanas, embora até a conclusão do filme ele ainda estivesse perdendo o peso; o McDonald’s decidiu retirar do mercado os alimentos de tamanho “super size”, lançar pratos (questionavelmente) saudáveis e passou a patrocinar eventos esportivos – negando, no entanto, a influência do documentário sobre essas decisões –; o representante do lobby alimentício já não estava mais no cargo; Morgan, por motivos não esclarecidos, deixou o vegetarianismo – o único desfecho triste da história.
Duas citações são mais marcantes no filme: “[Você] precisa pensar que, se acredita que o sistema [de que você desfruta] é corrupto, imoral, errado e agressivo, você estará fazendo parte dele”, segundo Alexandra Jamieson, a namorada de Morgan; “Mas por que as empresas mudariam? A lealdade delas não é com você, e sim com os acionistas. A verdade é que isso é um negócio, não importa o que digam”, segundo o próprio Morgan.
Partindo para a análise crítica, não há praticamente nada do que reclamar do Super Size Me. O filme atinge seus objetivos e cumpre o que se habilitou a fazer: denunciar como o fast-food de hoje é imprestável em termos de saúde e nutrição e como seu empresariado não tem compromisso nenhum com o bem-estar humano – muito menos animal, visto a matança de animais que a pecuária promove, embora isso não tenha sido abordado no documentário.
Denúncias como a persuasão infantil ao mau hábito alimentar, a invasão do fast-food nas escolas, o lobby que inibe providências governamentais de combate à má alimentação e, mais notável, a epidemia de obesidade sem precedentes – todas referentes aos EUA, mas que, com o tempo, poderão contaminar outros países – são gravíssimas e o Super Size Me escancarou-as competentemente.
Morgan Spurlock, com seu documentário, juntou-se a Michael Moore no hall de cineastas corajosos que dão a cara à tapa – e, dependendo da perversidade dos denunciados, o corpo às balas – para mostrar que desgraças certas categorias políticas e econômicas do seu país são capazes de causar em prol de interesses escusos.
Bom seria se no Brasil tivéssemos gente do tipo deles, cineastas e escritores/as que conscientizam ludicamente a população, abrindo seus olhos para os problemas do país. É um dos melhores estilos de filme existentes: documentários educativos, que servem, com eficiência e competência, de apoio para as escolas e as campanhas de conscientização.
Super Size Me merece palmas, e Morgan, encorajamento para fazer mais documentários. Os EUA precisam de mais filmes do estilo. Depois de assistir ao filme, é de se duvidar que a pessoa vá continuar comendo regularmente fast-food. As pessoas menos resistentes a conscientizações vão muito provavelmente jurar nunca mais pôr os pés na McDonald’s, Bob’s, Burger King ou qualquer lanchonete do gênero. Obrigado, Morgan Spurlock, por ter dado uma de Jesus bíblico.
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