Arauto da Consciência

Resenha: Stupid White Men

Postado em 21/01/2010 à/s 6:00

Michael Moore fez um bom trabalho com o Stupid White Men. Seus ataques às injustiças dos Estados Unidos e de “W.” foram bem vindos. Entretanto, eu esperava um pouco mais de críticas ferozes aos pontos podres da cultura americana indistintos de raça, sexo e filiação política. Fiquei com a sensação de que o livro matou a sede mas ainda faltou algo para completá-lo, e também não é muito um livro que sirva para o leitor rir.

Michael, segundo o que ele mesmo relatou, teve uma trajetória sofrida e heróica para mesmo conseguir publicá-lo em plena paranóia pós-11/09. Ou melhor, os maiores heróis da história, ele mesmo reconhece, foram na verdade os bibliotecários, categoria tão subvalorizada nas sociedades ocidentais mas que teve uma voz suficientemente poderosa para desafiar aquela editora que, mantendo uma postura que não se esperava “ouvir em uma nação livre”, se recusava em publicar integralmente o livro.

Os ataques a Bush “Júnior” foram intensos e mordazes e alternavam entre o irreverente e o praticamente sério. Pode parecer que ele decidiu preservar a gestão de Bill Clinton, mas mais na frente o leitor poderá ver que não é bem assim. Entretanto achei os ataques à sua gestão (que agora sei que foi) pseudodemocrata moderados demais para alguém que não poupou dedos para meter o máximo possível de pau no sucessor dele, e ao longo do livro, antes do capítulo “Democratas, mortos ao chegar”, parece haver uma tendenciosidade em favor de Clinton, mesmo depois de mostrar fatos que comprometiam a probidade do mandato dele.

Foram louváveis também os ataques aos mais notáveis vícios da sociedade americana, como o racismo (“Matem os branquelas”) e machismo (“O fim dos homens”) sociais, a imprudência ambiental (“Planeta bacana, ninguém em casa”) e a vilania para diversos outros assuntos (“Somos a número um”). Outros detalhes que escapam a esses meros vícios, como o sistema prisional e a justiça bastante injusta (“Uma grande e feliz prisão”), a falsidade de muitos democratas (“Democratas, mortos ao chegar”) e, mais importante, o descaso do Estado de lá para com a educação (“Uma nação de idiotas”), um detalhe que lembra muitíssimo a situação daqui do Brasil. Quanto a esse último, recomendo que o leitor complemente lendo o livro “O mundo assombrado pelos demônios”, de Carl Sagan, mais precisamente os capítulos “Não existem perguntas imbecis”, “A casa em fogo” e “O caminho para a liberdade”, que tratam da deplorável relação entre a educação e a ciência naquele mesmo país de Michael, e vai ter uma idéia de como o Brasil não é o único país territorialmente grande com o ensino público arruinado.

Como eu já disse mais acima, fica aquela sensação de que faltou alguma coisa. Algo bem importante, tenho que relevar. Trata-se da bitolagem religiosa, o fanatismo-fundamentalismo cristão que controla uma enorme parte daquela população mal-educada. Senti muita falta, muita mesmo, de ver Michael vociferando contra os fanáticos – e seus chefes reverendos maléficos – que tanto atrasam aquele país em todos os âmbitos.

Foi divertido o testemunho de sua trajetória em Tallahassee, capital da Flórida, e sua tentativa de mudar o destino dos Estados Unidos. Aliás, é de se ficar cético sobre esse detalhe que ele expôs de a realidade de seu país estar quase em suas mãos, exceto pela teimosia dos correligionários da campanha de Ralph Nader em não apoiar o “menos pior candidato”, Al Gore, naquele ano 2000.

Sobre essa parte de divertir, o livro é sim divertido, mas não chega a fazer rir bastante. O tom das críticas e as divulgações dos mais variados dados fazem do Stupid White Men mais uma obra de denúncias e desmascarações do que parcialmente de humor.

E não posso acusá-lo de ser um livro de dizeres (tão) duvidosos. Michael Moore teve a dignidade de pôr no final a fonte de cada informação que deu ao longo das páginas. Sem elas, o leitor o acharia uma obra nada confiável, dado o teor que pendeu politicamente contra os republicanos.

Michael escreveu uma boa obra, deixando a imagem de “George Bush II” em frangalhos, mas faltou uma intensidade maior de ataques aos democratas traidores e, por tudo que é sagrado para uma boa vida secular, críticas aos fanáticos-fundamentalistas cristãos dos EUA. Ele consegue se firmar como escritor admirável, embora (talvez mais da) metade daquele país ainda o ache idiota.

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