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A armadura pesada do guerreiro covarde e nossa alienação

Artigo escrito em novembro de 2008

O bairro do Ipsep era bastante tranqüilo, se comparado com outros lugares de Recife. No passado, um carro antigo do meu pai amanhecia aberto e com a chave na ignição, intocado. Assaltos eram tão freqüentes quanto na Finlândia, respeitando-se a proporção de área territorial. Hoje vejo melancolicamente os conjuntos residenciais do bairro se tornando fortalezas gradeadas. Até pouco tempo atrás (considerando que hoje é novembro de 2008) eu tinha acesso fácil às paradas de ônibus mais próximas, graças aos atalhos que eram as ruas de terra entre os prédios-caixão desses condomínios. Agora eu tenho que arrudiar as esquinas porque tais atalhos foram fechados com grades e portões.

Se você mora no Brasil, não precisa pensar muito até ter noção de que isso foi promovido em razão do aumento da violência. Roubos de carro e assaltos de rua passaram a pipocar por esse bairro, piorando desde quatro anos e meio atrás. Percebamos com igual acurácia que está sendo desenrolada uma perversa tendência de comportamento: enquanto fortificamos os lugares onde moramos, com particularização de ruas, cercamento com grades e cercas elétricas e seguranças particulares, negamos com uma vergonhosa convicção a luta contra aqueles que nos obrigam a levantar tantas proteções domiciliares. Somos como um guerreiro covarde que veste a mais pesada das armaduras mas não quer ter sua espada, nem que seja uma curtinha.

Não vá entender essa espada como uma convocação à reação a assaltos, mas como a luta popular contra o problema da violência. É essa luta que praticamente não existe hoje no Brasil. Ou será que você chama essas inúteis “caminhadas pela paz” de protestos convincentes?

Negamos nossa cidadania, nosso poder político, quando nos calamos perante a criminalidade e permanecemos agindo como se nada de mais estivesse acontecendo. Desprezamos o parágrafo único do Artigo 1º da Constituição Federal (“Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”) e nos comportamos como se não tivéssemos nenhuma função notável nos trabalhos de ditar nossa vida e nosso destino. Somos alienados, às vezes com um desgraçado orgulho. Nos alienamos até de nós mesmos quando deixamos para lá a cruel coação que sofremos no assalto ocorrido poucos dias atrás e não contribuímos para que isso não se repita com outros e com nós mesmos. É como Karl Marx escreveu: o indivíduo que se aliena da sociedade está se alienando de si mesmo.

E é isso mesmo o que está acontecendo. Agimos como se nada tivéssemos com a sociedade de que participamos. Se nós somos assaltados, o pensamento que temos em seguida, depois de nos acalmar, é esse abaixo:

“Ah, fui na delegacia e fiz meu BO. Sei que não vou mais recuperar meu celular e a carteira, mas pode ser que o marginal que o roubou acabe sendo morto na boca-de-fumo dele. Se isso acontecer, ótimo. E o que é que vou fazer agora? Ah, nada mais. Agora é deixar pra lá e tocar a vida pra frente. Fazer o quê? É culpa dessa polícia ineficiente, desses políticos corruptos que não têm compromisso com o povo, dessa educação que cai aos pedaços e não protege ninguém de desviar pro mau caminho. E quanto a mim, o que tenho a ver com isso? Fora votar num candidato que preste, acho que mais nada, porque mesmo se eu quisesse protestar eu estaria sozinho, nem sequer tenho habilidade pra organizar uma manifestação, nem mesmo com meus vizinhos ou parentes. Bah, por que é que tô perdendo tempo pensando nisso? Vou é deixar pra lá, continuar com a vida. Espero que o ladrão morra logo. Se eu for assaltado(a) de novo, o que é que eu vou fazer? É a vida, né?”

Precisamos deixar de ver o mundo dessa forma. Vamos pensar logicamente: numa sociedade letárgica para com seus problemas coletivos, que praticamente não está nem aí se os assaltos explodem pelo lugar onde vive, que não está comprometida nem mesmo com o seu próprio amanhã pessoal, como é que vamos esperar que apareça dela um número suficientemente grande de políticos heroicamente engajados no combate à violência e às desigualdade sociais ou mesmo um número satisfatório de policiais e delegados de bom porte, honestos e firmes no dever de varrer os meliantes armados das ruas? Se temos uma vontade sincera de inibir ou banir um determinado problema, por que preferimos nos acostumar e conformar com ele em vez de agir contra? Que diabo de vontade é essa que não nos esforçamos em cumprir? Se “a situação está insuportável”, como é que estamos suportando até mesmo sua piora por tanto tempo? Se temos tanto desejo de um país pacato e justo, por que não queremos, como povo, como tijolos que juntos formam um castelo, lutar por ele?

Esse comportamento configura a nós, o povo, como um dos maiores culpados pelas desgraças que fustigam o Brasil e nossas cidades. Somos culpados pela violência, porque deixamos os bandidos agirem livremente e não fazemos nada contra isso fora ir à delegacia e esbravejar particularmente para nossos parentes, amigos ou vizinhos que a criminalidade está “insuportável”. Somos culpados pela educação pública caduca, porque, quando concluímos nossa passagem por tal escola ou faculdade, nos comportamos como se ela não existisse mais, não nos damos o trabalho de pensar como o ensino de lá pode melhorar em comparação com nossa época de alunos, sequer damos sugestões de como acolher bem os novos estudantes. Somos culpados pelas desigualdades sociais, porque a primeira coisa que fazemos ao ver uma favela é virar a cara em vez de refletir sobre como fazemos parte dessa realidade desigual. Somos culpados pela nossa péssima relação com o Mundo Animal, porque… olhe para seu almoço cheio de carne e para seu cachorro que foi comprado como objeto num pet-shop e dorme acorrentado no quintal ou no quartinho e vá juntando as peças.

Se não queremos ser a solução, não é de surpreender que sejamos vistos até como parte do problema. Mas como podemos ser a solução? Minha sugestão é, em cada roda de conversa que temos sobre assuntos sérios como esses, incitar a manifestação em público, o protesto, o pensamento coletivo de soluções. Se reclamamos da criminalidade para nossos amigos do bar – ao menos enquanto não estamos bêbados –, vamos aproveitar que estamos ali reunidos para debater sobre como podemos fazer nossa parte junto a outras turmas conhecidas. Consideremos nessas ocasiões que são poucos os que não têm acesso a alguma autoridade ou pessoa endinheirada através de algum conhecido nosso que conhece a tal personalidade ou alguém ligado a ela. Assim muitas vezes poderemos contar com uma mão com aura de poder quando quisermos reunir um certo número de pessoas para uma manifestação ou mutirão.

É assim que o nosso pensamento viciosamente alienado vai ser combatido e o serão também problemas como a violência e a desigualdade social. E crescerá um sentimento de que nós, o povo, podemos sim melhorar o nosso amanhã quando estamos unidos e pensando direito. E a covarde tendência de fortificação e cercamento de nossas residências que está acabando com nossas facilidades de deslocamento poderá finalmente ser interrompida e substituída pela de recrudescimento da atitude cidadã popular contra a criminalidade. Em vez de uma armadura pesada que mal nos deixa andar, passaremos a usar uma espada para combater o mal que nos cerca, e sentiremos uma saudável diferença.

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