A falta de oposição à vaquejada no Nordeste
Artigo escrito em julho de 2009
Algo notável na região Nordeste é a falta de oposição significante às vaquejadas por parte de forças defensoras dos animais. Ao contrário dos rodeios do Sul-Sudeste, que estão enfrentando cada vez mais protestos e atos judiciais adversos e vêm tendo sua crueldade crescentemente escancarada em vídeos de denúncia na internet, o pseudoesporte nordestino não vem recebendo atualmente contra si nenhuma dessas investidas.
Hoje três grandes motivos, que merecem ser explicados melhor, desencorajam ou inviabilizam qualquer investida minimamente importante contra tal atividade: a fraqueza da militância defensora animal no Nordeste, a carência ou inexistência de campanhas de conscientização contra crueldade contra animais na região e o temor que o apadrinhamento político e econômico desses eventos desperta em quem pensa em iniciar uma luta regional pelo bem dos bois e cavalos usados nessas ocasiões. Juntas, essas causas intimidam quem queria atuar pelo fim da vaquejada e pela prevalência do respeito aos bichos.
O primeiro motivo pode ser facilmente constatado pelo fato de que atualmente não há na região nenhuma ONG ativista nacionalmente conhecida de defesa animal e veg(etari)anismo. Entidades de proteção animal aqui existem, mas possuem apenas atuação local ou no máximo restrito à vizinhança intermunicipal.
Com essa ausência, não é de surpreender que no momento não haja nenhum movimento disseminado de denúncia da crueldade das vaquejadas. Mesmo campanhas regionais de conscientização da população em prol do tratamento ético e respeitoso de bichos escasseiam na região, para não dizer que estão em ausência – pelo menos em Pernambuco não há quase nada direcionado nesse sentido. Procure-se vídeos sobre a maldade dos rodeios e será encontrada uma quantidade razoável. Decida-se vasculhar a internet por vídeos direcionados a denunciar a vaquejada como atividade cruel e exploradora e nada ou quase nada será encontrado!
Simultaneamente com a fraqueza do Bem no Nordeste, o Mal conta com um impressionante aparato de apoio econômico, cultural e político. A miríade de empresas e marcas que estampam suas logomarcas nos anúncios desses eventos e as bandas do chamado “forró estilizado” dão um pomposo patrocínio às vaquejadas. A cultura do interior nordestino trata positivamente a exploração animal, personificada na secular imagem do vaqueiro “forte” e “viril”. Assim sendo, aqueles que agridem o boi com o puxão de sua cauda e seus cavalos com esporadas são abençoados pela população nordestina interiorana como ícones do Sertão.
Para piorar, muitos desses eventos são apoiados por políticos, em sua maioria deputados(as), e mesmo pelos governos estaduais e federal. O próprio Estado dá uma banana à Constituição e à Lei de Crimes Ambientais e apoia a existência desse tipo de evento.
Tendo que enfrentar toda essa poderosa proteção cultural e política e não contando com um movimento ativista regional consolidado para apoiar lutas contra a vaquejada, toda aquela pessoa que deseja fazer sua parte individual em tornar prevalecente o respeito aos animais sobre esse pseudoesporte termina sentindo-se intimidada pela existência de uma enorme força adversa que lhe transmite medo de denunciar e pela falta total de apoio para o caso de ameaças físicas ou processos judiciais. Assim sendo, a maioria da população contrária a esses eventos, sem ver condições de agir, desiste e vê resignada a crueldade reinar no Nordeste.
E assim a incipiente luta contra a vaquejada nordestina parece hoje pequenos meteoros caindo: antes de atingirem a superfície da Terra – simbolizando a atividade pseudoesportiva –, desmancham-se na densa atmosfera – o apoio cultural e político que a protege.
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Por pouco a vaquejada não se iguala (pelo menos por enquanto) as barbáries perpetradas aos animais, como visitos em outros lugares do Brasil e do mundo. E tudo isso a custo de financiamentos político-empresariais.