Caminhada para lugar nenhum
Artigo escrito em novembro de 2008. O evento anunciado repete-se todos os anos.
Vem aí em Recife – próximo dia 30 – mais uma caminhada para lugar nenhum. É assim que considero as tais “caminhadas pela paz”, algo muitas vezes considerado pelas pessoas comuns desesperadas como a “única” ou “melhor” oportunidade de reivindicar o direito à paz civil plena e à segurança pública consolidada. A experiência coletiva da realidade mostrou que a única função desses eventos é extravasar emoções, tendo elas efeito zero nas estatísticas de segurança e na sensação de perigo (ou de sua ausência).
No próximo domingo (30/11) será a nona edição da caminhada municipal. Em nove edições, a primeira em 2000, tudo o que vimos foi o crescimento generalizado da violência urbana na cidade. Considerando dados de fevereiro de 2007, que absolutamente nada na prática mostra ter mudado para melhor, sete caminhadas (2000-2006) apoiadas pela Prefeitura do Recife, sem contar várias outras organizadas por outros grupos, em nadíssima adiantaram para tornar a cidade mais segura, tanto que nessa época Recife estava figurado como a capital mais violenta do Brasil.
Questiono diante disso para que servem essas andanças. Pelo menos o senso comum diz que é para “dar um basta à violência”. A realidade comprova que não são para mostrar soluções, o que seria a melhor função possível para uma manifestação contra a criminalidade, mas sim apenas como um meio de extravasar as emoções das pessoas que se sentem cercadas e intimidadas pela quase livre ação dos bandidos. Ao contrário de como as pessoas mais lúcidas em sua visão social gostariam que fosse, não estão em jogo nessas passeatas de gente vestida de branco proposições, estratégias e abaixo-assinados massivos em prol de melhorias na política de segurança pública, mas sim apenas desabafo, indignação inibida, desejos apaixonados de uma cidade e país utopicamente livres do crime, fé religiosa – crença de que um deus supostamente onipotente irá pelos apelos dos humanos sair de sua inatividade prática e começar a imunizá-los milagrosamente contra a violência urbana – e, se muito, cobranças vagas de mais polícia.
Lembremos um movimento efêmero que tentou marcar a sociedade brasileira, um chamado “Basta! Eu Quero Paz!”. Tentou bombar no país em 2000, com caminhadas branquinhas nas capitais, participação de celebridades, canalização dos desejos de todo o país de menos criminalidade, etc., e tudo o que conseguiu foi o desprezo prático dos governos federal e estaduais e o derradeiro esquecimento por todos, se não considerarmos também o “alívio” ilusório que seus participantes sentiram na época.
Está provado por A mais B que esse tipo de manifestação só funciona se tiver como única função o extravasamento de paixões, esperanças e desejos coletivos normalmente reprimidos pelos marginais. Se a intenção for uma tentar botar as autoridades contra a parede e mostrar projetos e planos concretos de como garantir a segurança nas áreas do município ou do estado, a estratégia atual está completamente errada. Se essas passeatas forem atualizadas para movimentos de protesto firme e de apresentação de propostas policiais e sociais analisadas e assinadas pela população, aí sim começarão a caminhar realmente para algum lugar.
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