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Consumo ético não é só selo verde

Artigo escrito em fevereiro de 2009

Vem-se falando muito, cada vez mais, de “consumo ético”, “consumo responsável”. Entretanto, pode-se notar que a compra de produtos ecologicamente corretos vem sendo tratada como a quase totalidade dessa abordagem ética, como se para consumir com responsabilidade fosse necessário apenas e simplesmente começar a comprar “itens verdes”. A verdade é que a ética do consumo vai muito além, transcende enormemente essa visão limitada e engloba assuntos bem menos tratados nas discussões.

Me refiro a questões como direitos trabalhistas, direitos animais e empresas inimigas do meio ambiente. Nessa visão liberta do reducionismo “só consumo verde”, uma empresa que, por exemplo, explora e desrespeita seus empregados não passará a ser ética se começar a vender produtos ambientalmente amigáveis mas continuar maltratando seus subordinados. E uma companhia tal, por mais princípios “verdes” que adote, não passará ao lado ético se não deixar de testar seus produtos em animais.

Releva-se também, para esse entendimento ético mais abrangente, a opção do boicote. Muito além de priorizar certos produtos, o consumidor consciente evita outros que, opostamente à proambientalidade ou à neutralidade ecológica, tenham sido fabricados por empresas comprovadamente envolvidas com a destruição ambiental.

Para melhor entendimento, vale descrever essas “novas” frentes éticas, exemplificando as três citadas e indicando outras não menos relevantes.

1. Direitos trabalhistas: uma empresa que realmente preza pela ética respeita seus empregados e as leis que garantem os direitos deles. Pagam bem por uma jornada de trabalho adequada, dão férias suficientemente duráveis e provêm condições de infraestrutura dignas que acolham a produção. Entretanto, muitas corporações, em especial na China e outros países asiáticos, mandam esse princípio às favas e impõem altíssimas jornadas, negam muitos direitos e pagam muito mal.

A pessoa, se pensar com empatia, chegará à conclusão de que uma companhia que desrespeita seus trabalhadores não merece um tostão enquanto não ajustar as condições trabalhistas impostas. Afinal, ela gostaria de ver sua empresa obter lucros exorbitantes só porque “economizou” o dinheiro que serviria para o pagamento que a mão-de-obra merecia? Seria ético dar lucros a uma corporação que impõe um regime semiescravo?

Um consumo ético de verdade leva em conta, além da procedência ambientalmente amigável do produto, as condições a que são submetidos os operários que o montam. Ninguém gostaria de ver sua empresa lucrar tanto por forçá-lo a trabalhos extremamente prolongados e lhe pagar tão pouco.

Esta questão também leva em conta se a empresa fabricante inclui em seus fornecedores fazendas ou fábricas envolvidas com trabalho escravo.

2. Direitos animais: o paradigma de que muitos animais nasceram para servir ao ser humano e podem ser torturados em nome da conveniência humana está sendo superado a cada dia, seus absurdos estão cada vez mais evidentes aos olhos de quem respeita incondicionalmente a vida não-humana. Essa gradual mudança de visão vem abraçando os hábitos de consumo de muitos, desde o surgimento do veganismo.

O sofrimento animal extremo imposto nos testes de certas categorias de produtos e na pesca e pecuária que provêm alguns ingredientes para os mais variados itens de consumo e também os fundamentos éticos de uma empresa que patrocina eventos baseados na crueldade contra animais, como rodeios e vaquejadas, são temas de reflexão que devem ser levados ao carrinho de compras. Vem se propagando a ideia de que não é nada ético comprar algo que tenha implicado sofrimento nos bastidores.

Um(a) consumidor(a) realmente ético(a) considera os direitos animais imprescindíveis na escolha dos produtos e da alimentação, fazendo as seguintes perguntas:
– Esse produto tem ingredientes de origem animal?
– Seu fabricante testa algum produto (não obrigatoriamente o produto desejado pelo consumidor pensativo) em animais?
– Seu fabricante patrocina rodeios, vaquejadas, touradas e outros pseudoesportes baseados na agressão a bichos?

O/a mesmo(a) enxerga que não é ético dar dinheiro para uma empresa cujos lucros se sustentam, entre outros fatores, em maltratar e matar animais. E isso inclui, para infelicidade da maioria da população, a concepção de que consumir carne e outros produtos de origem animal é invariavelmente antiético, por muitos motivos nos quais não vou me estender aqui e podem ser vastamente estudados pela internet.

Esse pensamento, entretanto, se faz mais polêmico quando se pensa em comprar um produto vegetariano produzido por uma indústria de carne e/ou laticínios, com um complicado dilema: é válido dar a chance para certa empresa carniceira começar a guinar gradualmente o lucro obtido, mudando o foco de suas vendas da exploração animal para os produtos vegetarianos, ou a mesma deve ser condenada à inanição financeira por se centrar na venda de carne e laticínios?

Empresas veganas, que não inserem ingredientes de origem animal em seus produtos nem testam estes em animais, vêm ganhando mercado com o passar dos anos. Infelizmente muitas de suas marcas ainda vendem a preços altos e não há disponibilidade vegana para todas as linhas de produto dos supermercados – como absorventes femininos e, provavelmente, papéis higiênicos e pneus. Apesar das limitações atuais, o crescente mercado vegano vem pintando o mercado consumidor com uma ética muito mais completa.

3. Histórico antiecológico do fabricante: o zelo ambiental de um consumidor ético vai muito além de adquirir “produtos verdes”, comercializados por empresas que, por exemplo, reciclam, plantam mudas e possuem certificado ISO14001. Deve ser visado também se a corporação não está envolvida em denúncias de poluição e desmatamento. Inclui a observação, intimamente ligada também às questões animal, trabalhista e social, de se as práticas agropecuárias de determinada empresa ou dos fornecedores da mesma estão agredindo substancialmente o meio ambiente.

Geralmente essa vertente do consumo ético é exercida pelo boicote. Quando uma empresa vem sendo denunciada por ONGs ecológicas por tomar parte diretamente em atos de degradação ambiental ou por não rescindir contrato com fornecedores envolvidos em crimes ambientais, campanhas de boicote surgem, ainda que com pouca expressão e repercussão. Os consumidores que querem assumir uma posição ética em suas compras devem aderir às mesmas ao tomarem conhecimento, optando, quando há disponibilidade, por marcas alternativas de empresas livres de denúncias.

O caso mais notável dos últimos anos foi encabeçado pelo Greenpeace, que denunciou a participação direta ou indireta de grandes multinacionais de agronegócio na destruição da Amazônia. Embora a organização não tenha exortado um boicote, uma campanha anônima foi lançada recomendando que todos os produtos das três corporações norteamericanas denunciadas fossem evitados e substituídos por alternativas de outras empresas.

O verdadeiro consumidor ético é muito mais seletivo do que se pensa comumente, uma vez que não só seleciona produtos ecologicamente amigáveis como investiga e desvia-se daqueles denunciados como vindos de empresas ecocarrascas.

4. Outras questões éticas: há vários outros pontos, não menos importantes mas geralmente ignorados pela maioria dos consumidores, que devem ser considerados ao se promover o consumo responsável. Podem ser resumidos em perguntas como:
– A empresa que fabrica isto está envolvida em expropriação de terras de comunidades tradicionais e/ou indígenas?
– Tem contratos comerciais com grileiros?
– Está sendo denunciada por patrocínio da indústria armamentista de algum país?
– Aliou-se a regimes ditatoriais como China e Mianmar?
– Tem ofendido tradições culturais e religiosas (pergunta que um indiano poderia fazer ao pensar numa companhia que poderia, por exemplo, estar poluindo o rio Ganges ou demolindo templos para construir filiais)?
– Tem usado táticas sujas de persuasão comercial de crianças, como infiltração de agentes em chats para indução ao desejo por certo brinquedo?
– Tem induzido as massas consumidoras a comportamentos sociocomerciais nocivos, como dizer indiretamente “compre isso e será bem-sucedido na vida pessoal!”?

Resumir o consumo ético em apenas preferir produtos com selos de “ambientalmente amigável” ou “produzido com matéria-prima reciclada” ou priorizar empresas com certificado ISO14001 é reducionismo. A questão vai muito além do âmbito da certificação ecológica, abraça vários outros valores, como respeito à vida animal, aos direitos trabalhistas e aos valores culturais, métodos publicitários e não-agressividade contra o ambiente.

Reconhecer toda essa extensão da responsabilidade de compras e divulgar essa grande abrangência é estender seus valores éticos e superar as limitações da “ética apenas ambientalista”, contribuindo para, muito além de um planeta mais saudável, que o mesmo também seja mais pacífico e moralizado.

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Renata

julho 25 2010 Responder

Adorei as informações e a idéia do blog!

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