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O desenvolvimento petrolífero não é nenhum motivo de festa

Artigo escrito em junho de 2009

A descoberta das reservas de petróleo pré-sal e a construção da refinaria de Suape foram eventos largamente comemorados pelos governos federal e pernambucano respectivamente. Foram anunciados como provedores de crescimento econômico e partes de uma tendência de aproximação da sonhada prosperidade econômica do Brasil e de Pernambuco. Muita gente, incluindo brasileiros médios, certamente ficou bastante feliz com ambas. Mas eu não fiquei.

Megaempreendimentos petrolíferos, por mais “imprescindíveis” que a mídia faça parecerem, não me deixam mais animados. Simbolizam a teimosia dos planos desenvolvimentistas em permanecerem dependentes do petróleo, do crescimento econômico sujo, da insustentabilidade, do progresso cancerígeno.

Nossos governantes, quando comemoram tais empreendimentos, dão as costas tanto para quem clama pelo redirecionamento da política energética e ambiental como para o próprio planeta, cuja atmosfera vem sofrendo um aquecimento gradual – e catastrófico – graças às emissões que os poços e refinarias ao redor do mundo sustentam.

Ignoram que cada grande reserva de petróleo encontrada – ainda mais enormes, como afirmam que o pré-sal é – é mais um adiamento significativo da hora em que os governos do mundo admitirão a busca por fontes limpas e renováveis como uma providência inadiável e urgente. Representa mais uma carga de milhares ou milhões de toneladas de gás carbônico, metano e outros gases-estufa sendo lançada na atmosfera. É mais um prolongamento da era da dependência crônica da gasolina, diesel e querosene tão poluentes e do automóvel que impede que a bicicleta e o trem assumam um papel importante no transporte de pessoas.

Vejamos que está crescendo no mundo inteiro a cada dia a ideia de que atrelar o desenvolvimento regional ou nacional ao “sangue negro”, em vez de progresso, é uma estagnação ou mesmo um retrocesso, pois nos faz ver que tanto praticamente não saímos do lugar em termos de nos libertarmos da dependência do mesmo como o Estado está destoando do ainda lento progresso mundial de desenvolvimento de energias limpas e economias sustentáveis e tentando reviver a glória do óleo preto.

O pior de tudo é que a mídia comemorou muito os dois empreendimentos, tentou passar a imagem de que eles vão ajudar Pernambuco e o Brasil a decolar economicamente. Quem já não viu os jornais e outros noticiários estampando “A refinaria é nossa!”, “Refinaria trará desenvolvimento ao estado”, “O pré-sal sustentará programas desenvolvimentistas”, “Pré-sal será importante para investimentos” e outros clamores ufânicos?

Em vez de nos sentirmos felizes e aplaudirmos a refinaria de Suape e os futuros poços profundos, deveríamos questionar esse desenvolvimento poluente que está sendo empreendido e a validade de crescer economicamente às custas de uma perpetuada poluição. É concebível que, em tempos em que o meio ambiente está pedindo socorro e demandando mudanças de comportamento institucional, coletivo e individual, continuemos festejando as “vitórias” de um modelo dependente de muita fumaça?

Esses novos empreendimentos oleosos, ao contrário do que os governantes e a mídia tentam anunciar, não são nenhum motivo de alegria e festa. Não gosto de pensar que estamos num país cujo governo, em vez de vislumbrar um futuro de desenvolvimento sustentável e libertação do passado poluente e desmatador, continua construindo uma economia que só prospera porque polui horrores.

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