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Os interesses do mal (e a questão em aberto de como derrotá-los)

Artigo escrito em junho de 2009

Quem nunca ouviu falar dos “interesses de gente poderosa” que há por trás de cada uma da maioria das desgraças de origem humana? Expostos em notícias, artigos, debates e conversas como a causa de grande parte dos problemas de ordem socioambiental e animal, sua existência é inquestionável e, como são sempre nocivos ao extremo, debater formas de enfrentá-los é muito necessário apesar de difícil.

Para quase qualquer problema que for abordado numa argumentação, eles aparecerão: há “poderosos interesses políticos e econômicos” na perpetuação da miséria nos sertões do Brasil, na destruição desimpedida de ecossistemas, na manutenção de uma cultura de tortura de animais para fins de entretenimento ou científicos, no não-questionamento da ilegalidade da maconha,  nas guerras que sustentam o mercado de armas, na inépcia dos mais diversos órgãos governamentais de fiscalização, no controle psicossocial promovido por igrejas e mesquitas, na manutenção da alienação sociopolítica do povo, na implantação (ou continuidade) de um controle policial na internet, na não-reforma das instituições governamentais, na precariedade da educação… Interesses que sempre levam para um mundo pior.

Eles possuem um poder de duplo sentido: enchem e/ou murcham a consciência das pessoas – podendo ser ou não as mesmas. Ora podem indignar ora paralisar todos que deles ouvem falar. Tanto levantam vozes de exortação à luta como rebaixam cidadãos efervescentes à sensação de impotência. Atraem gritos de “Basta!” e lamentos de “Não podemos fazer nada!”.

Isso acontece pelo fato de serem simultaneamente tão malignos e tão poderosos. A maldade do fato de existirem humanos interessados em que, por exemplo, tantas pessoas continuem miseráveis, famintas e mergulhadas em sofrimento indigna qualquer um que tome conhecimento da existência de tais seres. Por outro lado, quando se constata que estes possuem um vasto poder político e econômico, muitos dos indignados já desistem de lutar contra a situação adversa, alegando “impotência”, “falta de poder” e até medo.

Medo que se justifica pelo fato de que muitos dos “interessados” não pensam duas vezes em contratar pistoleiros para eliminar pessoas físicas de pouco poder econômico que denunciam crimes locais praticados em favor dos seus interesses. Os assassinatos de Dorothy Stang, Chico Mendes, Celso Daniel, Cacique Chicão e tantos(as) outros(as) demonstram que, às vezes, quem se interessa pelo mal e pela destruição não hesita em pôr, de forma brutal, para fora da batalha quem luta pela derrota daqueles que apostam num mundo pior.

São esses infelizes interesses contra os quais todos – menos os próprios interessados – são contra mas tão poucas pessoas sabem como combater. É muito relevante que esses(as) privilegiados(as) que contra eles sabem agir sem ter sua vida constantemente ameaçada precisam, pelo bem do planeta e da humanidade, ensinar à sociedade como podemos lutar de forma bem-sucedida para eliminar a interferência dos maus desígnios humanos do nosso mundo.

A princípio esses heróis e heroínas poderiam já mostrar em seus ensinamentos aqui solicitados que não é de qualquer jeito que os interesses podem ser combatidos e seus possuidores, desabilitados. Nem sempre as formas mais conhecidas de oposição – tais como protestos e denúncias jurídico-policiais diretas – são eficientes e dão certo.

Que o digam entidades como George W. Bush, que nem mesmo uma enorme parcela da população mundial, que tanto gritou pela sua saída do poder durante oito longos e escuros anos, conseguiu derrubar e que só saiu do poder na tranquilidade do processo democrático norte-americano, apesar de tanta maldade cometida contra a biosfera e a humanidade; os latifundiários da Amazônia, que foram capazes de matar impiedosamente gente lutadora como Chico Mendes e Dorothy Stang e cujo poder só agora está sendo desafiado de verdade por uma pessoa jurídica já dotada de significativo poder financeiro e político – o Greenpeace –; algumas empresas multinacionais, que nenhum clamor de boicote conseguiu até hoje derrubar e só foram debilitadas de verdade por uma crise mundial de grandes dimensões; os escravocratas do Brasil do século 19, que tiveram que libertar seus reféns de descendência africana bem mais pelas determinações do então ascendente capitalismo industrial internacional do que pelas pressões dos movimentos abolicionistas nacionais.

Como podemos enfrentar os “poderosos interesses políticos e econômicos” que contaminam, paralisam, oprimem e corroem o planeta e a humanidade então? Essa pergunta é algo cuja resposta precisamos, com a força de uma coletividade unida e com a orientação daqueles poucos que estão conseguindo lutar com eficiência e relativa segurança, encontrar tão logo quanto o mundo demanda. O que não podemos é continuar sendo imobilizados e praticamente governados por esses poderes político-econômicos maléficos, interessados no mal geral, que nos intimidam pela sua intensidade e facilidade de invocar a desgraça de opositores humildes e descuidados.

Com as respostas certas em mãos, ainda que elas demorem anos de debate e planejamento estratégico para surgirem, seremos enfim capazes de peitar, sem medo de sofrer graves violências, quem está interessado em nos ver mal e, quem sabe, derrubar seu poder, abrindo as portas para um mundo que poderá melhorar sem o impedimento desses poderosos e maldosos interesses.

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