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Para que servem mesmo os hinos nacionais?

Artigo escrito em fevereito de 2009

Obs.: Este artigo é dirigido não apenas para os brasileiros, mas para todos os países e povos do planeta. Traduzi-lo para outras línguas será de muito bom grado. Também não busca inferiorizar o Brasil ou qualquer outra nação em relação às demais, muito pelo contrário.

“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas…” Quando ouço essa música, em vez de sentir “orgulho” do país, pensar na suposta superioridade ambiental do mesmo, imaginar o Brasil como potência geopolítica num futuro hipotético, começo a pensar: para que servem mesmo os hinos nacionais? Qual a contribuição deles para um mundo melhor e mais unido? A utilidade do hino, em meu pensamento, se faz fortemente questionada.

Mediante essas questões, me vem à mente a ideia de que os hinos são resquícios de uma época em que o nacionalismo, o sentimento de que seu país é superior a todos os demais, era tratado como uma virtude e um valor inquestionável – ou melhor, questionável apenas por anarquistas. Entretanto, quando se muda o ângulo da visão do mundo, da arrogância patriocêntrica à filosofia de união internacional, percebemos que os hinos nacionais são dispensáveis num mundo unido e igualitário que irreleve diferenças territoriais, étnicas e religiosas.

A opinião favorável ao hino patriótico afirma que ele é bom porque exalta os esforços, tradições e virtudes do povo, valoriza a riqueza ambiental do país e releva a identidade nacional. É muito bonita a intenção, mas e os outros povos, as outras nações? O que realmente faz tal pátria ter um povo mais esforçado e virtuoso e melhores tradições do que todas as outras? Por que temos que necessariamente crer que somos “melhores” em vez de tratar todos os povos e nações do planeta como igualmente dignos e lutadores?

É essa a ideia mais imediata que o hino nacional passa: a de que a nação tal é superior e deve ser venerada mais que todas as outras. Amar um pedaço de terra encerrado por linhas imaginárias que separam povos e lhes motivam ocasionais desuniões, discórdias e dissensões, valorizar mais este trecho específico do planeta do que o mundo como um todo, só porque nascemos dentro dos seus limites territoriais.

O pensamento da união e igualdade mundiais recusa essa acepção. Não há porque um país se arrogar melhor que outro. Não há razões válidas para um Estado repetir periodicamente aos seus governados que “sua pátria é a melhor e deve ser amada acima de qualquer outra região do mundo”. Enfim, o nacionalismo, tão importante num mundo repleto de guerras e discórdias que obrigam a promoção de lutas sangrentas por liberdade, não faria sentido num planeta de países absolutamente solidários e amigos.

E é esse nacionalismo que é exaltado nos hinos nacionais. São eles que lembram à passional psique coletiva dos habitantes do país que eles vivem no “melhor país”, são o “melhor povo”, habitam o “melhor ambiente” e, às vezes, professam a “melhor religião”. E tome ufanismo, que, se não é acompanhado de uma devida educação pregadora da igualdade entre os povos (!), abre uma grande suscetibilidade a desgraças como xenofobia, ódio étnico e intolerância religiosa.

Para piorar, grande parte dos hinos pelo mundo exaltam venenosamente o hábito de guerrear. Hábitos e detalhes de guerra não faltam nessas canções: pegar em armas (exemplo: Portugal), marchar rumo à batalha (China), não fugir da carnificina da guerra (Brasil), morrer em guerra pelo país (Brasil também), estouro de bombas (EUA)… Em várias ocasiões, também há a exaltação de uma religião ou deus específico, como na Arábia Saudita (islamismo), Israel (judaísmo), EUA (deus cristão) e Venezuela (idem).

O que esperar de um mundo fragmentado em pedaços onde se cantam odes à suposta superioridade de cada um senão desunião, discórdias, explosões de ódio e, logicamente, guerras?

Há, entretanto, exceções, pelo menos uma. Trata-se do hino de Belarus, o qual defende o pacifismo nacional e a amizade entre os povos. Canta sim o louvor à nação, mas saudavelmente não é aquele louvor patriocêntrico, do tipo “minha pátria é a melhor”. Se todos os hinos nacionais fossem assim, os sentimentos dos mais diversos povos estariam ao menos bem mais acalmados, bem menos incitados ao fervor da luta violenta.

Abolir ou mudar radicalmente os hinos nacionais seria um alívio para a animosidade entre nações e povos, muito embora não fosse a panaceia que pacificaria a humanidade. Além do mais, só daria certo a pacificação dos símbolos nacionais se essa fosse uma tendência que já começasse com uma grande adesão, com muitos países ao redor do mundo decretando no mesmo dia ou semana o banimento da guerra e da superioridade nacional entre os seus valores pátrios.

No presente momento, no qual a universalização da ideia de questionar a função dos hinos patriocêntricos e violentos ainda é apenas uma distante utopia, vale tentar deixar de lado a passionalidade patriótica e começar a refletir se realmente está sendo bom para o país e para o todo internacional repetir periodicamente uma música que insiste que “esta pátria é a melhor e vamos à guerra para reafirmar isso”.

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8 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Paixão Guedes

julho 14 2015 Responder

O hino da República, serve para descrever a história de um determinado país.

    Robson Fernando de Souza

    julho 16 2015 Responder

    É daí, Guedes, que vemos como a história humana é permeada por muito sangue, já que, se “o hino da República [e também de países monárquicos] serve para descrever a história de um determinado país”, então temos a conclusão de que a maioria dos países tem sua história banhada com sangue derramado por espadas, flechas, lanças e tiros.

Vitor

junho 16 2014 Responder

Os hinos e símbolos patrióticos são a epítome da cultura do inimigo, seja interno ou externo, representam o sentimento de aceite de massacres e desumanidades, impediram ao longo de toda a história da humanidade que ela se identificasse como espécie para que se identificasse como grupos inconciliáveis, introduz o sentimento de exclusão, de desprezo à vida humana, separa os que devem morrer, seja pela mão do estrangeiro ou de sua própria gente.

    Robson Fernando de Souza

    junho 16 2014 Responder

    Ótima colocação, Vitor =) Valeu =)

M.Eduardo

junho 23 2012 Responder

Quanto a esse tema eu vou discordar um pouco. É um pouco como a cultura do politicamente correto, que chega a querer trucidar a obra de escritores como Monteiro Lobato, sem entender o contexto em que foram produzidas.

Vejo os hinos nacionais como obras de arte, gosto de muitos deles, tanto que tenho uma coletânea em CD. Concordo que em muitos casos são ou se parecem com cânticos de guerra, o que não quer dizer que devam funcionar assim.

Um famoso Senador da República uns tempos teve a ideia de “corrigir” a bandeira nacional acrescentando a palavra Amor, que foi suprimida pelos nossos republicanos e que constava do lema positivista.

Faria diferença? Creio que não. Um pouco como o acordo ortográfico (com o qual estou até hoje em desacordo, e só sigo publicamente porque respeito as outras pessoas), seria uma boa para vender novas bandeiras, como aquele serviu para vender novos dicionários.

Mais do que querer mudar os símbolos, que tem seu valor histórico e artístico, as pessoas deveriam mudar suas atitudes e seu pensamento. Isso não vai ser feito pelos símbolos.

Assim a questão do patriotismo, que deveria ser visto mais como um sentimento positivo em relação à terra em que nasceu e cresceu, e não como um ódio aos forasteiros. Isso é o nacionalismo, que é uma questão política, presunçosa e preconceituosa de achar que nós nacionais somos melhores que outros.

O mesmo se poderia pensar do esporte, especialmente do futebol, que foi desvirtuado de muitas maneiras, e a culpa não é dos uniformes ou dos hinos, mas da atitude dos torcedores.

Por isso entendo que o importante não é mudar os signos, mas os seus significados. Em alguns casos até entendo que as letras possam ser amenizadas, mas é indispensável que as atitudes também sejam. Senão vai soar como hipocrisia…

    Robson Fernando de Souza

    junho 23 2012 Responder

    Eduardo, creio que a questão dos símbolos nacionais vai em linha parecida com a violência simbólica, uma vez que faz os dominados por um Estado opressor e apenas parcialmente democrático (vide a limitada democracia liberal) naturalizarem essa dominação. E da mesma forma, compreender a mensagem discursiva por trás de um hino – a guerra, a superioridade nacional, o próprio orgulho de ter nascido em um determinado território – tem o mesmo efeito de compreender a força dominante por trás da violência simbólica e passar a se opor convictamente a ela.

      M.Eduardo

      junho 26 2012 Responder

      Concordo que os símbolos nacionais podem servir de instrumento para esse adestramento subreptício, mas é importante reparar que podem servir de instrumento, ou seja, o problema não reside no símbolo (que não é mau de per se), mas no seu uso para determinado fim.

      Assim sendo, entendo mais adequado para combater a violência simbólica não a abolição ou correção dos símbolos, mas justamente cultivar o juízo crítico, de forma a anular ou bloquear aquela manipulação segundo a qual os símbolos são usados. Daí a importância de um texto como esse, pois põe o tema em discussão, fazendo com que as pessoas reflitam sobre o problema.

      É interessante lembrar, por exemplo, que durante o período da ditadura, muitos evitavam manifestações patrióticas exacerbadas (exceto, talvez, torcer para a seleção…) para não fazer o jogo do regime. De modo semelhante, quando Collor convocou o povo para sair de verde e amarelo, tomou a resposta da população, que saiu em manifestações vestindo preto. São casos que demonstram uma postura crítica, que não se voltaram contra os símbolos, mas contra a manipulação e os manipuladores.

      O que me incomoda mesmo é realmente a imposição ritualística. Não é o hino em si, mas a imposição do hino, como cerimônia em escolas, antes de eventos esportivos, etc. Em Cuba fazem o mesmo…

      Porém, entendo que isso, ao invés de intensificar o adestramento, acaba gerando o efeito contrário, porque muitos consideram isso um aborrecimento, e dão de ombros, só cumprem a formalidade. É mais ou menos como as aulas de matemática, onde maus professores acabam desestimulando o interesse pela matéria… Ao invés de provocar o envolvimento e a cooptação, acabam provocando a repulsa ou a indiferença.

      *

      Aproveito a oportunidade para fazer uma sugestão para o blog, uma seção sobre livros. Acho que seria interessante para as pessoas que queiram ler mais sobre os temas aqui discutidos.

      Por exemplo, no primeiro comentário, fiz uma distinção entre nacionalismo e patriotismo, conforme o proposto por John Lukács, citando George Orwell, em “O Hitler da História”. Também acabei me lembrando do pensamento de Tolstoi, que escreveu “Patriotismo e Governo”. Violência simbólica aludiu à obra de Pierre Bourdieu.

      Tudo isso poderia compor uma bibliografia muito rica, e poderia ajudar ainda mais a promover essa busca do esclarecimento a que devemos nos propor.

Fernanda Toffuli

setembro 13 2010 Responder

Muito bom!
Você já viu a letra do Hino alemão? Foi reestruturado após o nazismo…também, pudera não é?
Gosto dessa visão de não nacionalismo, o mundo parece diminuir.
Não sou patriota e muito menos nacionalista, mas, descobri ao acaso, a letra inicial do hino brasileiro, e pensei: Por que não? Com título de curiosidade, tudo vale.

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