10

fev10

Por que a pesca e a aquicultura fazem mal e são dispensáveis

Artigo escrito em agosto de 2009

Muito recomendados como alimentos nutritivos e saudáveis, os frutos-do-mar estão sendo valorizados nestes anos de combate à alimentação nutricionalmente ruim. A tal fonte de saúde e boa vida apregoada por nutricionistas e culinaristas, entretanto, esconde uma realidade muito triste que, uma vez conhecida, enfraquece quem vem recorrendo ao peixe, ao crustáceo e ao molusco como fontes de “boa carne”: o sofrimento e a morte dos animais que são capturados na água e os danos ambientais infligidos, estes quase sempre enormes.

Quem busca o melhor ao comer carnes vindas da água não sabe ainda que a saúde vendida pela indústria de “pescado” tem um custo altíssimo, ou melhor, impagável, que são os bilhões de vidas eliminadas anualmente pela pesca e pela aquicultura, sempre com enorme sofrimento, e os ecossistemas aquáticos e costeiros que vêm sendo destruídos e esvaziados por essas atividades.

A verdade precisa ser revelada para que se perceba que, mesmo que façam bem à saúde, os frutos-do-mar fazem muito mal aos animais e ao meio ambiente. E são substituíveis nutricionalmente.

A morte dos peixes

No caso de pescar com varas, primeiro a mandíbula é perfurada, com o anzol mordido varando a pele do peixe, e em seguida o bicho é içado velozmente, potencializando a dor do gancho. É como uma pessoa ser furada na coxa por um arpão vindo de cima e levantada com toda força de modo que fique pendurada pela lança. Já na pesca por rede de arrasto, um cardume é surpreendido por um obstáculo e põe-se em agitação máxima, no desejo incontrolável e desesperado de resistir ou fugir da predação.

Depois de ser posto no assoalho do barco, no samburá ou em outro lugar que guarde os corpos pescados, o animal começa um sofrimento que vai durar minutos. São longos instantes, que mais parecem uma eternidade, de uma luta pela vida que irá invariavelmente fracassar. Procura-se inutilmente por água que contenha oxigênio diluído. Debate-se longe da água, tanto na tentativa de se locomover para voltar ao seu ambiente aquático como pela agonia de não poder mais respirar.

Depois de geralmente menos de dez minutos de angustiada luta contra a morte, a indesejada das gentes e dos bichos vence. Um fim bastante triste, uma morte cujo sofrimento é comparável ao causado nos mais cruéis matadouros.

Abatendo crustáceos e moluscos

Há cinco formas mais comuns de morte de crustáceos e moluscos nas mãos humanas. Apesar da variedade de abates, o sofrimento causado é quase uniformemente descomunal, exceto pelo pouco conhecimento do nível da senciência de moluscos de concha bivalve.

a) Fervura: Depois de certo tempo – de horas a dias – confinado na colônia de pesca ou no bar onde sua carne será comida por pessoas, o animal é jogado vivo em água fervente pelos cozinheiros. É um fortíssimo ardor que lembra o inferno cristão. A agonia da fervura dura menos que a asfixia dos peixes, mas é uma crueldade que não pode ser descrita em palavras.

b) Choque elétrico: Os crustáceos são confinados num reservatório com água e em seguida mortos por descargas elétricas. Os pulsos podem ser múltiplos e demorar alguns segundos, o que quer dizer que o animal não morre mesmo depois de eletrocutado uma ou duas vezes, mas permanece agonizando. A agonia é indescritível. É como uma execução humana por cadeira elétrica, mas menos demorada.

c) Choque hipotérmico: Os animais morrerão dentro de um tanque contendo água a quase zero grau e gelo picado, por choque térmico. Estarão mortos depois de uma média de três minutos sofrendo com lenta decadência das funções orgânicas. São condições análogas a um inferno gelado.

d) Ingestão de moluscos vivos: moluscos com concha de duas faces, como ostras e mexilhões, são ingeridos vivos na praia. Quando o vendedor abre a concha e cutuca o animal com a ponta de um talher ou com gotas de limão, pode ser percebido que ele ainda vive, uma vez que ainda se mexe. Assim sendo, o bicho é engolido vivo nesse caso, se não foi triturado pela mastigação de quem o come.

e) Congelamento ou cozimento: ostras e mexilhões também podem ser congelados vivos, assim como cozidos depois de retirados da concha. Ainda não há certeza sobre se moluscos bivalves, em que essas espécies se incluem, sentem dor, frio e calor como animais mais desenvolvidos, mas é sabido que podem se mexer e sentir sensações como pressão.

Consequências ambientais da pesca e da aquicultura

A pesca industrial e a aquicultura cresceram e tornaram-se implacáveis inimigos de ecossistemas marinhos e estuarinos. Chamam a nossa atenção alguns fatos sobre o poder destrutivo dessas formas de explorar e matar animais aquáticos:
– Mais de 75% da população de peixes do mundo está ameaçada por causa da pesca predatória;
– A carcinocultura no litoral tropical da América do Sul tem sido responsável pela destruição de muitos mangues;
– A pesca em larga escala no Mar do Norte vem competindo com aves que sobrevoam o mar, roubando até 30% das presas de que elas se alimentam;
– Em locais como o Mar do Norte e o Mar da Irlanda, a pesca de arrasto tem diminuído as populações de diversas espécies bentônicas (habitantes do assoalho marinho) ao longo das últimas décadas em até 50%;
– A captura de certas espécies de peixes em ambiente natural vem implicando a destruição de corais de água fria milenares.
– Uma vista em imagens de satélite nos permite ver também a destruição causada pelo “cultivo de frutos-do-mar” em estuários, onde são notadas devastações parciais.

Só há duas saídas possíveis para se deter tal destruição: muitas pessoas, dentre os bilhões que comem carne branca, pararem totalmente de comê-la e recorrerem a alternativas vegetarianas ou diminuir-se muito, de forma mais uniforme, o consumo médio per capita da mesma até o ponto em que a pesca deixe de comprometer as populações animais. A segunda é mais provável por a diminuição não ser uma decisão tão forte, mas, se se tornar realidade, comprometerá justamente os tais bons efeitos nutricionais, já que serão menos nutrientes sendo ingeridos por pessoa.

Alternativas nutricionais

Fala-se muito dos benefícios nutricionais dos frutos-do-mar para a saúde, mas felizmente há alternativas vegetarianas para todos os nutrientes tão falados como propriedades maiores daqueles:
– proteínas, que podem ser obtidas de grãos (arroz integral, aveia, trigo etc.), sementes e nozes (castanha, nozes, sementes de girassol etc.), leguminosas (feijão, lentilha, ervilhas etc.) e derivados de soja;
– ácidos graxos ômega 3 e 6, que podem vir de nozes, sementes (destacando-se linhaça) e óleos vegetais;
– vitamina D, que pode ser fabricada pelo corpo mediante exposição ao sol.

Conclusão

Mesmo que seja considerada sagrada por algumas crenças religiosas ou saudável por nutricionistas, as carnes de origem aquática não fazem nada bem para os animais, que sofrem bastante antes de morrer fora d’água, e para o meio ambiente, que vê muitos de seus ecossistemas serem destruídos e muitas populações da fauna de mares, rios e lagos serem dizimadas pela pesca e pela aquicultura.

Assim sendo, ao tomarmos conhecimento desses sérios problemas, descobrirmos que podemos substituir esses animais na alimentação por fontes livres de crueldade e tomarmos o pensamento de que não precisamos viver sustentados pela agonia de tantos bichos e ecossistemas e estes não existem para nos servir, essa substituição se faz um dever ético. O valor de poupar vidas e preservar o meio ambiente é infinitamente mais saudável e sagrado do que a ingestão da carne de peixes, crustáceos e moluscos.

Referências:

Ribeiro, P.A.P. Criação de camarões de água doce. Disponível em http://www.editora.ufla.br/BolExtensao/pdfBE/bol_20.pdf , acesso em 10 de abril de 2009.

Despescas. Criar e plantar. Disponível em http://www.criareplantar.com.br/aquicultura/camarao/zootecnia.php?tipoConteudo=texto&idConteudo=629 , acesso em 10 de abril de 2009.

SIAC – Sistema de imobilização e abate de crustáceos. Disponível em http://www.patentesonline.com.br/siac-sistema-de-imobilizacao-e-abate-de-crustaceos-138903.html , acesso em 10 de abril de 2009.

Feias e gostosas. Época. Disponível em http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT470163-1664-2,00.html, acesso em 30 de agosto de 2009.

Dicas. Ostra Viva. Disponível em http://www.ostraviva.com.br/dicas/dicas.php, acesso em 30 de agosto de 2009.

Somme, Lauritz S. Sentience and pain in invertebrates. Report to Norwegian Scientific Committee for Food Safety. DIsponível em http://vkm.no/dav/bc43a5b4b3.pdf, acesso em 30 de agosto de 2009.

Impacts of fishery activities. FAO Fisheries and Aquaculture Department. Disponível em http://www.fao.org/fishery/topic/12273 , acesso em 9 de dezembro de 2008.

Kenchington, E.. The effects of fishing on species and genetic diversity. Disponível em ftp://ftp.fao.org/fi/document/reykjavik/pdf/14kenchington_v6_final.PDF, acesso em 9 de dezembro de 2008.

The state of world fisheries and aquaculture. Rome: FAO Fisheries Department, 2004. p. 117. Disponível em ftp://ftp.fao.org/docrep/fao/007/y5600e/y5600e03.pdf, acesso em 9 de dezembro de 2008.

Ácidos graxos – ômega 3 e ômega 6. Copacabana Runners – corrida e saúde. Disponível em http://www.copacabanarunners.net/acidos-graxos.html, acesso em 30 de agosto de 2009.

Gilbert, Monique N. Vegan Sources of Vitamin D? VegWeb.com. Disponível em http://vegweb.com/index.php?topic=12073.0, acesso em 3 de agosto de 2009.

Schanfarber, Lucretia. Vegetable proteins. Alive. Disponível em http://www.alive.com/1853a5a2.php?subject_bread_cramb=463, acesso em 3 de agosto de 2009.

imagrs

2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Ana Cláudia

março 16 2010 Responder

Às vezes concordo com o Ricardo.

Ricardo

fevereiro 19 2010 Responder

O suicídio coletivo da humanidade é a solução.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo