Por que a vaquejada é uma maldade
Artigo escrito em julho de 2009
A vaquejada encanta multidões, mais ainda quando os vaqueiros obtêm vitórias com a proclamação “Valeu o boi!”. A vitória deles é a vibração de quem assiste. Para os vaqueiros e o público, é uma festa só. Mas e para os animais envolvidos nessa atividade? Eles gostam de ser freneticamente esporados ou de ser perseguidos e derrubados? É algo a se pensar sobre a moralidade de um dito esporte que, se vermos mais a fundo, consiste necessariamente em explorar e agredir animais.
Você que gosta de vaquejadas precisa entender o lado dos bois e dos cavalos também. Eles, ao contrário dos humanos que se divertem à beça, não saem nem um pouco beneficiados com a vida que têm. Se pudessem falar, você se surpreenderia com o desgosto deles por terem que viver com o fim de ser explorados e judiados em competições.
Por mais formosos que pareçam quando aparecem nas exposições de animais, eles sentem dor, bastante dor, e até medo durante as vaquejadas.
O puxão do rabo do boi dói bastante nele. Mesmo que ele seja considerado um boi fortão, considerado ótimo para vaquejadas, o puxão aplicado pelo vaqueiro quando ele vai para um lado e o animal para outro é forte demais para ele não sentir nenhuma dor. Isso é comparável com quando um maratonista que corresse atrás de você num campo de areia puxasse seu cabelo quando te encontrasse para te derrubar no chão. Você sentiria muita dor, assim como o touro sente quando é puxado e derrubado.
Sem falar em quando o animal tomba na pista e se atrita com o chão sertanejo, que não é rígido como cimento duro mas não é nada fofo. Já pensou em quando ele bate a cabeça no solo, o que não é raro?
Já nos cavalos, quando há o uso de esporas pelo vaqueiro, as esporadas dele doem bastante, mesmo quando não são aplicadas com esporas pontudas. Se seu filho pequeno calçasse botas com esporas em forma de moeda – as permitidas pela lei –, subisse em você como se você fosse um cavalo e começasse a te esporar brincando de vaqueirinho, você sentiria bastante dor nas costelas ou na lateral de seu abdômen.
Um outro detalhe: por que o boi sai do brete correndo tanto, se não é normal que um boi calmo corra tão rápido? Você já se perguntou sobre isso? Já passou pela sua cabeça que ele pode estar correndo por medo instintivo de ser caçado por um agressor? Já imaginou que esse medo pode ter sido induzido por agressões ocorridas dentro do brete? Aliás, o que se passa ali dentro? Você já se perguntou sobre isso, que nos é um mistério frequentemente respondido com mentirinhas ditas para desconversar?
É certo que nos divirtamos tanto só porque breteiros e vaqueiros causam medo e dor nos animais envolvidos?
Você pode pensar que esse sofrimento é compensado pelo ótimo tratamento que os cavalos de competição e os bois de puxar recebem quando não estão nos parques de vaquejada. Mas lhe digo que não, não há compensação para a dor e a tortura.
O cavalo de competição pode ser tratado como rei durante seu descanso, mas nada lhe compensa a violência, a dor das esporadas que o vaqueiro lhe aplica quando quer que ele corra o máximo possível para acompanhar o boi na pista. Quanto ao boi, pode ser até endeusado enquanto repousa no campo ou no curral, mas nada lhe pagará o fato de sofrer coisas dentro do brete que não nos são devidamente reveladas, o sentimento negativo que manifesta quando acelera na pista ou a dor sentida quando tem seu rabo tracionado por um cavaleiro de braços fortes que corre para outra direção e quando rola no chão de areia.
Peço a você um pouco de empatia, a capacidade de se ver no lugar de outra pessoa ou ser vivo, e faça um exercício mental em que você se põe numa situação parecida com esses animais supostamente tratados como nobres. Imagine-se preso numa fazenda, sendo servo do fazendeiro. Ele lhe dá a melhor alimentação e as melhores opções de lazer rural. Mas nessa suposição, esse bem-bom tem um preço: ele reservará meia-hora por dia para te prender numa casinha no meio do campo, te agredir de modo a lhe infligir bastante medo, abrir a porta da casinha, correr como um atleta para alcançar você – que estará correndo desesperadamente na ânsia de fugir da fazenda em que você está preso – e derrubá-lo no chão puxando seu cabelo crescido. Ele justifica sua prisão e exploração argumentando que você não tem sentimentos e vive para ser servo dele. Cinco anos depois, ele te vende por 50 mil reais para outro fazendeiro que fará as mesmas coisas com você.
Você gostaria de ter essa vida? Se não gosta, por que então compactua com uma atividade dita esportiva, a vaquejada, que faz algo bastante parecido com tudo isso com os animais?
Você pode argumentar então: “mas a vaquejada é parte de nossa cultura, é tradição, é a expressão esportiva da força do vaqueiro, que é o herói do Nordeste. Como vamos ficar sem uma tradição tão expressiva que é a vaquejada? Proibi-la é mutilar a identidade da região.”
Algo ser tradição não significa necessariamente que é algo bom e ético. Nas aulas de História, aprendemos sobre a escravidão, que moveu a economia brasileira por mais de 300 anos. Naquela época, falavam coisas muito parecidas: “Escravidão é tradição, é parte de nossa essência”, “Como viverá o Brasil sem a escravidão dos negros?”, “Proibir a escravidão negreira seria mutilar nosso país”.
Na Europa de antigamente e também na população brasileira de descendência portuguesa até a época imperial, as mulheres eram submissas aos seus maridos por determinação cristã (se duvida, leia na Bíblia as passagens em Efésios 5:22-24, I Timóteo 2:11-14 e I Coríntios 14:34-35). Essa era uma tradição, era parte da cultura cristã. Você aceitaria preservar a submissão feminina caso ela ainda estivesse em vigor só porque ela era parte de nossa cultura e tradição?
Se nossa região abolisse as vaquejadas e adotasse o respeito incondicional aos animais como parte de seus valores, o povo, como sendo tão criativo como sempre foi, certamente criaria novas formas de diversão e manifestação cultural, do mesmo jeito que criou o forró, o riquíssimo artesanato e tantos outros elementos artístico-culturais.
Então por que você se incomoda tanto com a ideia da abolição das vaquejadas? Por que se apega tanto ao valor cultural dela, se ela não é insubstituível e não é uma tradição saudável e digna de ser preservada?
Não é difícil entender que a vaquejada é uma atividade baseada na exploração e violência contra animais e não é uma tradição indispensável cujo fim vá fazer mal à nossa cultura. Se formos ver que a agressão contra bois e cavalos, para qualquer fim que seja, é um mal porque causa dor e medo neles, veremos que esse dito esporte não é uma atividade moralmente positiva.
Se eu fosse você, passaria a evitar vaquejadas. Começaria a boicotar esses espetáculos violentos que nos tornam pessoas sem sensibilidade e compaixão para com os animais.
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11 respostas a Por que a vaquejada é uma maldade
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Concordo em algumas partes com o texto, mas deixo claro que os bois não caem no chão duro do sertão nordestino, até porque, essa idéia de que tudo no Nordeste é muito feio, seco e pobre é bastante atrasada. Os parques de vaquejada dispõem de uma pista de derrubada com areia bem fofa, mesmo que o boi sinta as dores da puxada, a dor da queda ele não sente tão forte assim.
Clara, um “conforto” a mais pros animais não retira da vaquejada o status de forma de violência e exploração animal.
E, aliás, não expressei no texto a ideia de que “tudo no Nordeste é muito feio, seco e pobre”. Pra falar a verdade, a vaquejada é que queima o filme do Nordeste perante o Brasil.
Gostei muito do artigo, concordo até certo ponto, Mas hoje os parques de vaquejadas usam areia fofa, assim os bois não caem no chão duro, os bois são os animais domésticos que tem o torax e costelas mais fortes, assim e comprovado que ele não sente tanto as quedas das vaquejadas.( Embora pode ocorrer que eles torçam ou quebrem as pernas e assim seja sacrificado. é raro mais acontece.) porém , os bois que correm vaquejadas ja sabem o que fazer quando entrar nas pistas, portanto não e necessario as agressões dentro do brete, quanto aos cavalos, eles tem um treinamento para aquele esporte, ( o que não significa que n sofram,mais não tanto), as esporas não precisam furar para o animais entender o que fazer( apenas para lembra-los, e essas esporas não machucam), um cavalo de vaquejada sabe que tem que ta perto do boi, então quando o boi sai do brete ele ja vai atraz. Vaquejada é uma festa muito bonita além de ser tradição nordestina, embora ainda haja alguns pontos que deverim ser revistos e quem sabe alterados. Ela não causa esse stress todo ao animal, causa stress sim, mas nada que possa prejudicar na saude do animal. Esta de parabéns pelo texto, Abraço.
Respondendo em partes:
O que importa é não tanto se os bois caem no duro ou não, mas o fato de que eles são derrubados. E isso é uma violência de qualquer maneira. Por mais fortes e musculosas que sejam as vítimas, a violência contra inocentes nunca é justificável.
Você disse bem: é raro, mas acontece. Mesmo se apenas 1 animal tivesse sido morto por injúria na vaquejada, essa não deixa de ser uma atividade violenta.
Fala-se isso pelos adeptos da vaquejada, mas faltam fiscalizações isentas. Assim sendo, não é possível ter certeza de que não há violência e outros abusos dentro do brete.
Melhor dizendo, mesmo que nos bretes nada aconteça de muito cruel, a vaquejada não se torna ética por isso.
Primeiro, gladiadores também eram treinados pra matar e morrer nas arenas. Ainda assim ninguém, nem você provavelmente, gostaria de ver lutas de gladiadores voltando e tornando-se modalidade esportiva moderna, uma vez que a atividade provoca mortes.
Segundo, os cavalos não podem recusar o treinamento, não têm a opção. Basta que tenham certo porte físico pra serem obrigados a treinar por toda a sua vida “útil”.
Terceiro, você mesmo admite que os cavalos sofrem, ainda que “um pouco”. Achas que os personagens humanos da vaquejada têm o direito de fazer os cavalos sofrerem esse “pouco”?
Se as esporas não machucam, não incomodam com suas batidas repetitivas, pra que elas servem? E como funcionam?
E elas não precisam ser pontudas pra incomodar alguém com suas batidas. Você mesmo não iria gostar nada se um filho seu brincasse com você de cavalinho e te esporeasse nas costelas.
Touradas também são consideradas por muitos uma “festa muito bonita”, embora envolva crueldade. E tradição não é justificativa ética. Uma coisa não é boa e ética só porque é tradição. Escravidão humana foi tradição no Brasil por mais de 300 anos, e nem por isso as pessoas pedem pela volta da mesma.
E não há nada a ser alterado na vaquejada. Ela é que deveria ser proibida como um ato de violência contra animais.
Primeiro, você admite que a vaquejada causa estresse. E estresse causa sofrimento. E causar sofrimento em animais é uma violência.
Segundo, pra ética, não importa se o animal teve a saúde prejudicada ou não. O que importa é que ele sofre violência.
Terceiro, um soco no rosto ou uma chibatada não prejudica a saúde da pessoa, mas não deixa de ser uma óbvia violência.
Bom, em nenhum momento falei que vaquejada era um esporte extremamente ético, apenas falei que não concordava com alguns pontos de seu texto. Também não falei que algo, não deixa de ta errado por que é tradição em nenhum momento, apenas afirmei que vaquejada é tradição nordestina o fato é que você também não conhece o que é vaquejada, e o que ela representa para o nordeste e o povo nordestino, por isso cita em seu texto coisas que nem se quer existem e chega a comparar a vaquejada com a escravidão, o que não tem absolutamente nada ver. Espero que você faça novos artigos relacionados ao tema, mas que você se informe melhor sobre o que é vaquejada, como funciona e o que ela representa para o nordeste.
Abraço, fique com Deus.
Também não falei que você disse isso.
Pontos que trepliquei, como você pôde ver.
Sim, e tradição não quer dizer nada eticamente falando.
Sinto dizer, mas tem tudo a ver. Vaquejada é violência e escravidão animal, e não há nada que possa ser feito pra questionar essa afirmação.
Sobre as coisas que “nem sequer existem”, ainda é cedo pra se tirar essa conclusão, já que o interior dos bretes é um relativo mistério, visto que a vaquejada ainda não é combatida pelos movimentos nordestinos de defesa dos animais.
O que ela representa pro Nordeste? Apenas vergonha.
Claro que representa vergonha, para um desinformado e preconceituoso. Que escreve sobre coisas que nem sequer tem algum conhecimento a respeito. Lamento muito por você.
Eu lamento por quem aprecia vaquejadas e vê nela uma ética que não existe.
meu povo ignorancia é uma das coisas mas feias que existem no mundo como vcs podem falar sore um certo assunto que vcs nem conhecen ???
a vaquejada é uma das festas mas bonitas d nordesti traz emprego renda turisto e etc uma tradição que ja veio de muito tempo e passada de geração a geração acidentes acontecem em tds os esportes tais filipe massa na formula 1 airton sena….. e tantos outros e se a vaquejada é um esporte violente então oq falar do U F C boxe e outras artes marcias ??? ….. por
Roberta, em primeiro lugar, melhore sua ortografia, ela é sofrível e diminui dramaticamente a força de sua argumentação.
Em segundo lugar, você iria gostar de participar à força, sem qualquer possibilidade de escolha, de um “esporte” violento que consiste em agredir você?
Comentário revoltadinho e ofensivo apagado. Se quiser comentar defendendo a vaquejada, pode fazê-lo, mas faça-o com respeito. Textos com xingamentos são proibidos aqui e não são considerados como argumentação válida.
Sem mais,
RFS