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Problemas tratados com gozação e festejo, um vício social

Caminhadas pela paz parecem mais eventos musicais que visam o entretenimento do que manifestações sérias contra algo.

Artigo escrito em dezembro de 2009

Sabem as piadas que fazem com corruptos e com favelas? E as “caminhadas pela paz” que contam com trios elétricos? Elas mostram um costume viciado e nada positivo do povo brasileiro: gozar dos problemas com humor debochado e festividade.

Enquanto vemos nos noticiários cidadã(o)s em outros países fazendo protestos revoltados nas ruas contra, por exemplo, reformas antipopulares e eleições fraudulentas, aqui flagelos como a violência e a corrupção, enquanto nunca são alvos de mobilização massiva, recebem frequentemente um tratamento popular que em nada transparece seriedade e luta.

Quem nunca participou de alguma roda de conversa em que se “tirou onda” com o assunto da violência ou o problema das favelas? Quem ainda não se deparou com algo do tipo “Funk do Mensalão” ou “Funk do Sarney”? Quem nunca viu alguém rir de algum escândalo de corrupção? E as piadas de corrupto? E os programas humorísticos da TV que toda semana nos mostram sátiras banais de tudo que nos impede de ter um país justo e harmonioso?

É um “humor” de mau gosto, que trata um mal muito sério com naturalidade em vez de indignação e inaceitabilidade. O/a piadista sem noção e quem ri dele/a não tratam do assunto como algo errado que deveria ser punido ou mudado, mas sim como se fosse inerente ao Brasil e à sua sociedade e, achando-se que não resta outra solução para o problema fora aceitar e conviver, passam a reduzi-lo a algo banal e até engraçado.

Em vez de se discutir como a questão poderia ser combatida ou resolvida com a influência do povo, aceita-se-a como algo normal. Ao invés de palavras de protesto, risos. Assim o mal nunca será tratado como se deveria: como um mal. Será sim incorporado à tradição cultural. E, sem muito esforço a mais, até aos costumes. Se alguém não acha antiético e inaceitável que se desvie dinheiro em proveito pessoal, não será difícil que ache legal e comece também a furtar o patrimônio público onde ninguém pode ver.

Quando não é naturalizando com piadinhas, é “manifestando-se” em eventos que mais lembram festas do que protestos. Os exemplos mais emblemáticos são as “caminhadas pela paz” em que centenas ou milhares de pessoas vestidas de branco saem em desfile em alguma avenida com a intenção de “pedir paz”.

Muitos desses eventos contam com a presença de cantores/as e até trios elétricos. Tais caminhadas mais parecem shows do que manifestações. Seus cartazes anunciam: “presença de artistas locais e nacionais”, dando a impressão de que o objetivo da caminhada não é protestar, mas divertir a população, ainda que seja com canções com o tema da paz.

Também marca esse tipo de evento a falta de ares de protesto. Tudo é calmo. Cantam, desfilam, ao contrário das manifestações realmente fortes, em que se critica ferozmente o governo que não atende às necessidades da população, se promove alguma intimidação ao poder público inepto e se interrompe a rotina urbana por uma causa maior. Não é uma força que pressiona o governo com o rigor de uma população indignada e sedenta de providências imprescindíveis, mas um movimento que lhe pede educadamente que resolva o problema.

Somos um povo que não sabe lidar com os males do país com seriedade e indignação. Onde deveria haver brados de “Não podemos aceitar!” e “Se o governo não escutar, a cidade vai parar!”, muitas vezes escutam-se funks cômicos, piadas e gozações ou música alegre. É de se refletir: que governo vai combater um mal que um povo trata com brincadeira e festa? E como vamos ter o direito de querer um país melhor se banalizamos seus piores problemas?

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Erwin Claus

junho 7 2010 Responder

Concordo plenamente com a “farsa” das passeatas sem sentido, sem finalidade, porém discordo do extremismo de manifestações, também do humor com os problemas. O Problema atual da sociedade brasileira não é a falta de ação, e sim o extremo espelhamento nas culturas alheias ao país.

A ação falta porque, por incrível que pareça, a maioria está satisfeita com a situação atual, a reclamação de um político ou outro ocorre como se fosse briga de times de futebol, simplesmente para tomar um lado para defender, para se tornar parte de algo maior, base da sobrevivencia humana em sociedade. A questão de não termos muitos protestos pode ser visto como um lado bom, de um povo mais equilibrado como um todo, não existe calmaria sem recursos, isso é fato.

Gozações ou músicas comicas ajudam sim um movimento maior das massas, ela só não toma maior força por o desejo de mudança real estar na mão de poucas pessoas, ou, como na maioria dos casos, o desejo estar descentralizado, separado por diferentes fatores, regionais, étnicos ou históricos. Para movimentos mais revolucionários são necessários mais líderes natos, tecnologia de disseminação de informações já temos, o alcance delas já é bem considerável, só são necessárias novas idéias, para desintegrar esse “estadunidismo”, repetir as mesmas idéias de um modelo de mundo norte-americanizado simplesmente não funciona, o Brasil se tornou um organismo completamente diferente. Caso seja necessária uma grande mudança, não podemos apenas reclamar, temos que fazer a diferença.

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