O último 20 de fevereiro foi um dia em que o Twitter foi palco de uma bonita militância conscientizadora. Nesse dia, como previamente combinado entre internautas vegetarianos, o termo #GoVegetarian foi incluído entre os “trending topics” (lista de palavras mais utilizadas no Twitter) brasileiros daquele site e permaneceu com esse status por 16 horas seguidas. A consciência vegetariana mostrou que pode fazer muito barulho de agora em diante no Brasil – pelo menos na internet brasileira.

Posso dizer que foi a primeira atuação da militância vegetariana brasileira com envergadura nacional bem-sucedida. Parafraseando Lula, “nunca antes na história deste país” as ideias que fundamentam o vegetarianismo foram expostas de forma tão aberta e pública. Pela primeira vez uma grande população, estimada no mínimo em centenas de milhares, foi exposta pelas mais que diversas mensagens de conscientização que a tag #GoVegetarian acompanhava.

Estas foram bastante diversas: frases de efeito, citações de vegetarianos famosos, links para páginas de sites veg(etari)anos e respostas aos contra-argumentos dos onívoros foram os mais frequentes tipos de mensagens que puderam ser distribuídas, vindas de vegetarianos.

Era manifesto o desejo não de fazer a população brasileira do Twitter adotar o vegetarianismo imediatamente tal como um cristão prega para que o interlocutor se converta sem reflexão racional, mas de convidar as pessoas à reflexão sobre os males que a alimentação onívora traz ao mundo – animais, meio ambiente, saúde humana e questões sociais.

Por outro lado, muitos dos próprios onívoros ajudaram, involuntariamente, a propagar o #GoVegetarian e deixá-lo entre os “trending topics” brasileiros. Um verdadeiro tiro no pé, considerando que suas reações negativas à onda vegetariana do Twitter tornaram o assunto ainda mais popular e divulgado.

Observando-se o nível das respostas reacionárias, foi uma oportunidade sem precedentes de se reparar para um detalhe inquietante: a maioria das pessoas não tem argumentos racionais para continuar comendo carne. Dos onívoros que não apoiaram o #GoVegetarian, a grande maioria respondeu com birras do tipo “vou comer aquela picanha sangrando…”, provocações como “plantas são amigas, não comida” e até uma nova tag, a “#GoCarnivore” – que, ao contrário da vegetariana, não alcançou os “trending topics”.

A conclusão de que grande parte dos onívoros não acompanha sua alimentação com o devido pensamento racional é corroborada pela escassez de contra-argumentos sérios que defendessem o consumo de carne. Os poucos que argumentaram contra o vegetarianismo terminavam facilmente refutados.

Vários vegetarianos deixaram-se provocar pelas reações dos onívoros discordantes, mas outros tratavam de aconselhá-los para que não caíssem no jogo de quem queria vê-los incitados à raiva. Foi, além de uma iniciativa massiva de conscientização, um exercício para muitos, que tiveram a chance de melhorar suas habilidades argumentativas e diplomáticas.

Várias lições puderam ser aprendidas do último 20 de fevereiro. As principais foram: a população vegetariana, em crescimento constante, está alcançando uma numerosidade tal que já começa a fazer a diferença no Brasil – pelo menos na internet –; uma vez bem articulada e preparada, a blogosfera mais a população vegetariana do Twitter poderão arquitetar muitas ações nacionais periódicas em prol da consciência vegetariana, e farão toda a diferença nos dias de tais eventos; diplomacia e jogo-de-cintura são tudo em se tratando de levar adiante atos de conscientização sem correr o risco de atrair antipatia ou de cair na armadilha de onívoros que querem ver os vegetarianos comportando-se mal e queimando sua própria causa.

Parabéns a todos os vegetarianos que uniram suas forças e fizeram o #GoVegetarian ser o que foi: uma forte e reverberante voz a plantar sementes de consciência, mostrar às pessoas uma realidade que elas até então pouco ou nada conheciam e incitar a reflexão. A cada evento, teremos mais e mais força para desarmar os velhos mitos e fracos argumentos pró-carne e induzir a população brasileira a pensar profundamente nas consequências, boas ou ruins, do seu prato.

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6 respostas a Reflexão sobre a campanha #GoVegetarian no Twitter

  1. Zeus disse:

    Cara, excelente o seu post, eu participei do movimento #GoVegetarian no twitter, principalmente no período da noite, e vi de perto os argumentos trolls, sem nenhum fundamento, cheio de uma raiva inexplicável, que os onívoros lançavam e retwitavam como se fossem “O Argumento” contra-vegetariano.

    Pelo menos eu achei uma oportunidade em tanto de argumentar, esclarecem e conscientizar as pessoas.

    Gostaria de colocar em prova também um artigo a favor do consumo de carne, e saber da opinião de vocês sobre o conteúdo dele.

    “É por causa da carne” – http://www.umaoutravisao.com.br/artigos2/culpacarne.html

    • Robson Fernando disse:

      Valeu pela apreciação =) Sobre o texto, ao meu ver basta observar que a Fundação Weston A. Price é cheia de parceiros pecuaristas. Isso já faz a idoneidade de seu trabalho pró-carne ser algo desconsiderável.

      Abs

      • Basta olhar a bibliografia também, tudo estudo antigo. O próprio artigo tem 10 anos, enquanto a posição da ADA, editada ano passado, confirma boa parte das “desmentidas” acusações.

        No mais, o autor do artigo é simplesmente do contra. Até “carne magra” ele é contra!

  2. Marcelo Freitas disse:

    Perdi esse dia, só to passando a me integrar ao twitter recentemente, ainda me perco um pouco.

    Mas como dito no texto, não existem argumentos éticos que sustentem o consumo de carne, por isso a reação dos carnívores é apelativa e de baixo nível.

  3. Mariana disse:

    Olá Robson,
    Gerencio uma pequena empresa que fabrica alimentos vegetarianos (www.mrveggy.com) e gostaria de saber se você possui uma sugestão de quem podemos seguir no twitter para ficar por dentro desses movimentos.
    Abs!
    Mariana

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