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Reflexão sobre o duplipensar moral onívoro

Artigo escrito em dezembro de 2009

Israel, século 8 A.E.C.; Roma, século 1 A.E.C.; Arábia, século 6; Brasil, século 17. Escravos… Sendo de etnia ou nacionalidade dominada, eram tratados como propriedades. Sua existência era praticamente atrelada a seus senhores ou “donos”. Eram obrigados a lhes prover mão-de-obra, recebendo durante a vida apenas alimentação e algumas roupas em troca.

Como eram propriedades, seus senhores se viam livres para lhes causar violências diversas, que variavam de acordo com o país e época: marcação a ferro quente, gritos de ordem, espancamentos no caso de demonstração de rebeldia. A liberdade era palavra proibida. Não viviam mais como fins em si mesmos, por suas necessidades, anseios, prazeres e interesses próprios, mas estritamente para os interesses do senhor que os tinha como propriedade. Eram seres dotados de sentimentos, desejos, anseios e capacidade de sofrer, mas seus “donos” não se importavam com isso.

Qualquer lugar do mundo, século 21. Animais rurais… Sendo de espécie dominada, são tratados como propriedades. Sua existência é. na prática, atrelada a seus senhores ou “donos”. São obrigados a lhes fornecer matéria-prima, recebendo durante a vida apenas alimentação em troca.

Como são propriedades, seus senhores se veem livres para lhes causar violências diversas: marcação a ferro quente, fustigações como ordens, espancamentos no caso de demonstração de rebeldia. A liberdade é palavra proibida, um absurdo aos olhos da espécie dominante. Não vivem como fins em si mesmos, por suas necessidades, anseios, prazeres e interesses próprios, mas estritamente para os interesses do senhor que os tem como propriedade. São seres dotados de sentimentos, desejos, anseios e capacidade de sofrer, mas seus “donos” não se importam com isso.

Apesar de tantas semelhanças, enquanto a realidade descrita no primeiro parágrafo desta reflexão é hoje algo visto como abominável, desejando-se que nunca mais se repita, a do segundo parágrafo é largamente consentido, aceito e até defendido hoje em dia sem nenhum pudor ou peso na consciência. É aceitável ainda hoje que os animais sejam tratados da mesma forma que os escravos de antigamente, em nome da nossa alimentação e de outros interesses materiais humanos.

Convido você a refletir: por que isso acontece hoje? Por que, em nome de necessidades já ultrapassadas, ainda nos vemos autorizados a negar qualquer traço de respeito, empatia e compaixão às mais diversas espécies de animais rurais ou aquáticos? Por que, enquanto reprovamos o cárcere e assassinato de humanos, aprovamos o cárcere e assassinato de animais? Por que nossa moral proíbe que usemos, confinemos e matemos seres humanos para nossos interesses mas nos deixa livre para usar, confinar e matar animais de acordo com nossa vontade e conveniência? Por que dois pesos e duas medidas?

Será que vale mesmo que, em nome de nosso paladar, vejamos e tratemos bilhões de animais sem nenhum respeito ou empatia, nos arroguemos no direito de lhes cercear a liberdade e impor um sentido da vida baseado na exploração? Por que resistimos a admitir e aceitar que podemos mudar, nos libertar do duplipensar ético e passar a nos alimentar eticamente, sem sermos cúmplices da crueldade dos pastos, confinamentos e matadouros?

Costumamos ser (ou dizer ser) bons e generosos com o nosso próximo humano. Mas, com os animais rurais que abatemos ou exploramos e os aquáticos que levamos da água para a morte, não estamos sendo nada bons quando optamos por continuar comendo suas carnes e ovos e bebendo seus leites, quando pagamos para que continuem matando-os e roubando-lhes suas secreções alimentares.

Enquanto repudiamos os costumes escravocratas dos senhores de escravos do passado, damos apoio aos costumes zooescravocratas dos senhores de animais do presente. Enquanto defendemos e contemplamos os direitos humanos e esperamos para o futuro o fim dos abusos contra mulheres e homens, ignoramos ou negamos os direitos animais e aceitamos para o mesmo futuro a continuidade de todos os abusos e violações éticas do sistema pecuário e pesqueiro. Isso de certa forma nos torna amorais, distantes da nossa autocontemplação como seres morais.

Um argumento comum para aceitarmos a exploração e matança de bichos no meio rural é que nós somos onívoros por natureza e só a pecuária e a pesca em grande escala podem fornecer alimentos para uma parcela mais larga da humanidade. De fato o onivorismo foi a única opção alimentar conveniente para o ser humano por muito tempo, quando ele não tinha conhecimentos avançados de nutrição nem acesso a uma diversidade suficiente de vegetais cultivados em sua região de morada.

Mas hoje é diferente: ao contrário dessa época, temos hoje capacidade mais que suficiente para, sem nenhum ônus nutricional, substituir alimentos de origem animal e nos libertar da característica onívora que acompanhou nossa evolução biológica e neurológica por milênios. Assim sendo, a desculpa do determinismo biológico já não serve como antigamente.

Depois de defender acima por que a pecuária e a pesca não são eticamente convenientes e são dispensáveis graças à existência de alternativa alimentar ética válida, apresento a você duas pílulas.

Tomando a pílula vermelha (cor do sangue derramado em abatedouros), você ignorará que seu paladar está, independente de quanto você diz respeitar a ética e gostar de animais, implicando aprisionamento, exploração, sofrimento e morte violenta para um sem-número de animais que poderiam estar sendo poupados de nascer para uma vida miserável e sofrida. Viverá ignorando o sangue e a dor que são o custo de uma alimentação onívora.

Tomando a pílula verde (cor da exuberância vegetal), estará optando por aceitar que uma vida livre de implicações cruéis a outras vidas sencientes é possível. Viverá em comunhão com os direitos de seus irmãos de vida. Passará a ver os animais como seres que possuem tanto direito a viver e ser livres quanto nós. Não estará mais incidindo em evidentes contradições éticas.

A escolha é sua. Saiba melhor sobre o que o vegetarianismo oferece de melhor em ética, saúde e culinária e, em seguida, tome sua decisão.

imagrs

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Ramon

janeiro 27 2011 Responder

Caro Robson, somente é possível estabelecer as premissas que sustentam sua argumentação duplipensando a condição humana no ordenamento do cosmos.

Quando alguém afirma que no século 21 um ser humano não pode ser escravizado, ele o faz baseando numa premissa moral. Sendo a moral propriedade inerente da consciência humana – isso faz o ser humano absolutamente diferente de todos os demais animais. E não apenas diferente, mas superior (não reconhecendo contudo que um ser humano seja superior à outro).

Contudo, quando você equipara humanos e os demais animais – você faz um downgrade inimaginável na condição humana retirando de sua essência a civilidade e relegando-a a um adorno.

Pois se a condição essencial humana é ser um ente selvagem (para então poder ser comparado aos demais animais), então este deve ser admitido como tal – tal como um animal amoral. Como um animal amoral ele não tem compromisso com o sofrimento alheio sendo portanto tudo permitido (inclusive escravizar outros humanos), quiçá fazer churrasco de ruminantes.

O que você faz no seu texto: 1. sugere que o ser humano não é diferente dos demais animais (rebaixando todos ao status de seres amorais). 2. inverte o raciocínio como uma operação matemática que os animais não são diferentes do homem (elevando todos ao status de seres morais). Aqui você duplipensa para então tentar demonstrar no seu texto que os humanos duplipensam quando mantém do seu status de animal onívoro.

    Robson Fernando

    janeiro 27 2011 Responder

    Ramon:

    1. A moral não é necessariamente uma propriedade inerente da consciência humana. Ela se desenvolve ao longo da vida, com a interação cultural. Sem contato com outros seres humanos, a consciência moral que o indivíduo tem é a mesma que a dos demais animais.

    2. O ser humano é diferente dos demais animais por ser um ser cultural e construtor de premissas morais. Mas por que isso implicaria ser superior?
    Ao meu ver, não cabe estabelecer hierarquia por o ser humano ter consciência moral e os demais animais não cultivarem intelectualmente a noção de moral, considerando que a moral humana nasceu quando criou suas primeiras manifestações culturais. A cultura é algo humano, mas isso não determina nenhuma superioridade inerente ao ser humano.

    3. Os animais são seres desprovidos de paciência moral apenas quando não há agentes morais agindo diretamente sobre eles. Quando os animais têm sua vida interferida diretamente pelo ser humano, passam inexoravelmente a ser acobertados por direitos referentes à nova relação unilateral que se estabelece entre o humano e o bicho – assim pensa a ética dos direitos animais. O humano, como ser dotado de consciência moral e tornando a violência desnecessária um ato imoral, não pode agir mais com imoralidade sem ser repreendido.

    4. Não rebaixo todos ao estatuto de seres amorais – isso só seria possível se a humanidade abandonasse seu estatuto de ser moral e acabasse com todos os sistemas éticos, passando a viver a amoralidade da natureza. Mas sim estabeleço igualdade moral entre todos nas relações unilaterais que se estabelecem entre humanos e bichos.

    Um mico-leão fora da esfera de interferência humana possui uma sujeição moral apenas ambiental, enquanto o ser humano não passa a interferir diretamente em sua vida. Assim penso eu.

Tes Saloniki

março 26 2010 Responder

Boa tarde!

Seu artigo foi divulgado no blog Planeta Vegetariano, com os devidos créditos.

Não deixe de conferir em http://planetavegetariano.blogspot.com/2010/03/reflexao-sobre-o-duplipensar-moral.html

TES

    Robson Fernando

    março 26 2010 Responder

    Valeu, Tes =)

    Abração

Tes Saloniki

março 26 2010 Responder

Um excelente texto!

TES

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