Arauto da Consciência

Resenha do filme Fast Food Nation

Postado em 18/02/2010 à/s 11:59

Chocante e escancarador. Um copo de ácido jogado no hambúrguer. Assim é o filme Fast Food Nation (2006), que, sob o disfarce da ficção, disseca a indústria do fast-food e exibe toda a podridão nela existente: carne contaminada com fezes, relações humanas deterioradas do matadouro até a lanchonete, anti-higiene na montagem do hambúrguer, acidentes de trabalho mais que terríveis... e, acima de tudo, o banho de sangue e sofrimento que é o abate dos bois cuja carne será comida por quem nem sonha com a verdadeira história do seu aparentemente inocente sanduíche.

O nome “Mickey’s”, da empresa central da trama – ao lado da IMP, que abate animais e processa e empacota as carnes –, você pode substituir livremente pelo de qualquer corporação cujos lanches você talvez coma. Na falta de evidências em contrário vindas de cada empresa, a realidade é genericamente identificável com qualquer fast-food, ou pelo menos é assustadoramente provável que a grande empresa cujos hambúrgueres você come tenha uma realidade interna semelhante à retratada no filme.

Paralelamente, é retratado um pouco da vida atordoante de mexicanos que emigram ilegalmente para os Estados Unidos, como é andar quilômetros num deserto, ser carregado num furgão, viver sob as ordens e até ameaças dos “coiotes”. Aliás, o que o filme mostra serve para qualquer pessoa do mundo inteiro que esteja iniciando uma emigração ilegal através da fronteira mexicana-estadunidense. Essa subtrama se liga ao fast-food do filme pela empregação (e exploração) de alguns desses imigrantes na IMP.

As outras duas subtramas centram-se em Don Anderson, alto-executivo da Mickey’s e criador do bem-sucedido hambúrguer “Big One” (“Grandão” na dublagem brasileira), investigando os processos do matadouro-frigorífico da IMP, ciente de que há traços significativos de fezes misturados na carne; e em Amber, adolescente que trabalha em uma lanchonete da Mickey’s.

Ao longo da trama, vemos diversas faces da nojenta realidade da indústria idem de fast-food: a artificialidade do sabor da carne do hambúrguer; funcionários de lanchonetes cuspindo nos sanduíches e catando hambúrgueres do chão sujo; abusos sexuais dentro da indústria de processamento de carne; a repugnância de manejar a carne, mesmo sob condições higiênicas bem atendidas; acidentes de trabalho arrebatadoramente horripilantes, incluindo dilaceração de membros do corpo e fraturas graves; o péssimo e estúpido tratamento aos funcionários dessas empresas dado pelos superiores; exploração de imigrantes ilegais e, finalmente, toda a crueza de como animais são assassinados e transformados em carne de hambúrguer. Há também uma pequena demonstração de ativismo juvenil em defesa dos animais, desempenhado por um grupo que inclui Avril Lavigne (no papel de Alice) e dá boas vindas a Amber.

O filme promete fazer o telespectador decidir nunca mais comer em lanchonetes de grandes corporações de fast-food, diante de diálogos ácidos e cenas mais que chocantes. No entanto, tem a falha de não conseguir muito bem atrair o interesse simultâneo pela descrição da realidade do junk-food e pelas histórias que se desenrolam. O telespectador, caso não tenha uma boa experiência cinéfila, terá que optar, ou por acompanhar a dissecação da realidade interna da indústria de carne e lanches rápidos, priorizando o lado mais documentário do filme em detrimento das histórias dos personagens, ou por se atentar ao desenrolar dos múltiplos dramas pessoais, deixando um pouco de lado os detalhes da manifesta denúncia às corporações ligadas ao fast-food.

Mesmo sob o formato de ficção, Fast Food Nation consegue escancarar a cruenta realidade que existe por trás de cada hambúrguer comido nos fast-foods. Denuncia como é suja e mesmo imoral a vida (e morte) nas grandes empresas frigoríficas e de comida rápida. Recomendo enfaticamente. Assista e terá nojo e repulsa, em vez de fome, nas próximas vezes em que passar pela entrada de uma lanchonete do gênero.

Bookmark e Compartilhe

Posts relacionados:

  1. Resenha do documentário Super Size Me: a dieta do palhaço
  2. Resenha do documentário Meat the Truth/Uma Verdade Mais Que Inconveniente
  3. Resenha do documentário The Corporation
  4. Resenha do livro “Virei vegetariano, e agora?”
  5. Resenha do documentário Jesus Camp
Comentários (0) Trackbacks (0)

Sem comentários


Deixar um comentário


Sem trackbacks