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Se sua empresa patrocina rodeios e vaquejadas, vai gostar dessa!

Artigo escrito em junho de 2008

Quando se fala no lucro de rodeios e vaquejadas, torna-se magnânima a participação das empresas patrocinadoras. Sem elas, não há evento lucrativo desse porte. Elas se vêem e se portam como “defensoras heróicas da cultura e da tradição” e dizem zelar pela manutenção de eventos “culturais” que demonstrem a “força” e a “bravura” do povo do interior personificado em peões e vaqueiros.

Muito bem, suponho que os defensores dessas coisas me venceram! E agora admito que rodeio e vaquejada não são violências nem brutalidades e que são moralmente válidos.

Agora, para aumentar o hall de eventos da mesma categoria desses dois e o lucro dos patrocinadores, eu gostaria de fazer algumas sugestões de eventos que certamente exaltarão a força, a coragem, a bravura, o poder físico, de muitos aspirantes a heróis e ídolos dos recantos rurais e cidades brasileiros do mesmo jeito que aqueles dois… esportes fazem. Possuem a mesma inspiração de exaltar a história e a tradição muitas vezes secular dos povos que os praticam e agradarão suas parcerias comerciais:

1. Vale-tudo com crianças ou adolescentes: treinados como em culturas antigas da Ásia, mostrarão sua força em arenas ou ringues, trocando golpes ainda que comece a escorrer sangue e se quebre algum osso. Na base da pancadaria, mostrarão o quão valente é a sua cultura! São crianças, sim. É violência, sim. É exploração brutal de pequenos jovens, sim. É verdade também que poderiam estar livres e brincando como qualquer outra criança ou adolescente de sua idade.

Mas e daí? O que vale para as empresas patrocinadoras é que é uma cultura sendo exaltada para um público apreciador, e este vai começar a comprar seus produtos ou serviços. Já imagino a resposta-padrão para protestos vindos de raivosos defensores de direitos humanos contra os patrocinadores desses vale-tudos: “o propósito da empresa é propiciar alegria e entretenimento ao público”, e (suponhamos) “há uma lei que disciplina o tratamento reservado aos pequenos lutadores e os livra de maus-tratos em suas arenas de treinamento e suaviza os instrumentos de tortura usados pelos seus responsáveis antes de cada luta”.

Estatuto da Criança e do Adolescente? Que vá às favas! Há incisos na Constituição proibindo a crueldade contra menores? E daí? O que importa é que uma cultura guerreira e a alegria e entretenimento das pessoas estão sendo valorizados.

2. Criptéia ou Críptia: assim como na antiga Esparta, na Grécia, adolescentes recrutas do exército são armados com espadas e saem pela cidade atrás de escravos ou mendigos para executá-los. Quem captura e mata mais torna-se apto a entrar para o exército principal da nação.

E daí que há mortes nisso? É cultura! É tradição! Estas valem muito mais para os patrocinadores do que a vida e a dignidade das pessoas escravizadas ou jogadas na rua. Lembre-se: o que vale é a alegria e o entretenimento de quem aprecia esse evento. Lei? Já que existem leis regularizando rodeios, poderiam ser reativadas as leis do passado concernentes à escravidão.

3. Mongolic Life: um novíssimo reality-show em que várias pessoas, durante um ano, vivem na pele de quatro tribos da Mongólia do século 12. Isoladas numa estepe, têm que se alimentar de qualquer animal que apareça perto deles, racionar cada pedaço de carne, vestir-se da pele de qualquer bicho, sugar o leite de suas éguas e montar cabanas de feltro de lã ou pele. Quem trair ou desertar o show será morto. Quem cuspir ou urinar dentro da tenda também é morto, mas ainda vale defecar dentro da tenda.

No sexto mês, um líder tribal irá guiar toda a comunidade para uma guerra de agressão contra uma rica cidade, construída para a ocasião do reality-show. Qualquer desertor dessa guerra será morto junto com todos os seus companheiros. Todos os habitantes da cidade, menos artesãos e intelectuais, devem ser mortos e ter suas cabeças empilhadas. É uma barbárie para lá de atroz? Nada disso, a beligerância do povo mongol revivida por esses participantes é o emblema de um povo bravo, lutador e guerreiro, que resistiu a todas as grosserias de um clima hostil.

Assim como o rodeio e a vaquejada, não importa que haja tanto sofrimento e barbárie por trás, é uma cultura, uma tradição que o empresariado deveria valorizar e patrocinar.

4. Campeonato de Coragem: relembrando a bravura do povo asteca, peões e vaqueiros largariam seus cavalos por um tempo e começariam a procurar cavalos e bois fugitivos no Cerrado ou na Caatinga. Munidos com paus ou porretes, se lançariam na mata e aplicariam pauladas nos bichos para atordoá-los, não para matá-los, do mesmo jeito que os soldados astecas caçavam e capturavam escravos.

Teriam que trazer os bichos vivos no ponto de concentração combinado, mesmo que atordoados, doloridos e arrastados. O maior capturador de animais espancados ganharia um troféu e uma boa soma em dinheiro. E daí que usariam instrumentos violentos? É a cultura! É um motivo de diversão pra quem assiste pela televisão. Lembre-se que não importa o que há atrás dessa e das outras gincanas, o que importa o proporcionamento de “alegria e entretenimento” ao público.

Pronto, dei minhas dicas para as empresas que adoram patrocinar eventos da laia de rodeios e vaquejadas. E daí que haja tanta maldade? Tanto sangue? Tanto tolhimento de dignidade e liberdade? Tanta exploração escandalosa? Tanta ausência de compaixão, respeito e dignidade para com o próximo diferente? Tanta gente protestando contra? E daí que sejam eventos imorais e brutais? O que importa é a “diversão”, a “cultura”, a… “alegria” de quem assiste.

Ou essas empresas carentes de ética e responsabilidade se ajeitam e param de patrocinar barbáries como rodeios e vaquejadas ou verão o feitiço se virar contra o feiticeiro tão logo que houver população esclarecida suficiente para o surgimento de uma onda de boicotes éticos. Seu envolvimento nessas atrocidades irá lhe tirar clientes, em vez de atraí-los.

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