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Uso livre do celular, um direito que ninguém se incomodou em ter perdido

Artigo escrito em dezembro de 2008

É fato: não temos mais o direito de andar nas ruas das cidades brasileiras portando ao mesmo tempo tranqüilidade e um celular. Este é o produto de roubo preferido dos meliantes das ruas. Ninguém mais deixa de ouvir ou falar a frase “roubaram meu celular”. Esta já é uma das frases mais marcantes dos últimos tempos no país, ao lado de antigos e recentes dizeres populares da moda como “Créu!”, “Pede pra sair”, “Ah, eu tô maluco!”, “Oh coitado!” e “Chupa que é de uva”. Parece ter virado moda mesmo ser assaltado na rua, e ninguém demonstra estar verdadeiramente incomodado com isso.

É interessante o comportamento: dezenas de celulares – e também tocadores de mp3 e câmeras digitais – são roubados por dia em cada capital e quase nenhuma reclamação pública em prol de demonstrar incômodo generalizado é feita. Perdemos o direito de usufruir do que há de mais novo e moderno na tecnologia portátil, mas ninguém parece estar obviamente insatisfeito. O medo existe, mas é reduzido a um sentimento de foro íntimo, algo irreversível.

Culpa-se muito, muito mesmo, as autoridades por não haver mais essa liberdade tecnológica. Polícia e políticos são apedrejados em cada conversa de bar e de vizinhos ou reunião de família. Mas, esquisito é, poucos chegam neles para pedir melhorias. Como é que vamos esperar alguma mudança se não reclamamos para quem devemos? Dizemos muito: essa polícia é ineficiente, não protege, não é boa, é mal distribuída, não faz isso, não faz aquilo. Mas cadê alguém para enviar um ofício à PM e mostrar as necessidades de cada comunidade e clamores da população? Cadê as pessoas que, nas poucas vezes em que mandam um abaixo-assinado ou algo do tipo, não persistem na cobrança política de soluções?

Dizem que só algumas dezenas de cidadãos reclamando não têm nenhum efeito. Isso é verdade sim, mas é pensando assim que cada indivíduo entre os milhões da gente do Brasil deixam de emanar cobranças. É até idiota: somos divididos entre os milhões que não cobram e as dezenas que reivindicam e as massas preferem estar na categoria dos que não reclamam. A troco de quê? Normalmente culpa-se a mídia por estimular esse comportamento mostrando a violência como irreversível e nunca mostrar que o povo pode fazer a diferença por algo que não apenas ir à delegacia ou ligar 190. É notável que a consciência não é o forte da maioria, já que preferem esperar que alguém lhes diga o que fazer – e a televisão, que poderia muito bem desempenhar esse papel, não o faz – a tomar iniciativas por sentir que a situação ao redor os está incomodando. Nesse caso posso dizer que a culpa é dos dois lados, a TV e a população.

Tomaram meu celular. Aparece a pergunta “o que fazer?” logo em seguida. Listo algumas ações a serem feitas: reclamar com os policiais que estavam num posto de guarda a poucos metros de mim e nada viram ou fizeram, ir à delegacia fazer um boletim de ocorrência e, finalmente, botar a boca no trombone espalhando a público que não estou satisfeito com a situação cotidiana que não me permite mais usar em paz um aparelho com câmera e música sem que haja medo e alto risco de perdê-lo mediante ameaça armada. É interessante refletir: qual das três providências é a mais importante? Sob a perspectiva da verdadeira cidadania, é a terceira, é uma forma de expressar: “Ei, isso não está certo! Alguém venha consertar essa falha porque eu quero que tenhamos paz!”. Mas infelizmente ela é ignorada e esquecida por quase todo mundo, que já acha a falta do “direito do celular” algo tratável como normal e tolerável a partir de quando os sentimentos de trauma causados pelo roubo começam a diminuir.

É por isso que insisto que o povo também é culpado por sua própria insegurança. Não estamos proibidos de cobrar mudanças, mas o costume de aceitar e não reclamar às pessoas certas é muito mais forte do que essa liberdade. Dizem que “deveria haver tolerância zero”, mas como falar disso se as pessoas toleram a mil que não podem mais usar um bom celular na rua?

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