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A violência urbana e a perda do direito de trocar por bem o celular

Artigo escrito em junho de 2009

Uma curiosidade inquietante da vida urbana no Brasil é que é muito difícil que uma pessoa aposente seu velho número ou aparelho de celular por vontade própria. Não é tanto pela existência da portabilidade e do desbloqueio, os quais tornaram uma linha independente do celular que a incorpora, mas sim por algo muito indesejável: a violência dos assaltos.

“O celular! Bora, passa o celular!” Essa frase, gritada por um bandido armado com revólver, faca, canivete ou vidro quebrado disposto a matar por nada, tornou-se tão frequente hoje em dia que passou a ser a maior razão para o fim de um número móvel e a inutilização do dispositivo que o mantinha. A verdade é que a probabilidade de uma pessoa perder um telefone por violência tornou-se muito alta, bem maior que a de decidir trocar de número por uma razão pacífica e aproximando-se até da de trocar de aparelho por substituição livre.

A violência que devora celulares “popularizou” uma desconfortante situação, descrita a seguir.

Uma pessoa quer matar as saudades de um(a) conhecido(a) ou parente com quem há muito não tem contato. Procura o número dele(a) numas gavetas e encontra: é um celular que o outro indivíduo tinha naquela época, três anos atrás. Liga para ele(a) e, para sua surpresa, ouve a mensagem que indica que o telefone não funciona mais, não está recebendo chamadas. Liga para alguém próximo do(a) colega e a pessoa do outro lado da linha diz a verdade: aquele celular dele(a) foi roubado. Mais um aparelho somou-se às tão altas estatísticas dos assaltos.

Uma pessoa que consegue abandonar um número ou jogar fora um aparelho – em vez de perdê-lo para um ladrão que não se importa em poder matá-la por um mísero aparelho – é sortuda, astuta e/ou heterodoxa em hábitos diários. A situação avançou a tal ponto que só consegue ostentar um telefone móvel com um dado número por muito tempo quem tem sorte, habilidades e recursos de segurança pessoal e/ou rotina que difere muito da de quem é roubado a pé, no semáforo ou num ataque a ônibus.

Essa “crise do celular” já tem um certo tempo de duração e promete, pelo que se vê hoje, perdurar por bastantes anos, talvez piorando ainda mais. Ela é apenas um dos tantos sintomas, embora o mais emblemático, da violência urbana que domina o Brasil e cujas soluções nem o povo nem o Estado estão se empenhando com a devida competência em buscar.

A criminalidade que parece se alimentar de celulares tomou essa proporção tanto porque os governos vêm adotando soluções nada mais que paliativas que visam o alívio do estado de coisas – como ajustes improvisados do policiamento urbano e aumentos no efetivo policial desprovidos de base em projetos sistemáticos de segurança – como pelo conformismo de uma população que, embora diga que “a coisa está insuportável”, continua suportando tudo sem grandes demonstrações de incômodo, como se nada estivesse sendo tão alarmante assim.

Nosso povo nada está fazendo contra o motivo de seu sofrimento, não cobra seus direitos, não debate soluções como deveria, restringe-se a reclamar aos seus parentes e vizinhos. Com tal atitude popular, não há governo que se sinta pressionado o bastante para agir decentemente.

Uma verdade inquestionável nesse panorama ilustrado pela perda do direito de aposentar um celular é que a situação citada não vai diminuir, não vamos mais poder trocar nossos celulares em paz, enquanto a população não começar um esforço de reação, não desenvolver a consciência de que só ela pode desencadear, por cobranças firmes e insistentes aos governos, o início de uma temporada duradoura de ajustes policiais e reformas sociais estruturais.

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