Discutindo “o homem” no Dia Internacional da Mulher
Post comemorativo do Dia Internacional da Mulher de 2010. Postado originalmente às 7h
Neste dia que comemora a luta feminista, vale apontar algo que me deixa constrangido, embora eu seja um homem, nesse universo de desigualdades de gênero: a aceitação por parte de tantas pessoas, incluindo muitas mulheres(!), do milenar dogma de que o homem é o centro da humanidade, através do uso, sem questionamentos, da palavra “homem” como sinônimo de “ser humano”.
Afirmam que “homem”, embora defina seres humanos adultos do sexo masculino, tem originalmente o significado de “ser humano”, o qual perduraria até hoje. Não entendem, no entanto, que essa palavra, por ter sido masculinizada ao longo da história, tornou-se enviesada e ambígua demais, logo inadequada, para continuar representando uma entidade de gênero neutro (o ser humano genericamente falando).
É certo que as traduções que equivalem etimologicamente a “homem” originaram-se de fato significando “ser humano” (exemplos: “homo” no latim, “man” no inglês, “mann” no alemão), mas nem sempre significaram “humano adulto do sexo masculino”. Foi na Idade Média, consolidando um processo de centralização sociocultural da imagem da humanidade na figura masculina e consequente desuso dos termos que estritamente significavam “humano adulto do sexo masculino” (como “uir” no latim clássico e “wer” no inglês arcaico; essa palavra não existiu na língua portuguesa), provavelmente acelerado pelo cristianismo de raízes misóginas semitas e gregas, que “homem” passou a significar simultaneamente a humanidade e os seus machos, tornou-se uma palavra dúbia e excelentemente masculina.
A neutralidade original do “homem”, aliás, foi o manto que escondeu na Declaração de Independência dos Estados Unidos e na francesa Declaração Universal dos Direitos do Homem(sic) e do Cidadão que os direitos declarados só começariam a valer para os homens – as mulheres continuariam presas ao lar como servas domésticas, e privadas da maioria dos direitos humanos e políticos.
O mesmo valeu para as escrituras dos mais diversos filósofos dos séculos 18 e 19. Quando falavam “o homem” ou “os homens”, Rousseau, Kant, Comte e muitos outros realmente só estavam falando de homens, embora a palavra “homem” estivesse aparentemente significando a humanidade inteira.
Esse androcentrismo dos pensadores e a consequente continuidade do patriarcalismo ocidental foram muito facilitados pelo fato de que “homem” realmente era/é uma palavra dúbia e tende a masculinizar a humanidade. Imagine se não tivesse havido a tendenciosa unificação etimológica entre a humanidade e os humanos machos – ou teriam que usar “todos os ‘uirs’ têm direitos e são iguais perante a lei” e assumir que eram realmente direitos masculinos, não humanos, ou “todos os ‘seres humanos’ têm direitos e são iguais perante a lei” e obrigatoriamente estender os direitos às mulheres, indo de encontro aos interesses machistas de sua época.
Hoje chamar o indivíduo humano genérico de “homem” continua tendo uma tendência androcêntrica, e desperta uma interessante pergunta: por que nos referimos aos seres humanos e à humanidade como “o homem”, nunca como “a mulher”? Etimologicamente essa questão é muito facilmente respondível, mas, sob a perspectiva da desigualdade de gênero, tem todo um sentido problemático.
Por muito tempo o uso pseudogenérico da referida palavra foi uma legitimação do homem como centro de sua espécie, como ator principal – enquanto a mulher era relegada a uma coadjuvante, o sexo secundário. Atualmente tal simbolização continua ativa, ainda que despercebida e mesmo com as mulheres tendo obtido direitos e possuindo no presente mais dignidade social do que há um século. Pode-se considerá-lo um resquício de patriarcalismo, um dos diversos pontos em que, por escassez de discussão, ainda não avançou a luta feminista. É um ponto em que se admite inconscientemente que ele tem mais poder do que ela, logo merece herdar até mesmo aquele que se constituiu o nome de sua espécie.
Apesar de tudo, mesmo muitas mulheres – incluindo até algumas feministas – continuam usando “homem” num sentido genérico, sem saber que a neutralidade plena e não ambígua desse termo já não existe desde a Idade Média. Nossa educação insiste em não ensinar a história dessa palavra, marcada por um contexto de machismo extremo e opressão contra mulheres – pelo contrário, perpetua esse vício social, até mesmo na universidade de História, Ciências Sociais e Filosofia, cursos que justamente deveriam questionar e repudiar a dubiedade androcêntrica do termo “homem”.
O uso unissex da palavra “homem” é algo que precisa ser pensado e discutido neste e nos próximos Dias Internacionais da Mulher, pois é algo mais problemático do que se supõe. Já depôs e depõe gente como Olympe de Gouges, John Stuart Mill, Casey Miller, Kate Swift e Richard Dawkins, o “homem” é a cabeça do androcentrismo linguístico de grande parte dos idiomas indoeuropeus, e está na hora de se fazer algo direcionado a essa questão, não mais manter a situação como está, com a reiteração linguística da supremacia masculina.
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