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Pesca está exaurindo a fauna marinha também em Pernambuco (e a mídia faz pouco caso)

A pesca está acabando com a fauna marinha nectônica (que se locomove na água, diferente dos plânctons e dos bentos) também no litoral pernambucano. Uma reportagem do JC Online mostra isso, e eu trago as partes mais importantes dessa reportagem (ela é muito comprida):

O mar não está para peixe

Há dez anos, a gente saía para o mar e trazia 500 quilos de peixe, hoje é um sofrimento para conseguir pegar 50 quilos.” Com essa frase o pescador Jorge Guimarães, 39 anos, resume a situação da atividade da pesca artesanal em Pernambuco. Ele exerce há anos 25 o ofício que aprendeu com o pai, Augusto Guimarães, 62, e que lhe rendeu pele queimada pelo sol, mãos calejadas e um característico cheiro de mar.

(…)

A reclamação dos pescadores é uma realidade confirmada pela professora Maria Elisabeth de Araújo, que coordena o Grupo de Ictiologia Marinha Tropical do Departamento de Oceanografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e há 10 anos estuda a redução na população de peixes pelos 187 quilômetros de extensão do litoral pernambucano.

(…)

Responsável pela maior parcela da produção pesqueira do Estado, a pesca artesanal é caracterizada pela mão de obra familiar e embarcação de pequeno porte (em média oito metros de comprimento). Segundo os próprios pescadores, a atividade está em decadência em Pernambuco. “Antes, há umas três décadas, o povo vinha de outros Estados, como Rio Grande do Norte e Alagoas, para pescar aqui. Hoje a gente está fazendo o contrário”, conta o presidente da Colônia Z1, Augusto Guimarães, conhecido como seu Neno, que assumiu o cargo em julho do ano passado.

De acordo com Elisabeth de Araújo, essa mudança de local de trabalho está diretamente ligada à diminuição de peixes nas águas pernambucanas. Segundo a estudiosa, peixes como cioba, dentão e cavala se tornaram raros e caros nos supermercados e mercados públicos. “Por causa da redução de algumas espécies passamos a consumir peixes menores, menos saborosos e com mais espinhas, como é o caso do saramunete”, revela.

Para Euclides Dourado, analista ambiental do Departamento de Recursos Pesqueiros do Ibama, um dos principais motivos para a escassez de peixes é a degradação das áreas de mata ciliar, do qual o mangue faz parte. Os manguezais são considerados verdadeiros berçários para dezenas de espécies aquáticas.

Sobre essa questão, Elisabeth de Araújo ressalta que os manguezais são responsáveis pelo esfriamento da temperatura, e consequentemente, das águas. O aquecimento dos mares e a poluição também são reclamações dos pescadores. “O mangue é o ar-condicionado do Recife”, compara a pesquisadora.

Foi omitido no trecho acima que outra poderosíssima razão para a decadência da população de peixes no mar pernambucano é a pesca em larga escala. Isso é explicado pela professora da UFPE Elisabeth de Araújo:

Infelizmente a reportagem tem um forte viés favorável ao setor da pesca, ela protege os pescadores e desfavorece qualquer iniciativa de preservação ambiental ao diminuir o peso da responsabilidade da pesca na decadência das populações marinhas pernambucanas; evitar a todo custo recomendar pelo menos a moderação do consumo de carne de peixes; usar uma linguagem que não trata os peixes como seres sencientes e dotados de direitos, mas sim como mero estoque alimentício, tal como frutas em um pomar, e a todo momento naturaliza o consumo da carne desses animais; e abordar o problema sob uma ótica não ecológico-faunística, como um problema ecológico de fauna entrando em extinção, mas sob um olhar estritamente pesqueiro, como um problema que parece afetar mais os pescadores que os próprios animais. Leia a reportagem completa clicando no link dela para ver que a parcialidade pesqueira da reportagem é ainda mais grave do que o Arauto da Consciência está estampando neste post.

A conclusão é que a reportagem não ajudou em nada a situação dos peixes, nem tampouco conscientizou a população. Reportagens que só observam o lado dos pescadores e ignoram completamente o dos peixes e do meio ambiente, muito ao contrário, só tornam o consumo de carne ainda mais naturalizado, banal e irresponsável. A população não enxergará sua própria responsabilidade em comprar o peixe de quem está exaurindo o litoral pernambucano, porque não foi nem um pouco induzida a fazer isso. Pelo contrário, irá se compadecer da situação dos pescadores e, num sentimento de solidariedade, comprará ainda mais deles. Um belo gol contra do JC Online em termos de conscientização e senso crítico.

A situação da vida nos mares e oceanos de todo o planeta só vai piorar enquanto os pescadores continuarem sendo tratados como os maiores coitados da história (coisa que não são, porque não são eles que estão sendo massacrados aos milhares todos os dias), os peixes não forem reconhecidos como seres que querem viver e deveriam ser preservados e mantidos vivos, o vegetarianismo — ou pelo menos a moderação do consumo de carne branca — for completamente ignorado como solução para a salvação da vida marinha e o lado ambiental da crise da vida marinha for menosprezado em promoção ao lado econômico (carne$, pe$cado) da coisa.

Pelo menos um ponto positivo foi tirado dessa reportagem (especificamente do vídeo): a profissão de pescador está começando a ser desencorajada na sociedade, e começa a ser sugerida uma alternativa mais que saudável a esse emprego que não existiria sem mortes: o ramo turístico. Falar de empregos alternativos que não exijam especializações estrambólicas é o mais necessário para se começar a substituir profissões baseadas na exploração animal — peões, vaqueiros, pecuaristas, açougueiros, pescadores, curtidores de couro etc.

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