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Poesia: Não vou

Escrita em dezembro de 2008

Não vou deixar para lá que fui roubado e que posso sê-lo de novo a qualquer dia.

Não vou esquecer que minha integridade física já foi ameaçada porque faltou segurança pública competente.

Não vou considerar isso normal.

Não vou atender quando alguém me disser “deixa isso pra lá”.

Não vou banalizar os assaltos e os assassinatos.

Não vou passar a pensar que ser assaltado, ameaçado, mirado por uma arma de fogo ou branca, é comum, normal e aceitável.

Não vou fazer brincadeira com algo sério como a ameaça que sofri de ser esfaqueado ou baleado caso não desse meu celular.

Não vou aceitar ser oficiosamente proibido de usar, numa democracia, num país livre, uma ferramenta de exercício de cidadania como um celular que tira fotos dos mais diversos problemas a que somos submetidos.

Não vou aceitar que andar numa rua de cidade seja tão perigoso quanto numa savana habitada por leões solitários.

Não vou achar que perder um celular é algo irrelevante demais para eu me preocupar com a criminalidade urbana.

Não vou esquecer que, além do meliante que me atacou, há muitos outros nas ruas e avenidas ameaçando a minha e a nossa integridade física, psicológica e material a todo momento.

Não vou me calar depois de ter tido meu direito à paz civil oficiosamente negado.

Não vou deixar passar o fato de que muitos crimes acontecem a poucos metros de postos policiais e de delegacias.

Não vou me achar incapaz de fazer a diferença no lugar onde vivo.

Não vou negar minha cidadania, meu papel como cidadão responsável pelo destino do meu povo, como tijolo integrante de um grande castelo demográfico chamado povo brasileiro.

Não vou crer que não podemos fazer nada pelas escolas onde estudamos e concluímos nossos estudos.

Não vou aceitar que a educação brasileira não forme cidadãos e, em vez disso, libere ao fim do último ano letivo empregadinhos alienados e sem visão crítica de mundo.

Não vou achar que o Brasil, depois que ganhar o hexa na Copa do Mundo, será um país melhor.

Não vou suportar uma situação que insistentemente chamam de insuportável.

Não vou esperar a volta de Jesus para o mundo ganhar um mínimo de decência.

Não vou me excluir dos sonhos de uma cidade, país e mundo melhores.

Não vou achar que nada tenho a contribuir com estes.

Não vou ser “qualquer um”.

Não vou me conformar.

Não vou me alienar.

Não vou seguir esse comportamento que a maioria insiste em seguir apesar de tudo aquilo que sofre.

Não vou me calar.

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