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Tráfico de animais silvestres: a cultura da propriedade animal só podia dar nisso mesmo (Parte 7)

Papagaios vendidos livremente nas feiras

Enquanto o Ibama sai numa caçada desproporcional aos papagaios mantidos em residências (cativeiro), o comércio ilegal de aves é praticado livremente nas feiras do estado. O roteiro apontado pela própria instituição mostra que grande parte dos animais vem de Caruaru, no Agreste, para alimentar os pontos de venda no Recife, Rio de Janeiro e exterior. Na capital pernambucana, moradores indicam com facilidade locais tradicionais de venda.

Ontem pela manhã, em uma visita ao Mercado da Madalena, a equipe do Diario encontrou um comerciante que estava com um papagaio para vender. De forma discreta, ele contou que já foi condenado cinco vezes por venda ilegal, pagou penas alternativas e continuou a frequentar as feiras para achar compradores. É o retrato de uma cultura de “posse” atrasada. Um ciclo que vai do vendedor primário ao traficante e tem no criador o elo mais visível. E também expõe as falhas na fiscalização do Ibama que sabe, muito mais do que um simples cidadão, onde encontrar esses intemediários. No entanto ontem, aplicou multa de R$ 5 mil à aposentada Mercês Maciel que publicou anúncio para localizar o seu pagagaio que havia fugido há cinco meses.

O comércio ilegal de animais movimenta, a cada ano, aproximadamente R$ 2,5 bilhões e retira cerca de 38 milhões de animais da natureza em todo o Brasil de acordo com relatório da Renctas (ONG de combate ao tráfico de animais). No Grande Recife, pesquisadores da ONG Observadores de Aves de Pernambuco (OAP), criada em 1986, já fizeram uma pesquisa em 10 feiras livres e constataram que 20,8% das espécies registradas no estado eram comercializadas com preços variando de R$ 1 a R$ 100. “O comércio continua. Todo mundo sabe onde pode conseguir. Os vendedores só passaram a esconder por causa da imprensa”, disse o integrante da ONG Manoel Toscano.

Em uma das visitas às feiras livres, o pesquisador contou que se fez passar por um interessado em vender aves e perguntou como deveria fazer. “Disse que estava sem dinheiro e tinha como capturar aves no interior, mas tinha medo.O vendedor me disse que era tranquilo, que não tinha mais fiscalização”, afirmou Toscano. Ele informou que alguns dos locais mais ativos são o Mercado da Madalena, a feira do Cordeiro e de Cavaleiro. “Todas acontecem nos fins de semana. Mas é de madrugada, a partir das 4h30. Quando o Ibama chega já passa das 9h, 10h. Já não tem mais nada”, disse, acrescentando a falha que existe nas estradas, permitindo que caminhões carregados com aves cruzem as fronteiras.

Durante a semana, Toscano ressaltou que o comércio de espécies silvestres costuma funcionar sob encomenda. Já nos fins de semana, os vendedores são mais ousados e levam as aves proibidas para se misturar às permitidas (exóticas ou de criadouros autorizados). Outros locais de comercialização são as feiras do Engenho do Meio, de Casa Amarela, Peixinhos, Beberibe, Prazeres, Paratibe e Abreu e Lima. Ele cita como mais crítico o fato do comércio envolver espécies ameaçadas de extinção e exclusivas da região, como jandaia-gangarra, cancão e pintor-verdadeiro.

Segundo o chefe da fiscalização do Ibama, Leslie Tavares, 10 operações foram realizadas na feira de Caruaru, totalizando a captura de 5 mil aves. “O foco de nossa atuação é na feira de Caruaru, que é uma das três maiores do país. Lá atuamos na casa dos traficantes”, disse, informando que 30 pessoas foram presas. Ele considera que a equipe de 35 agentes no estado é suficiente para atender a demanda desde que as operações contem com o apoio dos estados e municípios. “Isso está previsto pelo Sistema Nacional de Meio Ambiente e estamos tentando fortalecê-lo. Mas claro que uma equipe maior é sempre bom”, afirmou. Ele acrescentou que uma campanha educativa direcionada à sociedade está sendo desenvolvida pelo instituto em Brasília.

O movimento do tráfico

– 38 milhões de animais silvestres são retirados da natureza para alimentar o comércio ilegal por ano

– A quantidade corresponde à media diária de 104 mil bichos, o equivalente a 18 ou 19 animais retirados do habitat natural, por dia, em cada município brasileiro

– A maior parte dos animais comercializados é proveniente do Nordeste, Norte e Centro Oeste, sendo escoado para o Sul e Sudeste

– Rio de Janeiro e São Paulo são os principais pontos de destino dos animais, onde são vendidos em feiras livres ou exportados

– O destino internacional é a Europa, Ásia e América do Norte

– As cidades que se destacam pelo comércio são Milagres, Feira de Santana, Vitória da Conquista e Cipó (Bahia), Belém (PA), Recife (PE) e Santarém (PA)

Fonte: Relatório Nacional sobre o Tráfico de Animais Silvestres da Renctas

Repito: esse crime só existe porque também existe, muito bem aceita pela sociedade e pelo Estado, a cultura de tratar animais como propriedade e aprisionar aves em gaiolas!

Aliás, o próprio Diario de Pernambuco fomenta a cultura de propriedade e aprisionamento de animais, ainda que “justificando-a” pela legalidade de se obter a propriedade de um animal — tal como fazendeiros obtinham a propriedade de escravos até o século 19 no Brasil — dependendo de sua espécie e procedência (leia-se “criadouros oficiais”):

Dificuldades para compra legal

A espera foi quase como uma gravidez. Em seis meses, Adalberto Garcia deu entrada nos documentos e recebeu seu filhote. Uma relação que nascia entre Habib e seu guardião. Adquirido de um criadouro em Goiás por R$ 800, há três anos, o papagaio da espécie Amazona amazonica (papagaio-de-mangue) tem o reconhecimento do Ibama.

A anilha presa no pé e o chip com as informações sobre a procedência são a garantia de que os dois, Adalberto e Habib, podem passear livremente. Aos olhos dos órgãos ambientais, a amizade entre eles é legal. Mas para quem quiser seguir os mesmos passos de seu Adalberto terá dificuldades, pois no estado não existe nenhum ponto legal para venda de papagaio e nem no Nordeste.

O empresário Adalberto Garcia contou que preferiu procurar um criadouro oficial para não ter medo da denúncia de vizinhos e poder viajar com o animal. “Fiz questão de fazer tudo certo. Mas acho que o Ibama deveria permitir que pessoas que já criam há muito tempo se legalizassem”, disse.

Além do valor pelo papagaio, Adalberto pagou uma taxa de aproximadamente R$ 100 pela documentação. Ele chegou ao Recife aos três meses e a relação foi se estreitando aos poucos, com calma. Primeiro, Adalberto deixou a gaiola aberta para que o papagaio saísse quando tivesse vontade. Hoje, Habib chega a dormir na cama com Adalberto e tomar banho junto.

A Resolução 384 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) prevê casos em que a guarda [Nesse caso, não é bem uma guarda, mas sim uma posse, por ter todas as características de uma arrogação de propriedade, muito embora eu seja contrário a dizer que esses animais têm “don@“.] pode ser concedida ao criador, como quando o animal é encontrado machucado e não tem condições de sobreviver se devolvido à natureza.

O Ibama, entretanto, defende a devolução dos animais a partir de projetos de reintrodução ao habitat natural, desenvolvidos em parceria com ONGs e zoológicos. [O DP entrou em contradição. Zoológicos não são habitats naturais, mas sim locais onde animais são confinados para servirem de “atração” para pessoas curiosas.]

Ou seja, tráfico legal, comercialização e propriedade de animais autorizadas pela lei. O IBAMA e o governo não repudiam o comércio de animais em si, só são contra o tráfico quando abrange determinadas espécies e não inclui documentação e outras parafernálias que tornam uma pessoa capaz de subjugar um bicho ao status de propriedade sua.

Infelizmente o Diario não ajudou a conscientizar as pessoas de que é errado ser “proprietári@” de animais, comprá-los e engaiolá-los. Teve todo o poder nas mãos para fazer isso, mas infelizmente a mentalidade da redação do jornal também aceita que animais “domesticáveis” sejam tratados como objetos e vidas sejam trocadas por dinheiro.

imagrs

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