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A audiência pública de hoje: esperança em relação ao ecocídio de Suape

Esse verde todo deve ser salvo. Não podemos permitir que o Governo de Pernambuco destrua esse pedaço de verde. Hoje a audiência pública discutiu isso.

Primeiro, uma notícia que explica melhor o que foi a audiência pública que tratou do megadesmatamento que querem promover em Suape:

Retirada de vegetação em Suape é debatida em audiência pública conjunta

O projeto do Executivo que autoriza a retirada de aproximadamente 1000 hectares de vegetação nativa de área localizada em Suape foi debatido, nesta terça (treze de abril), durante audiência pública conjunta das Comissões de Justiça, de Finanças, de Administração Pública e de Meio Ambiente.

A área a ser desmatada compreende 893 hectares de mangue, 166 de restinga e 17 de mata atlântica, o que dá um total de 1076 hectares. No local será construído um complexo de indústrias do setor naval.

De acordo com o diretor de Engenharia e Meio Ambiente de Suape, Ricardo Padilha, o empreendimento deve gerar cerca de 28 mil empregos diretos e indiretos. O investimento previsto é de quase 500 milhões de reais. Segundo ele, o projeto está apoiado por Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA). Padilha acrescentou que a iniciativa também prevê a devida compensação da área a ser devastada.

O ambientalista Manoel Tabosa explicou que o local escolhido para a construção do empreendimento naval consiste numa área de preservação permanente protegida por leis federais e tratados internacionais. De acordo com ele, a retirada da vegetação vai afetar o equilíbrio do ecossistema local e prejudicar milhares de famílias que dependem da pesca para sobreviver na região.

Durante o debate, o deputado Pedro Eurico, do PSDB, cobrou a atualização do Estudo de Impacto Ambiental relativo ao processo de urbanização de Suape, lembrando que o documento foi elaborado há dez anos. O deputado Raimundo Pimentel, do PSB, relator do projeto na Comissão de Justiça, concordou que o estudo está desatualizado e disse que vai analisar melhor a matéria antes da apresentação do parecer.

A audiência ainda contou com a participação de representantes do IBAMA, CPRH, Ministério Público de Pernambuco, OAB, entidades da sociedade civil e moradores da região de Suape. (F.M.)

Agora o relato:

Eu quase não conseguia entrar na audiência. Cheguei, creio eu, às cerca de 9h50, por causa de um maldito engarrafamento que se estendeu em parte de duas avenidas no meu caminho. Cheguei lá e o policial falou que o auditório (que eu depois veria que é bem pequeno para comportar audiências públicas com grande público) já estava lotado e eu teria que esperar alguém sair. Ou pior, esperar que a associação de pescadores que ficou de fora também por lotação entrasse para eu poder ir depois.

No meio tempo, cerca de duas horas, entre a chegada na portaria do anexo da Assembleia Legislativa e minha entrada, esperei sentado em uma parte do tempo e em outra parte eu fiquei estacionado perto do portão de saída do prédio mostrando meu cartaz para quem estava saindo. Poucas pessoas me abordaram sobre o motivo do meu protesto.

Também pude ser filmado pela TV Clube, junto com quem ficou fora esperando a oportunidade de entrar, e fotografado provavelmente para o Diario de Pernambuco. A um rapaz que estava por lá, dei uma pequena entrevista, deixando claro que a única coisa em comum entre eu e os pescadores é o desejo de que o ambiente natural em torno de Suape não seja destruído — deixo claro, a pesca que caracteriza seu trabalho consiste exclusivamente em matar animais por uma alimentação que já pode ser substituída.

Num momento que estimo ser meio-dia, eu finalmente consegui entrar depois que convenci os guardas da portaria de que gente da audiência já estava saindo e eu queria vê-la, ainda que no fim.

Cartaz que empunhei na audiência pública de hoje.

No auditório, pude ver os oito últimos discursos. Entre eles, o do vereador Josenildo Sinésio, o da deputada Teresa Leitão e o de Mário, representante de uma associação de moradoræs de Ipojuca. Abaixo o podcast d@s três:


Discurso de Josenildo Sinésio, vereador do Recife
Discurso de Mário, de uma associação de moradoræs de Ipojuca
Discurso de Teresa Leitão, deputada estadual pelo PT

Veja algumas fotos que tirei lá:

Imagem da audiência pública

Imagem da audiência pública

Uma das diversas faixas que estamparam as paredes do pequeno auditório. Diversas ONGs ambientalistas e de pescadores estavam representadas ali.

Um dos pescadores que se pronunciaram durante a audiência. Me chamou a atenção que ele ergueu um conjunto de caranguejos vivos enquanto discursou.

Reflito neste momento sobre os porquês que a sociedade levanta contra o ecocídio de Suape. O motivo mais forte pelo qual há tanta oposição infelizmente é não o zelo ao meio ambiente como fim em si mesmo, o respeito incondicional à natureza, incluindo fauna marinha, anfíbia e terrestre, como entidade com direito de existir e ser poupada da sanha destruidora humana. Mas sim o trabalho dos pescadores, que verão os animais deixarem de existir antes que eles os possam matar, perderão sua fonte de renda em caso de êxito do desmatamento. Marcos, do movimento Salve Maracaípe, me explicou que infelizmente ainda é necessário hoje exaltar a necessidade dos pescadores, porque ainda hoje pouc@s levam a sério a proposta de preservar a natureza por ética e por considerá-la um fim em si mesmo — o drama pesqueiro é visto com maior importância. Ou seja, o ambientalismo antropocêntrico, que usa o ambiente para interesses humanos, ainda é muito mais respeitado e apoiado do que o ambientalismo centrado na ética de respeito incondicional à biosfera.

Enfim, a audiência hoje plantou a esperança — pelo menos se formos confiar em polític@s como Josenildo Sinésio e Tereza Leitão — de que o nefasto projeto de lei será barrado pelo Poder Legislativo. Mas, evidentemente, não é hoje que a luta pela preservação do meio ambiente de Suape termina. Ainda temos muito pela frente, incluindo uma nova audiência pública em 27 de maio.

Espero também que esta audiência melhore a comunicação entre os blogs ambientalistas pernambucanos, entre os quais incluo o Arauto da Consciência. Pude trocar ideias com Lúcio, colega meu de anos atrás e um cabeça do movimento contrário à Via Mangue, e Marcos, do Salve Maracaípe.

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2 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Natascha Fox

abril 17 2010 Responder

Sinceramente, sou vegeteriana e concordo com seu ponto de vista em relação ao ambientalismo antropocêntrico, que passa por cima do direito da natureza para pensar nos interesses humanos. Apesar disso, seu texto é muito agressivo em relação aos pescadores, defensores da natureza desde a década de 70, quando os movimentos ambientalistas ainda eram incipientes. É absurdo exigir que todos compartilhem de nosso ponto de vista e acusar de assassinato comunidades que vivem há séculos da mesma atividade é muito inconsequente.
Mudando de assunto, queria saber como ajudar nesse movimento contra o desmatamento do mangue. Criei uma comunidade no orkut, não sei se ajuda muito, mas tentei que fosse um espaço para o diálogo, onde poderíamos chegar a um plano de ação em conjunto, que seria mais efetivo contra esse projeto do que apenas protestos isolados. Você sabe de alguma entidade que esteja realmente se mobilizando?

A propósito, o nome da comunidade é “Salvem o mangue de Suape”.
Obrigada.

    Robson Fernando

    abril 17 2010 Responder

    Olá, Natascha.

    Sobre minha visão dos pescadores, sinto que eles só tenham isso no momento pra se sustentarem, mas isso não anula o fato de que a pesca é uma matança de animais (e com crueldade, já que peixes sofrem muito com a asfixia fora d’água), hoje já desnecessária. É verdade que a pesca é antiga, milenar, mas a existência de forças militares também é milenar e nem por isso é algo bom (lembre-se que mesmo os militares posicionados na defesa nacional e na polícia só existem porque muitos seres humanos ainda são bestiais demais pra viver em harmonia e respeitar os diferentes sem forças de coerção).

    Sobre mobilização, alguns representantes do Salve Maracaípe estavam presentes na audiência. É certo que essa ong vá se mobilizar sempre que puder contra o ecocídio de Suape. E vou entrar na comunidade com prazer — e nela não vou criticar os pescadores, muito embora eu não mancomune com a atividade deles.

    Abs

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