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O conto bíblico de Jó e o desmatamento de Suape: uma percepção ética do ato de ceifar e substituir vidas em massa

Abaixo um texto de reflexão sobre o ecocídio de Suape, baseada no conto bíblico de Jó. Foto: Blog Ciência e Meio Ambiente do JC Online

O desmatamento histórico que o Governo de Pernambuco quer causar nas cercanias do Porto de Suape já é conhecido por grande parte da opinião pública. Vem sendo tanto defendido por quem quer progresso incondicional para Pernambuco como repudiado por quem quer a continuidade do verde e uma economia sustentável para o estado. Um ponto, no entanto, a que poucos se atentaram é a previsão de compensação ambiental nos Artigos 2º e 3º e no Anexo II do projeto de lei 1496/2010 (o PL do desmatamento). Mas será que vale deixar a destruição rolar contando-se com a promessa de plantar uma área de extensão igual ou maior?

Pensando – criticamente – no conto bíblico de Jó, no qual a atitude de Deus foi muito semelhante à atual do governo Eduardo Campos, podemos concluir que a tal compensação, mesmo com boas intenções e pretendendo replantar talvez o dobro de vegetação, não é mais preferível do que deixar os 1076 hectares de ecossistemas intactos, preservados.

A tal história de Jó, contada no livro bíblico homônimo, escreve que Jó era um homem muito rico, senhor de muitos servos e rebanhos (a Bíblia não hesita em tratar animais e escravos como propriedade humana) e pai de sete filhos e três filhas, sendo “maior do que todos os do oriente”. Era também “íntegro, reto e temente a Deus e desviava-se do mal”.

Então um dia Deus, na intenção de provar, perante Satanás, que a fidelidade de Jó a ele era incondicional e irredutível, permitiu que o Coisa-Ruim matasse todos os filhos e servos do inocente homem e desse um fim aos rebanhos dele através de hordas militares de outros povos e catástrofes naturais, além de lhe causar “úlceras malignas, desde a planta do pé até ao alto da cabeça”.

Jó manteve a fé em Deus mesmo em situação miserável, e no final o Divino “acrescentou, em dobro, a tudo quanto Jó antes possuía (sic)” e teve mais dez filhos (três meninas e sete meninos), além de, presumivelmente, ter curado as úlceras da pele.

Refletindo sobre o conto de Jó para a ética de nossa época – considerando que muitos cristãos utilizam a Bíblia como referência moral atemporal –, notamos que, mesmo tendo Deus ressarcido Jó com o dobro de suas “propriedades” e mais dez crianças, essa restituição nem de longe sanou a massiva perda que foi causada. Não foi uma ressurreição em massa, apenas a substituição das vidas perdidas, como se fossem de fato coisas substituíveis.

As vidas dos muitos servos, das sete mil ovelhas (única espécie que foi chacinada; os animais de outras espécies foram levados embora pelas hordas) e dos dez primeiros filhos foram ceifadas para sempre, irremediavelmente, sem volta. Todos esses seres (humanos e bichos) sofreram muito em suas mortes, pelas armas das hordas assaltantes, pelo fogo que caiu do céu e pelo vento do deserto. E isso, tantas mortes precedidas de sofrimento tormentoso, Deus não remediou no ressarcimento de Jó.

Em suma, o sofrimento e a perda de tantas vidas causados por Satanás – com autorização de Deus – não foram sanados, mas sim tratados com um tapa-buraco que consistiu na restituição com novos filhos e o dobro de novos escravos humanos e não-humanos.

Fechando a Bíblia e olhando para a vegetação de Suape, vemos que a proposta do governo estadual é muito semelhante à atitude do Deus bíblico: mandar seus comandados destruírem 1076 hectares de ecossistemas de mangue, restinga e mata atlântica e em seguida plantarem cerca de 3 mil hectares de mata atlântica e 61 de restinga (a área de mangue prevista na compensação consta como a ser preservada, não a ser reposta).

Vislumbrando o cenário da destruição, pensamos: e a biodiversidade da enorme área com três ecossistemas diferentes que será derrubada? E as vidas dos milhões ou bilhões de seres vivos que habitam esses 1076 hectares? E o berçário local da vida marinha? A verdade é que, se o governo triunfar, tudo isso será ceifado, destruído. E a compensação ambiental não irá trazer de volta as incontáveis vidas e biodiversidades que serão abatidas, nem o berçário estuarino que será perdido.

Da mesma forma que Satanás respaldado por Deus, o governo quer causar morte e destruição em massa. E, assim como Javé acalmou Jó, tenta ludibriar os órgãos ambientais e o povo com uma proposta de compensação ecológica que, longe de trazer de volta a vida e a biodiversidade que serão exterminadas, pretende tentar substituir a riqueza do ambiente do mangue que será suprimido por um punhado de floresta atlântica cujas fauna e flora, além de não serem as mesmas que as do manguezal, irão demorar bastante para adquirir a exuberância de uma mata primária.

Para Javé e Eduardo Campos, os seres vivos abatidos com suas autorizações não têm um fim em si mesmos, nem um valor intrínseco, nem o direito à vida.* Não lhes são uma parcela da biosfera que deve ser respeitada e preservada, mas apenas coisas substituíveis, que podem ser repostas por outras novas – mesmo não sendo das mesmas espécies e não tendo as mesmas personalidades.

Devemos encarar o ecocídio de Suape com a mesma cara feia – leia-se reprovação ético-moral – com que podemos encarar a história do livro de Jó. Nem o Deus bíblico nem seu “É” Motosserra podem trazer de volta as vidas perdidas e a biodiversidade ceifada por suas atitudes. E, ao contrário das pessoas e animais do mito de Jó, a fauna e flora do mangue, mata atlântica e restinga do entorno do Porto de Suape nós ainda podemos – e, sob um olhar ético, devemos – defender e salvar.

*Reitero que os motivos pelos quais defendo a preservação da vegetação de Suape, tais como subentendidos neste texto, são os motivos próprios da natureza. Defendo-a pela ética, pelo respeito à biosfera, ao meio ambiente como fim em si mesmo, não apenas porque os seres humanos, incluindo pescadores, irão sofrer com as consequências da possível destruição daquele grande conjunto local de seres vivos.

imagrs

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jose

junho 6 2010 Responder

vc perguntou para
jó o que ele achou disso?
leia o último do livro.

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