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Delos é aqui!

Publicado originalmente em novembro de 2008, pela Exposição de Animais do Recife daquele ano. Adaptei o texto para a Expoagro 2010.

Esta semana, a versão recifense, moderna e incrementada do antigo mercado grego de Delos tem sua temporada 2010. Trata-se da famigerada Expoagro (Exposição de Animais e Produtos Derivados) no bairro do Cordeiro, em Recife, onde os atuais escravos dos humanos são expostos, tratados e vendidos como objetos de valor monetário e troféus. Só que, ao contrário do mercado original, da Grécia Antiga, os servos não são mais humanos, mas sim das mais diversas espécies de animais domesticados.

Os escravos são separados e distinguidos de acordo com as raças, com a qualidade de cada uma destas exaltada ou criticada. É como se fossem objetos de marca. Uma geladeira Brastemp tem como características vantajosas em relação às outras marcas isso, isso, aquilo e aquele outro negocinho. Já um cavalo da raça mangalarga, deixe-me ver… tem como vantagens em relação às demais raças isso, isso, aquilo e esse outro negocinho. Qual a diferença para os pecuaristas entre o objeto inanimado e o “objeto vivo”?

Eles são expostos – afinal, é uma exposição, né? “Vejam que animal bonito, forte e eficiente!”, é o que muitos dizem na exposição sobre certos bichos, como se estes fossem aparelhos utilitários cujos inventores capricharam no design. Uma vaca é tratada como nobre, não por ser considerada dotada de alma, consciência, psique ou sentimento, mas porque gera muito leite, porque é geneticamente bem desenvolvida, ou porque sua carne é das melhores. Suas vidas, seu valor intrínseco como seres vivos sentimentais, não são nada, para o expositor eles são apenas máquinas, autômatos, robôs que não têm valor nenhum quando não estão sob o jugo humano.

São postos em concursos e desfiles. Não são modelos que entraram por vontade própria numa carreira consolidada pela beleza física, mas sim postos ali como se fossem esculturas animadas a serviço e benefício do seu… como é que o seu senhor diz mesmo ser?… Ah, sim, do seu “dono”. O animal mais bonito, musculoso, bem tratado, etc. é o vencedor, do mesmíssimo jeito que uma obra de arte. Bem que poderiam dizer que aqueles animais são “esculturas de Deus”, mas nem assim é. É que para os pecuaristas da exposição só os humanos têm “alma”, “espírito” ou qualquer coisa etérea imaginada como motriz de uma vida sensível. Aqueles bichos são apenas autômatos, ao melhor estilo do teórico econazista René Descartes. São servos cujos atributos servem aos “donos” deles como elementos premiáveis.

E como não lembrar que aquilo também é uma feira? Leilões, feiras, um comércio intensivo de escravos não-humanos. Propriedades, objetos, autômatos utilitários à venda: é assim que são vistos pela pessoa que visita o Parque do Cordeiro. Não sei, e nem me interessa saber, se põem placas nos pescoços de cada animal, com seus atributos, defeitos e preço, mas sei perfeitamente que o método que fazem para exibir o preço de cada um dá exatamente no mesmo.

– Hum… essa escrava é interessante. Bonita, forte…
– Tenha certeza, meu senhor, de que ela é a melhor.
– Me diga, moço, o que ela faz de melhor?
– Dá um leite de primeira e gera uma prole de fazer teus vizinhos babarem.
– Ótimo. Quanto é essa escrava?
– Dois mil reais.
– É minha. Tome, moço, e obrigado.
– Obrigado também, senhor.
– Minha cara escrava, você vai me ser uma ótima serva!

Este diálogo tanto poderia ter sido feito no mercado de escravos humanos de Delos no século 3 A.E.C. como na Exposição de Animais do Recife no século 21 E.C.. Seria muito difícil saber onde realmente aconteceu essa negociação, se não fosse a palavra “escrava”, que pecuaristas não usam explicitamente para seus animais, embora na prática estes realmente sejam tratados como tais.

E também, eu não poderia me esquecer de jeito nenhum, tem uma feirinha com produtos de couro. Os escravos do humano do século 21 não servem apenas como provedores de força física ou esculturas vivas, mas também como fornecedores de partes de seus corpos. Tá certo, são mortos depois de um inevitável sofrimento “ante mortem”, mas isso não importa para o pecuarista que vai ao bairro do Cordeiro exceto pela atenção ao fato de que muito sofrimento deixa a carne de sua vítima escura e dura. Vamos para lá fazer como os astecas devotos do deus Xipe Totec faziam e vestir pele esfolada, é o maior barato. Com a diferença de que aqui a esfola não foi praticada em escravos humanos.

Se você gosta de apreciar escravos e saber como eles eram ou são úteis à humanidade de outrora e de hoje, tem duas alternativas: visitar algum museu com peças da Antiguidade ou do Brasil Colonial descrevendo a escravidão humana ou ir à Exposição de Animais do bairro recifense do Cordeiro ver e admirar todos aqueles servos animais que, assim como os homens e mulheres escravizados do passado, são tratados como nada tendo de valor espiritual intrínseco como seres vivos sencientes e possuindo em contrapartida bastante importância comercial e utilitária para os seus senhores e aos consumidores para quem estes fornecem seus produtos de origem pecuária. Três vivas para a Exposição. Viva o antropocentrismo! Viva a valoração da vida! Viva a escravidão!

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