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abr10

Irmã/o/s de consciência denunciam pistolagem na cidade de Lagoa dos Gatos

Recebi agora um e-mail de colegas que pediram para eu expor aqui a situação d@s camponesæs de Lagoa dos Gatos, que vêm sendo ameaçad@s por pistoleiros. Em solidariedade à luta dels, trago aqui o texto.

(Texto sem título)

Texto dedicado a Nanal e todos os agricultores que arriscam sua vida por uma repartição digna da terra

A situação vivida no município de Lagoa dos Gatos, agreste pernambucano, contradiz visceralmente a crença na suposta consolidação da democracia brasileira, crença disseminada entre a maioria dos “ilustres” partidos brasileiros que reduzem democracia a eleição.

Pois bem, a história é a seguinte: o camponês Nanal foi assassinado com oito tiros enquanto exercia seu ofício de leiteiro. Ele era um valente apoiador da luta pela terra em Lagoa dos Gatos, e talvez por seu passado marcado por passagens na polícia e sua convicção ideológica perante uma autoridade institucionalmente constituída que serve de joelhos aos anseios da classe latifundiária, foi identificado como alvo. Sua morte foi anunciada e cumprida, sem qualquer interferência da justiça num país “democrático” tal qual o Brasil.

Apesar do sucesso da empreitada o seu objetivo maior não foi alcançado: a intimidação dos camponeses e o decorrente enfraquecimento da luta. Falo dos camponeses que restam, pois dependendo da eficiência do poder público e da política bastante diplomática dos latifundiários, aqueles não terão tempo para ver uma terra dignamente repartida, se isso um dia acontecer.

No dia do citado homicídio estava “por coincidência” programada uma passeata pela cidade, direcionada para a questão agrária, apesar do clima de terror disseminado a mobilização aconteceu e foi até a prefeitura cobrar alguma atitude. O prefeito é um baluarte da consolidada democracia brasileira, não precisarei descrevê-lo, apenas citá-lo:- “Eu não tenho nada a ver com isso, a culpa é de vcs que ficam fazendo desordem, até pq e eu não preciso me preocupar pq tenho meus próprios seguranças”. Uma peça interessantíssima que comprova a riqueza da realidade política brasileira, talvez o mesmo não saiba como contribuiu para ilustrar a situação mesquinha em que se encontram os municípios brasileiros, lacaios da elite econômica e opressores das populações exploradas.

Outro fato muito ilustrativo foi a participação de outro representante do povo. O Ilustríssimo deputado federal Eduardo da Fonte, herdeiro-proprietário de uma fazenda em Peri-Peri, área localizada nas cercanias de Lagoa dos Gatos. A citada fazenda, antes de fartura em termos de mato e pedra, tornou-se muito produtiva e até provocou uma sensível redução no preço do coentro na feira da cidade. Graças ao suado trabalho dos terríveis agricultores, que tem como único objetivo desenvolver uma agricultura de subsistência que propicie algum excedente para se conseguir alguma renda.

Diante de tamanha ameaça o deputado procurou os meios legais e supostamente igualitários para retomar a posse do seu valioso patrimônio e retomar a plantação de mato e pedras e com isso conseguir vultuosos empréstimos do governo. O direito foi concedido e para garantir a efetividade da justa conquista Eduardo da fonte enviou o seu irmão para acompanhar o processo salvador da ordem, além disso, utilizou-se de extrema sutileza já que um sujeito civilizado, ao contrário da horda de bárbaros que querem parasitar sua terra, enviando um trator para passar por cima da horta que foi plantada através de enxada, foice e estrovenga em dias e dias de trabalho intenso.

Talvez dessa forma ele conseguisse convencer os camponeses que enquanto houver justiça e trator, haverá pedra e mato no lugar de batata, feijão, milho, macaxeira, pimentão, coentro e todos os outros produtos dispensáveis na mesa brasileira. Mas não conseguiu, porque alguns despejados continuam na beira da fazenda esperando uma oportunidade para tomá-la novamente. Eduardo um tanto quanto desatento, apesar de não conseguir suportar a presença camponesa no seu celeiro, parece negligenciar a presença de pistoleiros ligados ao tráfico de crack na região. Que por incrível que pareça estão ameaçando e humilhando constantemente os agricultores despejados e ao mesmo tempo possuem uma mania, geralmente se efetiva de madrugada, de utilizarem o céu como tiro ao alvo. Talvez em cada estrela seja visualizada a face de algum agricultor.

Mas eu não acredito que uma personalidade como Eduardo da Fonte, grande expoente do combate as drogas, exímio conhecedor da dinâmica do tráfico e fazedor de leis maravilhosas que definitivamente fará a legislação antidrogas bombar, esteja por dentro disso. Eu prefiro acreditar numa desatenção. Da mesma forma que acredito na democracia brasileira. Da mesma forma que acredito na covardia dos camponeses de Lagoa dos Gatos. Da mesma forma que acredito que outro camponês não morrerá. Esperemos e acreditemos. Viva a nova democracia!

imagrs

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