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JC: manipulando em favor da destruição ambiental

Suape hoje. Dependendo do Jornal do Commercio, a devastação ao seu redor vai sim acontecer.

Publicado originalmente às 22:45 de 25/04/2010

Como grande parte da população de Pernambuco já sabe, o governo estadual quer destruir mais de 1000 hectares de vegetação no entorno do Porto de Suape com o fim de ampliar o parque industrial local, o que vem causando furor e polvorosa entre os movimentos socioambientalistas e entre parte da população da Grande Recife. A polêmica é muito quente, mas até pouco tempo atrás a mídia estava quase totalmente omissa, não dando a mínima para o problema e restringindo-se a postar pequenas notas e citações.

Assim sendo, até há pouco, nós ambientalistas tínhamos esperança de atrair a atenção da imprensa para essa ameaça de ecocídio, fazendo-a acordar para a questão, começar a divulgar nossos protestos e argumentos e fazer a população começar a refletir sobre se é válido ser promovido progresso econômico com destruição das áreas de ecossistema existentes. Mas agora tivemos uma trágica decepção, ao ler o Jornal do Commercio do último domingo (25/04).

Quando tínhamos a perspectiva de atrair os veículos de comunicação para divulgarem nossa luta e apelo, acontece exatamente o contrário. O JC, na referida edição, nas páginas 6 e 7 do caderno de Economia, divulga uma reportagem bem grande que necessariamente apoia o megadesmatamento dos arredores de Suape, com o velho truque manipulador de dar ao ponto de vista do governo e dos técnicos de Suape um peso muito maior do que o dado aos ambientalistas – estes que, aliás, tiveram uma participação mínima e enfraquecida nas duas páginas da matéria – e com a neutralização da posição do Poder Público.

A tendenciosidade começa não nessas páginas, mas já na capa. A manchete (título “Meio ambiente é destaque na pauta de Suape” e breve descrição da reportagem) não mostra o problema de desmatar aquela área como uma polêmica que divide a população e opõe governo e ambientalistas, mas o exibe como uma questão que a administração do Porto de Suape já teria sob total controle, além de pôr o porto como uma referência de empreendimento a estar adotando progressivamente o paradigma do desenvolvimento sustentável – informação que, com a proposta do desmatamento e a velhice das bases legais do mesmo, se torna no mínimo muito duvidosa.

No grosso da matéria, nas já citadas páginas 6 e 7, é mantida a postura de tratar a ameaça de ecocídio não como uma polêmica que suscita debate acalorado, mas como uma “preocupação” da administração do porto a qual supostamente estaria construindo ali um modelo de sustentabilidade. E a discussão existente é fortemente minimizada.

O título da reportagem – “Os desafios do desenvolvimento” – e sua descrição – “Pernambuco atrai grandes indústrias, gera emprego, produz renda e aproveita um bom momento econômico. Cenário favorece a discussão sobre crescimento e meio ambiente” – são partes já preparadas com o intuito de acalmar o leitor preocupado e fazê-lo aceitar que Suape precisa se expandir, nem que seja contra tudo (meio ambiente, incluindo as perspectivas de sobrevivência humana) e contra todos (movimentos ativistas, opinião pública e população local que vive do extrativismo pesqueiro e frutífero).

Adiante, são diversas as afirmações, dos próprios jornalistas autores da matéria, as quais praticamente explicitam a posição do Jornal do Commercio favorável ao desmatamento e consideram a destruição ambiental local, além de necessária, uma decisão já consumada:

– “Para se transformar no novo endereço da indústria naval brasileira, Suape terá que avançar para as áreas de mangue, porque os empreendimentos precisam se localizar à beira do mar. O foco da discussão, daqui para frente, será como compensar o dano ambiental…”

– “MUDANÇA PARA MELHOR” (título de um dos trechos)

– “Mas, entre os próprios moradores da Ilha de Tatuoca, onde serão erguidos os estaleiros, o sentimento é diferente do discurso dos ambientalistas. A maioria defende a criação do cluster naval.”

– “Apesar de [o suposto plano ambiental da administração de Suape] ser assinado por festejados [sic] especialistas […], os ambientalistas deram de ombros ao projeto…”

– “São 1076,49 hectares […] de mangue, mata atlântica e restinga que darão lugar ao cluster da indústria naval, projeto que vai gerar emprego e renda para Pernambuco.”

– “Por outro lado (resposta ao argumento de que a destruição do mangue poderá afetar a maré na região metropolitana de Recife), os projetos dos cinco estaleiros que serão implantados na área somam investimentos de R$2 bilhões, vão ocupar uma área de 283,5 hectares no novo cluster e promover a geração de pelo menos 10.900 empregos diretos, além de mais arrecadação para o Estado.”

Sem falar que foi disposta na página 7 uma tabela com os estaleiros que pretendem ocupar partes das áreas roubadas à natureza, exibindo-se o investimento para cada estaleiro, sempre nas centenas de milhões de reais, e a área em hectares que ocuparão. Mais um artifício utilizado para se passar a mensagem: “Leitores, o desmatamento dessas áreas é essencial para os estaleiros se instalarem e trazerem investimentos e empregos em abundância”. Nota-se também o uso de uma estratégia secundária para desarmar os ambientalistas: o título do texto superior da mesma página – “Debate sobre mangue exige ponderações”.

Não só o jornal escancarou sua posição através da palavra dos dois jornalistas que redigiram a reportagem, como também foi dada ampla palavra aos técnicos e administradores de Suape e a outras pessoas, especialistas ou não, favoráveis à devastação. Todos mostraram como destruir aquela fauna e flora e instalar indústrias no lugar dos ecossistemas será uma “maravilha” para a economia pernambucana e elevará Pernambuco no cenário nacional de progresso econômico.

Em contrapartida, o espaço dado ao outro lado – ambientalistas – foi risivelmente ínfimo, restrito a 12 linhas, reservado aos argumentos de uma única pessoa – a ambientalista Suzy Rocha, da ASPAN, que ainda foi chamada de “radical” e acusada de “atacar a importância econômica de Suape”. Os movimentos sociais de pescadores e moradores de Ipojuca, que lotaram a audiência pública do último 13 de abril no anexo da Assembleia Legislativa de Pernambuco, por sua vez, foram totalmente ignorados.

Em outros dois momentos em que argumentos ambientalistas foram ouvidos, apenas uma fração dos diversos motivos que opõem os movimentos socioambientais ao ecocídio de Suape – o risco de as marés altas se tornarem mais pesadas no litoral central pernambucano e a importância econômica da preservação do mangue – foi explicada, e com brevidade. E percebe-se que a maioria dos argumentos pró-ambientais expostos se enquadra nas representações sociais de meio ambiente antropocêntrica (natureza a serviço do ser humano, sem um fim em si mesma) e naturalista (humanidade totalmente à parte da biosfera), consideradas ultrapassadas por especialistas em educação ambiental (a exemplo de Angot & Auth, Mauro Grün e Elisabeth Ramos).

Para piorar o viés desenvolvimentista pseudossustentável do JC, uma tabela, intitulada “Os dois lados”, mostra de um lado alguns argumentos ambientalistas – enfraquecidos pela linguagem pela qual foram exibidos – e do outro os argumentos do lado dos técnicos de Suape – os quais são na verdade respostas aos fragilizados motivos ambientalistas listados.

No meio-termo, é mostrado um poder público fraco e quase impotente, com Ministério Público, IBAMA e CPRH indecisos sobre o que podem fazer para abortar o desmatamento. Apenas autoridades em cima do muro são entrevistadas, evitando-se abordar aqueles promotores e juízes especialistas em Direito Ambiental que já tivessem tomado partido em relação ao caso.

Quanto à “sustentabilidade” prometida pelos administradores de Suape, o que vemos são medidas mal explicadas que estão muito longe de compensar as perdas socioambientais que acontecerão caso a devastação prevaleça. A exemplo do replantio de mata atlântica, que parece uma medida admirável mas não compensa a perda irreversível do mangue, uma vez que são biomas distintos; da preservação de manguezais adjacentes (em vez do replantio dos cerca de 900 hectares de mangue que serão destruídos, o qual é impossível numa realidade em que já não há áreas estuarinas para se repor mangue perdido); e da contratação de mão-de-obra local – proposta que soa vazia quando se sabe que Ipojuca não tem uma população suficiente de pessoas preparadas, de currículo razoável, para trabalhar nas indústrias que querem se instalar ali, e que as empresas locais vêm tendo que trazer pessoas de outras regiões e países por falta de mão-de-obra capacitada em Pernambuco.

E um detalhe notável, ao se encerrar a fatídica leitura da reportagem idem, é que o próprio propositor do Projeto de Lei 1496/2010 – que autoriza o desmatamento em Suape –, o governador Eduardo Campos, é totalmente omitido na matéria, sendo preservado de sua culpa pela ameaça de ecocídio que paira por aquela região.

Duas tristes mensagens foram passadas pelo Jornal do Commercio: primeiro, os empresários e demais personalidades do desenvolvimentismo predatório podem contar com todo o apoio do jornal para justificar sua atitude de destruir o ambiente natural em torno de Suape e talvez devastar áreas além dali, enquanto os ambientalistas só verão má vontade do mesmo.

Segundo, o empresariado local e a própria imprensa, ao contrário dos tantos eventos e pactos ambientais mundiais que vêm acontecendo nas últimas décadas, ainda desprezam o meio ambiente, mesmo a sustentabilidade ambiental-social-econômica, como prioridade para o tempo presente. E, para não darem a aparência de que querem mais que a natureza “se exploda” em prol de um progresso esfumaçado mas altamente lucrativo, utilizam de argumentos retóricos e demagógicos para iludirem a população transmitindo-lhe a imagem de bonzinhos, de preocupados com o desenvolvimento sustentável.

A imprensa, ou pelo menos parte dela, já nos mostrou que não está interessada em ajudar a nós ambientalistas. Então seremos obrigados a procurar outras fontes de apoio que façam barulho suficiente para fazer o povo nos ouvir e entender por que não queremos que o Governo de Pernambuco continue destruindo o meio ambiente e ameaçando as próprias integridade e existência da humanidade em prol de um duvidoso desenvolvimento que o planeta não aguentará mais por tanto tempo.

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