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O álcool nosso de cada dia: brasileiros/as bebem muito

Brasileiro bebe muito a cada vez, diz estudo

Pelo menos uma vez por semana a publicitária Leila (nome fictício), de 35 anos, “enche a lata”. Já o atendente de telemarketing Ricardo (nome fictício), de 25 anos, conta que prefere nem beber durante a semana para não ter problemas para trabalhar no dia seguinte. “Eu sei que, se eu tomar uma lata de cerveja, vou tomar duas, três e por aí vai.” Nem Leila nem Ricardo podem ser considerados dependentes de álcool. Mas ambos seguem um padrão de consumo que é típico do brasileiro: o “binge drinking” ou “beber pesado episódico” (mais de cinco doses para homens e quatro para mulheres em uma ocasião).

“Em vez de beber todos os dias, moderadamente, às refeições, como os europeus, os brasileiros bebem tudo de uma vez no fim de semana. É um padrão prejudicial, pois aumenta o risco de dependência e deixa a pessoa mais sujeita a intoxicação e comportamento de risco, como sexo desprotegido, abuso de nicotina e dirigir embriagado“, afirma a pesquisadora do Instituto de Psiquiatria da USP Camilla Magalhães Silveira.

Camilla coordenou, no Brasil, parte de uma investigação da Organização Mundial de Saúde (OMS) realizada em 28 países com o intuito de medir a prevalência de transtornos mentais na população. Mais de 5 mil pessoas participaram da pesquisa na região metropolitana de São Paulo, escolhida para representar o País.

Os dados obtidos revelam que, enquanto o consumo per capita anual de bebida alcoólica na França é de 18 litros por pessoa, no Brasil ele está abaixo de 8 litros. No entanto, a taxa de abuso e dependência aqui é de 4%, enquanto entre os franceses é de apenas 0,8%.

A OMS tem uma escala que vai de 1 a 4 e mostra o quanto é prejudicial o consumo em cada País. O Brasil recebeu nota 4, a de maior gravidade. Já os europeus têm um padrão de consumo protetor, que até faz bem à saúde”, explica.

O estudo revelou ainda que 86% dos entrevistados haviam consumido ao menos 1 dose de bebida alcoólica na vida, e 56,2% consomem regularmente (pelo menos 12 doses em 12 meses). A taxa de dependência foi de 3,3% e a de abuso, de 9,4%.

Ainda que os abusadores não sejam a maioria no País, o impacto na saúde é grande. Isso resulta em acidentes de trânsito, em violência física e verbal e prejudica o rendimento no trabalho e no estudo“, afirma Arthur Guerra, um dos maiores especialistas do País no tratamento de dependentes de álcool e drogas.

“Não sei ao certo o quanto bebo, pois há sempre mais pessoas na mesa. Só sei que no fim da noite há pelo menos 20 garrafas de cerveja amontoadas ao lado”, diz Ricardo. “Além disso, em festa, extrapolo mesmo.”

Fora de casa. Outro levantamento recente, da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da Unifesp, aponta que quase metade da população é abstêmia – e que, quem bebe, bebe muito. “Cerca de 25% disseram beber pouco e ocasionalmente. Os outros 25% são responsáveis por consumir 80% do álcool ingerido no País“, diz Ronaldo Laranjeira, responsável pela pesquisa.

Para o psiquiatra, esse padrão está relacionado a um consumo não domiciliar. “O consumo é principalmente social, fora de casa e, por isso, a tendência é que seja maior”, analisa. Para ele, essa cultura é preocupante não só porque leva os jovens ao consumo excessivo, mas também porque os leva a beber longe do controle familiar.

A proibição da propaganda de bebidas alcoólicas e uma fiscalização que de fato coíba a venda a menores de idade são as medidas apontadas por Laranjeira para reverter o quadro. “Não podemos deixar que a educação de nossos filhos para o álcool seja feita pela indústria de bebida.”

O descendente de italianos Francisco Villano, de 93 anos, foge do padrão brasileiro de consumo alcólico. Desde a juventude, adquiriu o hábito de tomar, todos os dias, uma taça de vinho no almoço e outra no jantar. “Deve ser por isso que estou bem de saúde”, diz Villano, que há 81 anos trabalha como barbeiro.

Quem bebe mais

Os campeões

No topo da lista dos países que mais consomem bebidas alcoólicas por pessoa ao ano, estão países como Rússia, Ucrânia, Letônia, Lituânia. As bebidas destiladas são as preferidas.

Os moderados

Países europeus, como França, Itália, Espanha, Suíça e Portugal, registram um consumo per capita alto de álcool. No entanto, o consumo é diferente: uma ou duas doses, todos os dias, o que traz menos riscos.

Americanos

Nos Estados Unidos, o consumo de álcool é mediano.

O bom da notícia é que ela mostrou que há muito mais brasileir@s abstêmi@s do que eu pensava. Mas escancara como muitas pessoas são algo como “pseudoalcoólatras”, que não são dependentes de álcool mas não perdem as oportunidades de encher a cara e entrarem em estado de embriaguez.

E, lembre-se, ritmos idiotas costumam incentivar essa cultura alcoólica, vide o Falso Forró. Quer uma boa amostra de exemplos?

Forró do Muído – Simbora Beber
Bonde do Forró – Vou Zuar e Beber
Saia Rodada – Beber, Cair e Levantar
Bonde do Maluco – Vou Beber
Forró do Muído – Pode Beber
Garota Safada – Beber Todo Dia
Aviões do Forró – Vamos Zuar e Beber
Aviões do Forró – Cachaça, Mulher e Gaia
Solteirões do Forró – Cachaça Ainda Mata Uma Mulher Dessa
Solteirões do Forró – Dá-lhe Cachaça
Forró Real – Mulher Desmantelada
Forró dos Plays – Mulher Gosta de Cachaça
Solteirões do Forró – Força da Cachaça
Forró dos Plays – Cachaça
Forró na Tora – Bebendo Pinga, Bebendo Cerveja
Forró dos Plays – Whisky ou Cerveja
Forró Real – Vou Beber Whisky, Misturar Cerveja
Cavaleiros do Forró – Arreia a Cerveja
Garotões do Forró – Uma Cerveja Pra Lavar

Depois de tantos exemplos, absolutamente não dá para continuar sem saber por que a cultura secular brasileira, com destaque à nordestina, é tão alcoólica!

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Samory Pereira Santos

abril 3 2010 Responder

“Já os europeus têm um padrão de consumo protetor, que até faz bem à saúde”” <- O presidente da OMS já falou que essa ideia, além de absurda, é perigosa. No mais, realmente, a maioria das cenas de consumo de álcool que vem a minha mente são bem "esporádicos", mas intensos.

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