Digressão sobre o nacionalismo
No texto Veganismo na província, de Bruno Müller, publicado na ANDA, a parte inicial fala de forma brilhante sobre a perversão sociocultural que é o nacionalismo.
Com poucas edições para tornar o trecho sobre nacionalismo um texto standalone, eis a mais inteligente e incisiva digressão sobre o nacionalixo que li até hoje.
Breves notas sobre o nacionalismo
Por Bruno Müller, no artigo Veganismo na província
O nacionalismo é uma das ideologias mais absurdas, ridículas, irracionais, perigosas e desprezíveis do mundo. Não estou sozinho nessa opinião*. Atribui-se a Albert Einstein a seguinte frase: “o nacionalismo é uma doença infantil; é o sarampo da humanidade”. Como se vê, não é só a física quântica que define os gênios.
O tema do nacionalismo me fascina desde a adolescência. Deve ser pelo fato de ser tão difundido entre os brasileiros. Do nacional-desenvolvimentismo dos anos 1950 até o nacional-futebolismo de sempre, passando pelo integralismo protofascista e o nacionalismo de esquerda, parece ser a única ideologia que realmente “pegou” no Brasil. O que certamente diz muito sobre seu povo e sua classe dirigente. E me recorda uma teoria. No filme “As Invasões Bárbaras”, um dos personagens defende que a inteligência é um fenômeno coletivo. Na Florença de 1504, por exemplo, brilhavam Maquiavel na filosofia e política, Michelangelo e Leonardo da Vinci nas artes, tendo Rafael como discípulo. Quando a maioria de um povo partilha uma mesma ideologia, será que isso diz alguma coisa sobre a sua inteligência coletiva?
O nacionalismo tem várias facetas e vertentes e, longe de sinal de vigor e versatilidade, isso aponta para sua incontornável debilidade. O que define uma nação? Ninguém sabe dizer ao certo. Idioma, etnia, religião, concentração geográfica, histórica ligação política. Tudo depende do que as pessoas podem alegar para se definirem uma nação e se sentirem no direito de matar outras pessoas só por serem de outra “nação”. Contudo, o constante contato entre os povos torna seu idioma e cultura dinâmicos, em constante mutação, ao passo que a pureza étnica não passa de uma aspiração falsa, e ainda por cima racista.
Nenhum povo tem uma origem única. Na Europa antiga e medieval, seja pelas conquistas militares, seja pelos fluxos comerciais, povos de diferentes origens, diferentes idiomas, diferentes culturas, estavam em contato constante. Os grandes impérios da Europa moderna, como a Áustria, a Prússia e a Rússia, eram uma colcha de retalhos étnica. A miscigenação pode ser mais evidente quando envolve povos de diferentes fenótipos, como nos países da América, mas acreditem-me, suecos, alemães, russos, italianos e britânicos são resultados de tantas misturas quanto qualquer brasileiro.
Pior que a fragilidade da sua conceituação, só mesmo as suas implicações. A presunção de originalidade e de diferença, que rapidamente transmuta-se em presunção de superioridade, ideais de grandeza e aspiração de pureza. Grandeza, superioridade, pureza… soa familiar?
Na cultura, o culto da arte, costumes, valores e idioma nacionais, execrando toda e qualquer influência “estrangeira”, conduz à autocomplacência e à estagnação, pela falta de contato com o diferente, a rejeição do estrangeiro e a reificação da tradição. Na política, justifica e exacerba o militarismo e belicismo. É o nacionalismo a ideologia típica das guerras contemporâneas, desde o século XX, quando os reis e governantes “democráticos” não podiam mais mobilizar seus exércitos por mero capricho. Pensemos no Império Britânico, na Alemanha nazista, no Japão imperial, e nos Estados Unidos do pós-guerra. A Espada e a Bíblia foram os pilares dos grandes impérios ocidentais – a Espanha do século XVI, a Grã-Bretanha do século XIX, os Estados Unidos contemporâneos. Os ideais de conquistar e salvar o mundo, como se vê, andam juntos.
A nação, portanto, não passa de uma grande porção de terra onde uma homogeneidade étnica, cultural, idiomática e, eventualmente, religiosa, foi imposta sobre populações por meio da violência, conquista, humilhação e, claro, alguns expurgos de elementos “desviantes”. Tudo como forma de promover guerras fúteis e injustificáveis. Quanto orgulho! O fato é: a única diferença entre Hitler e o nacionalista médio está na sutileza.
Comparativamente, se pegarmos países com forte tradição de imigração, veremos uma maior abertura ao novo, à diferença, à diversidade, ao mundo. Numa palavra, “cosmopolitismo”. Caso, por exemplo, do Canadá, um país de origem binacional – francesa e inglesa – que até hoje acolhe – e precisa de – imigrantes de todo mundo e, após a virtual aniquilação dos povos indígenas locais, passou a respeitar e proteger suas culturas. Os próprios Estados Unidos devem muito à imigração em massa (voluntária ou forçada) que ajudou a construir não apenas seu poderio econômico, mas também suas idéias e formas de arte mais inovadoras.
O jazz, considerado uma das poucas expressões artísticas “genuinamente” norte-americanas, foi criado pelos descendentes de escravos africanos. Nova York, porto de entrada dos imigrantes dos séculos XIX e XX, é ainda hoje uma cidade com forte influência de diferentes culturas e, assim como a Califórnia, mais liberal e progressista que o resto do país, e por isso mesmo vista com extrema desconfiança e até hostilidade pelos norte-americanos do interior. Nova York é, para muitos deles, um enclave estrangeiro dentro da “América”.
A Alemanha Ocidental e Berlim Ocidental, traumatizadas pelo nacionalismo hitlerista, por outro lado, tornaram-se foco de efervescência cultural e política no pós-Guerra. Por lá passaram os Beatles antes da fama, David Bowie em sua fase mais experimental. A Alemanha é, depois da Inglaterra, a segunda “pátria” do rock e do movimento punk, e as bandas locais estão entre as mais originais e inovadoras desse universo, ainda que pouco conhecidas fora de seu país. Lá também floresceram desde muito cedo o movimento ambientalista, antinuclear e pacifista.
*Sim, Bruno, você tem razão, tanto que eu trouxe essa parte de seu texto para cá.
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