Estuário e ecossistema em Suape: propriedade, estorvo e despojo
Na novela da ameaça de grande desmatamento em Suape, pode-se perceber que o Governo de Pernambuco, tal como todas aquelas entidades públicas e privadas que lançam mão das formas mais tradicionais e anacrônicas de fazer “desenvolvimento”, trata a natureza, de forma muito desrespeitosa e antiética, como propriedade, como estorvo e como inimiga a ser derrotada, dominada e livremente despojada.
Podemos notar esse comportamento quando olhamos a imagem de satélite que esquematiza o “projeto Ecocídio”, em que se delimita as áreas naturais nas quais não interessam as vidas que lá habitam, mas sim apenas o terreno e os canais d’água para uso humano.
As linhas delimitando, por exemplo, o Plano de Desenvolvimento e Zoneamento de Suape em cima do estuário da Bacia do Ipojuca nos revelam que ali o governo não enxerga nada mais que um terreno de sua propriedade, um despojo territorial ganho na guerra das sociedades industrializadas contra a natureza. A fauna e a flora locais são apenas um estorvo a ser eliminado, não servem para nada segundo a visão prevalecente entre os governantes de Pernambuco, estão apenas ocupando um espaço que já não é mais seu.
Podemos comparar esse comportamento ao nada feliz conto bíblico da conquista da Terra Prometida pelos hebreus. O território hoje pertencente a Israel e à Palestina, antes da chegada do “povo de Deus”, já era habitado, mas Javé quis que seu povo mesmo assim conquistasse tudo e passasse a habitar ali. Ou seja, os povos autóctones eram para Deus apenas inimigos ou estorvos que precisavam ser combatidos, aniquilados e varridos em guerra, e suas terras deveriam ser tomadas para posse dos hebreus.
Viu-se ali, segundo o mito, um massacre genocida que podemos equiparar hoje aos tantos ecocídios que as sociedades industriais vêm empreendendo, que vêm aniquilando a fauna e a flora das mais diversas regiões do planeta. Em Pernambuco, Eduardo Campos é hoje comparável a Javé; os administradores de Suape, os industriais que querem se implantar ali e os responsáveis pela derrubada da vegetação e pela terraplenagem do local, aos hebreus sob seu comando; e o estuário do Ipojuca, à “Terra Prometida” que precisa ser conquistada e cujos habitantes nativos (não-humanos na realidade) devem ser aniquilados por não servirem aos interesses dos conquistadores.
Assim caminha o ecocídio de Suape: sem o mínimo de ética ambiental e respeito à vida, Eduardo Campos e seus comandados arrogam para si o controle de uma grande vegetação cuja existência, não interessando a seus anseios desenvolvimentistas, poderá ser aniquilada em breve, varrida da propriedade público-privada em que o estuário se transformou. Comportam-se da mesma forma que os genocidas bíblicos, que não veem valor na vida e lançam mão da destruição em massa em prol de seus interesses.
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