Mais uma reflexão sobre sexismo linguístico: agora é a vez da palavra “mulher”
Hoje tive um insight parecido com o que tive em fevereiro ou março do ano passado: o uso da palavra “mulher” como sinônimo de “esposa” com alguma conotação não-intencional de “sob tutela do marido”.
Enquanto se fala de “o homem” como sinônimo de “o ser humano”, fala-se de “a mulher do…” como “a esposa”. E curiosamente quase nunca falamos de “o homem da rainha Elizabeth II”, “o homem de minha ex-namorada” — mesmo que exista esse uso, segundo o dicionário Aurélio, eu pessoalmente nunca ouvi alguém falar isso.
Percebo nessa nova autorrevelação de consciência uma dualidade com a mesma tonalidade de vício de linguagem sexista. Segundo o vocabulário androcêntrico que temos…
Mulher: parceira/cônjuge de um homem/macho (ao correspondente masculino, usa-se marido)
Homem: ser humano
(Não reconheço ainda uma relação entre as definições acima, mas pode ser até que exista)
Ao meu ver — ainda não falando sociologicamente — falar “a mulher do padeiro”, “a mulher do presidente” e raramente “o homem da secretária”, “o homem da dona da confeitaria” já denota alguma desigualdade entre mulheres e homens.
E, novamente sem cientificidade, consigo encontrar semelhança entre “a mulher do meu vizinho” com, por exemplo, “o gato da minha tia” ou “o cachorrinho do meu amigo”. Me parece que “a mulher do…” conota uma relação de tutela e submissão, da mesma forma que os animais domésticos têm sua vida submissa e dependente de seus/suas tutoræs — uma relação de submissão* que não devemos confundir com uma relação de propriedade.
Algo que parece comprovar minha nova indagação é o machismo bíblico de Êxodo 20:17:
Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo. (Uma das versões protestantes)
Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo (sic), nem sua escrava (sic), nem seu boi, nem seu jumento, nem nada do que lhe pertence. (Versão Ave Maria)
Pelo menos nas versões de língua portuguesa adaptadas para o Brasil, a esposa, referida como a mulher do…, é vista tanto como propriedade do homem como escrav@s e animais não-humanos (novamente o especismo judaico-cristão em ação trata animais como propriedade, mas isso é assunto para outro post).
Transferindo o patriarcalismo linguístico bíblico para a vida secular, a palavra mulher, pelo menos linguisticamente, na definição de esposa, parece ter uma conotação de tutelada, submissa. Não estou dizendo que as esposas são necessariamente mulheres submissas e sob tutela dos esposos, mas sim que falar “a mulher de…” me parece passar essa imagem mental.
Opções de solução para esse vício também androcêntrico de linguagem seriam criar-se o hábito de falar “o homem da…” como sinônimo de “o marido da…”, para, pela equalização, remover-se a raiz de tutela e submissão feminina, ou abandonar o uso de “a mulher do…” substituindo-o por “a esposa de…” (ou, quem sabe, a marida).
*A referida relação de submissão entre animais domésticos e o ser humano é o motivo principal de pessoas como Gary Francione e eu defenderem o controle de natalidade desses bichos — para fins de interromper a renovação de sua espécie –, cujas espécies já não têm mais relações ecológicas com qualquer ambiente natural e cujas vidas estão hoje essencialmente atreladas à tutela humana.
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No meu “meio social” é mais comum falar “esposa de”, quando falando de terceira, e “minha mulher” quando falando na primeira pessoa. Não é muito incomum falar “mulher de” nem “meu homem”, mas não é a regra que vejo.
Pois é, Samory, é algo que comecei a perceber apenas hoje. Preciso saber melhor sobre diferenças regionais de tornar mulher sinônimo de esposa.
Caro Robson,
obrigada pelo envio do artigo. Infelizmente não tenho nenhuma bibliografia específica para lhe indicar em relação a isto. Tenho cá minhas suspeitas de que o uso do termo “mulher” como sinônimo de esposa pode ter relação com a identificação estabelecida já na Grécia antiga entre mulher e natureza, por um lado, e homem e cultura, por outro. Ocorre, entretanto, que essa relação é extremamente variável de um ponto de vista histórico. Para os gregos, a mulher era “natureza” porque seu status se resumia à ordem reprodutiva, corporal, sexual, enquanto o homen era “cultura” porque seu status baseava-se nas relações humanas, especialmente na amizade (um tipo específico de amor). Mas essa mesma cultura (a grega), tem representações múltiplas do feminino, especialmente na figura de Afrodite (a deusa do amor, de suas formas mais puras às mais degradantes).
O que estou querendo dizer com isso é que os significados da feminilidade sempre foram extremamente variáveis, dependendo do contexto. O uso do termo mulher como sinônimo de esposa também me parece conter significados múltiplos, dependendo do contexto e da forma como é proferido. Pessoalmente, acho o termo esposa muito mais conservador do que “mulher”, que pode dizer respeito a formas bastante diferenciadas de relação erótico/afetiva. Sendo assim, talvez mais interessante do que o abandono do “minha mulher” pelos homens, seja a adoção do “meu homem” pelas mulheres, não acha? As negras americanas dizem isso com muita tranquilidade…
De qualquer forma, volto a afirmar minha preocupação com todas as formas de essencialismo linguístico. Significado não se resume às palavras proferidas. Ou você acha que o Cazzo foi nomeado por algum tipo de violência simbólica que Jonatas exerceu sobre mim? Tudo bem que teve uma faca envolvida no processo, mas aquilo não foi nada!
;)
Abraço
Obrigado, Cynthia, pela resposta esclarecedora.
É, essa opção daria mais impressão de igualdade de poderes. E apagaria a conotação tutelar de “a mulher de…”.
huahuaahuahuauhaua
Abs
[...] específico. Neste momento, nem mesmo o uso machista das palavras homem (como ser humano) e mulher (como esposa), algo muito mais fácil de se lidar do que a totalidade da disposição de gêneros na língua [...]