06

maio10

Respondendo as objeções às críticas sobre o desmatamento de Suape

Venho falando bastante sobre o desmatamento de Suape, que, caso realmente quebre e desmonte os obstáculos judiciais impostos pelos justos do Poder Público, destruirá quase 700 hectares de vegetação estuarina em torno do porto local. Muita gente vem concordando comigo, solidarizando-se com minha preocupação ambientalista. Mas diversos outros vêm apresentando objeções às minhas preocupações.

Abaixo eu respondo aos mais frequentes desses questionamentos, para deixar as coisas mais claras tanto para quem me questionou como para quem ainda está em cima do muro. Aqui trago meus esclarecimentos, incluindo neles alguns fatos, sobre certos detalhes sobre por que queremos impedir o desmatamento de Suape e estamos admoestando o governo pernambucano, que se recusa a fazer um desenvolvimentismo responsável e sustentável.

***

“Por que você quer impedir a expansão de Suape?”

Eu jamais falei que não quero que Suape se expanda. O que eu desejo é que haja uma expansão ambientalmente ponderada, decidida mediante parâmetros válidos de sustentabilidade e responsabilidade socioambientais. E o atual projeto que prevê a destruição de quase 700 hectares de ecossistemas passa longe dessa aceitabilidade ambiental. Alternativas, comentadas mais abaixo, podem ser discutidas entre especialistas, empreendedores e o governo – uma vez que este último esteja aberto para o debate.

Esclareço também que defendo uma expansão não só ponderada, como também condicionada a limites. Os capitalistas odeiam falar de limites para seus anseios empresariais, mas a verdade é que o paradigma do progresso econômico infinito vem sendo um câncer para a biosfera, inclusive ameaçando a existência da humanidade em longo prazo. Vem-se debatendo por isso a necessidade de se estabelecer limites para o crescimento territorial das indústrias, cidades e propriedades agropecuárias ao redor do mundo, assim como a de um controle global de natalidade, para que a demanda humana se estabilize a níveis ecologicamente suportáveis.

Assim sendo, eu digo: expandam o complexo sim, mas não em cima das matas e mangues que são patrimônios naturais. E atentem-se que o futuro vai obrigá-los a limitar novas expansões.

***

“Você quer impedir o desenvolvimento pernambucano?”

Se você se refere ao atual modelo de desenvolvimento, que privilegia empresários e jovens com preparo curricular, favorece a concentração de renda e de investimentos e não dá a mínima para o meio ambiente, realmente não quero esse desenvolvimento para nós.

Miguel Sales denunciou no ano passado que Ipojuca, mesmo dono de 70% do território suapense e detentor do maior PIB per capita entre os municípios pernambucanos, continua carente de serviços, infraestrutura e investimento, e tem números sociais deploráveis, mesmo com o porto gerando tanta arrecadação para o governo estadual. E Suape vem influenciando tão pouco a sociedade e economia de Ipojuca e do Cabo que já se sugere a separação territorial do complexo, que se tornaria um distrito estadual à parte dos referidos municípios.

E o atual “desenvolvimento” pelo qual me questionam não passa de um progresso excludente e irresponsável que descumpre providências como larga distribuição de renda; investimentos substanciais em educação, saúde, segurança, infraestrutura viária multimodal etc.; política ambiental consistente, em harmonia com a integridade do meio ambiente; e a já citada ponderação na política de expansão industrial.

E o desmatamento de Suape só vai piorar esse quadro, ao excluir as necessidades dos pescadores e outros humildes que dependem da integridade daquele local; não prever a melhora da atual política social-econômica-ambiental governamental; e deixar claro que o governo não está nem aí se mais e mais áreas de ecossistema serão destruídas graças a seus intentos desenvolvimentistas.

O desenvolvimento que quero e defendo não é esse que está se desenrolando com desmatamentos e irresponsabilidade socioambiental, mas sim um que promova justiça social mais sustentabilidade. E, ao meu ver, repensar e remodelar a expansão de Suape seria o primeiro passo dessa maneira nova de fazer desenvolvimentismo responsável e justo.

***

“O que você quer? Devolver a sociedade para a época pré-industrial?”

Afirmar que parar a atual tradição de progresso destruidor puxará invariavelmente a sociedade de volta a um passado indesejável é demonstrar um pensamento muito limitado e arcaico em termos de desenvolvimento sustentável, inovação tecnológica e política ambiental.

O que mais se vê nos países desenvolvidos são iniciativas de criar tecnologias limpas e ambientalmente amigáveis, otimizando o uso de energia e recursos naturais, adequando a indústria à capacidade do planeta de repor os recursos renováveis de que necessitamos e buscando fontes limpas de energia motora e elétrica. Sustentabilidade vem sendo o mandamento industrial do momento, até mesmo para petrolíferas como a Petrobras.

Como tendência irmã, vemos em todo o mundo o desenvolvimento de políticas públicas e privadas de conciliação do empreendedorismo com a preservação de ecossistemas. Promove-se ora o manejo sustentável de áreas florestais, ora a reposição total de trechos de vegetação cujo desmatamento era inevitável mas pequeno, ora o respeito praticamente incondicional a áreas de importância-chave para a manutenção do equilíbrio ecológico local e regional.

Essas tendências, muito longe de implicar a volta de nossas condições de vida a tempos pré-industriais, fazem parte da nova modernização das sociedades contemporâneas, um processo que, em vez de destruir, degradar e poluir, busca justamente fazer nossa vida moderna entrar, com conforto e acessibilidade econômica, em harmonia com a manutenção da vida no planeta e até mesmo influir positivamente na distribuição global da mesma. Ignorar tudo isso e querer que continuemos desmatando e soltando fumaça para gerar dinheiro, isso sim é que é querer fazer uma volta indesejada no tempo, é defender nossa estagnação e autodestruição.

***

“Por que não apresenta alternativas?”

Até hoje não sugeri alternativas porque, mesmo sendo formado em Tecnologia em Gestão Ambiental, não tenho especialização bastante para fazer sugestões convincentes e plausíveis. Aliás, como é que eu poderia apresentar uma alternativa pronta tão logo, quando o anúncio do desmatamento de Suape não faz nem dois meses e a elaboração de um bom “plano B” demandaria meses de trabalho grupal, com estudos locais e regionais de impacto ambiental?

O que posso adiantar é que hoje já se fala que as indústrias que querem se implantar ali poderiam se instalar em área, a ser comprada pelo Estado, dos canaviais mais próximos do porto – ou em outras áreas já devastadas –, o que, com a devida interligação multimodal entre a matriz portuária e esses empreendimentos adjacentes, poderia ser totalmente viável.

A polêmica maior em relação a isso é em relação aos estaleiros. Diz-se que eles têm que ser instalados à beira do mar para escoarem os navios a serem montados, sendo inviável que eles fossem implantados lá no canavial. Essa questão ainda não encontra respostas preliminares seguras. Mas, se querem a todo custo uma alternativa vinda de mim pelo menos em relação aos estaleiros, faço uma semileiga sugestão: poderia ser escavada uma área próxima ao litoral, já destituída de vegetação nativa, digamos, em Sirinhaém (próximo a 8°37′ S; 35°04′ O). Um canal ligando os lagos artificiais dos estaleiros ao oceano conduziria os navios ao mar. Haveria decentes indenizações às desapropriações feitas no local.

Mas aviso que esse meu esboço é muito vago e só pode ter sua ideia validada por um estudo competente, e leva em consideração predominantemente a distribuição de vegetação primária ou secundária, o problema principal da questão de Suape.

***

“Você está criticando só por criticar.”

Se advogar contra um megadesmatamento e exigir a busca de alternativa por parte do governo é apenas “criticar por criticar” e consequentemente é errado, então quase todos cidadãos que protestaram contra alguma medida absurda, como o corralito argentino em 2001, o programa francês de primeiro emprego em 2006, a política educacional chilena no mesmo ano e as atuais medidas econômicas impopulares do governo grego estavam apenas “protestando por protestar”, fazendo barulho sem validade, já que nem todos os manifestantes conheciam e apresentavam políticas públicas alternativas.

Outro detalhe é que quem me acusa de estar “criticando por criticar” ignora que minhas palavras não só se direcionam ao caso de Suape, mas também expressam uma demanda pela mudança da política econômico-social-ambiental do Governo Eduardo Campos, que é a causa-mãe desse e de diversos outros desmatamentos recentes no território pernambucano. Esquece-se também que minhas críticas ao ecocídio visam também provocar na sociedade uma reflexão e debate generalizados sobre a atual forma governamental e empresarial irresponsável e inconsequente de empreender e “desenvolver”.

Se isso é “criticar por criticar” e por isso não tem validade, então vamos desqualificar as críticas da população aos políticos, ao Bolsa-Família, à política salarial de Eduardo Campos para os professores, ao legado do governo Serra em São Paulo etc., porque poucos são aqueles que mostram como a coisa poderia ser diferente.

***

Assim espero que diversas das objeções de quem critica meu ativismo escrito contra o desmatamento de Suape tenham sido devidamente respondidas. Espera-se que aqueles que estão em cima do muro ou discordam dos ambientalistas entendam agora a lógica do protesto de pessoas como eu.

imagrs

Seja a primeira pessoa a comentar

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo