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maio10

Suape: o eufemismo da “supressão” esconde muito mais supressões

Praia de Suape nos anos 70, antes do porto tocar o terror e deformar tudo. A "supressão" suprimirá não só o que resta desse ambiente, mas muitas outras coisas.

Publicado originalmente em 01/05/10 às 00:13

Uma das estratégias que o Governo de Pernambuco vem utilizando, para suavizar perante a opinião pública a devastação dos 691 hectares (1076 menos os 385 que Eduardo Campos decidiu poupar) de vegetação ao redor do Porto de Suape, é o uso comum da palavra “supressão” no lugar de termos como desmatamento ou destruição.

Tenta-se desambientalizar e diminuir a importância ecológica negativa de tal evento com a utilização desse eufemismo, mas isso não funciona para pôr no conformismo aqueles que são contra o progresso sustentado na motosserra e no correntão. Pior ainda: com a palavra “supressão” diante de mim, penso em diversas outras supressões que se ocultam na atitude do governo, que foram ignoradas por Eduardo Campos e sua trupe legislativa.

Com a supressão anunciada pelo governo, vão ser suprimidas milhões ou mesmo bilhões de vidas de um rico ecossistema: árvores e outras plantas que não estavam em nenhuma plantação – no máximo tendo seus frutos extraídos por gente humilde que deles tira sua alimentação e sustento –, mas sim em ambiente silvestre; muitos e muitos animais que vivem naquele pedaço de natureza – siris, caranguejos, saguis, pássaros… – e, não tendo para onde fugir, morrerão graças à ação dos governo (des)matador da natureza.

Vai ser suprimido o que resta daquele que era outrora um grande berçário de vida marinha. Os tubarões que antigamente se espreitavam ali para se alimentar e se reproduzir já vagam por outros lugares, na intenção de garantir a continuidade de suas espécies – isso enquanto um Sinuelo da vida não os matar no meio do caminho. Já os peixes e crustáceos que ainda passam por ali para pôr ovos também serão afugentados – e provavelmente até diminuirão em população caso não reencontrem o equilíbrio ecológico em outro estuário.

Vai se suprimir a fonte de renda de pescadores e vendedores das frutas coletadas nas vegetações locais. Pescadores não terão mais onde pescar*, e os fruteiros perderão a fonte de sua mercadoria. O governo não leva em conta a existência dessas pessoas que precisam daquela área para sobreviver e ganhar seu pão, não prevê sua realocação para nova área e novos empregos. Assim sendo, será uma supressão tão séria quanto a destruição dos ecossistemas locais.

Além das supressões locais, haverá supressão também nas praias próximas. Estima-se que a água do oceano, que hoje tem sua energia de maré alta amortecida nos mangues de Suape, vai ter que descarregar a mesma na praias mais próximas, incluindo a já sofrida costa de Jaboatão. Ou seja, praias e até prédios vão ser suprimidos pela erosão marinha, graças à supressão feita em Suape.

E as supressões não estarão restritas ao meio ambiente, elas se estendem à política. Chegam ao Palácio Campo das Princesas e à Assembleia Legislativa. Nesse caso, haverá a supressão do respeito que o povo pernambucano – pelo menos a população da Grande Recife – tem por Eduardo Campos, o cabeça de tudo isso, aquele que se destacou por demonstrar total desrespeito ao meio ambiente e falta de noção válida de sustentabilidade, e pelos deputados da bancada governista, entre os quais praticamente todos aprovaram o ecocídio no último dia 27 – incluindo os deputados do PT, que haviam sido aconselhados por moção partidária a votar contra.

Suprime-se também a nossa admiração por Suape e por seus administradores e técnicos. O porto deixa de ser algo contemplável, como referência de desenvolvimento e geração de emprego, como alavanca do crescimento econômico de um estado inteiro, e passa a ser visto como exemplo negativo, como foco de desenvolvimento insustentável, como uma amostra de como o mau progresso investe contra a natureza e põe em risco a própria existência da humanidade.

Falo também dos administradores e técnicos de lá porque, como mostrado na fatídica reportagem do Jornal do Commercio do último dia 25, seu discurso se mostra demagógico, carregado de pseudoambientalismo, munido de uma falsa preocupação com a natureza. Apoiando a destruição que ameaça todo um estuário e sua vegetação, como ainda podem nos afirmar que Suape está caminhando certo no rumo à sustentabilidade? A tentativa furada deles de nos convencer que devastar aquilo tudo será “bom” e poderá ser realmente compensado custou-lhes o respeito que nós ainda tínhamos por quem gere e administra o não mais admirável porto.

E, por último, com a fraqueza do poder público (IBAMA, Ministério Público e outros), que até o momento vem silenciando e talvez consentindo a má intenção do governo, e a impotência aparentada por aquelas pessoas comuns que dizem estar indignadas mas nada fazem contra a ameaça de desmatamento e aterro, vem sendo suprimida até a nossa esperança na humanidade. O dinheiro está aí, mandando e desmandando no mundo, fazendo milhões matarem e morrerem em seu nome, e a grande maioria da população brasileira se divide entre os que apoiam as perversões da “gente poderosa” possuidora desse dinheiro e os que abaixam a cabeça perante ela.

Fica claro então que a supressão será muito mais supressão, suprimirá muitíssimo mais, do que aquilo que o eufemismo formalista usado pelo governo pernambucano nos leva a entender. Ou nós agimos, de alguma forma, para parar essa e outras ameaças de ecocídio, ou no futuro a nossa própria vida, ou a de nossos filhos ou netos, também correrá o risco de ser suprimida, pela falta de condições ambientais de continuar vivendo, graças à atitude dos governantes e empresários do presente.

*Não simpatizo com a profissão de pescador, mas sou totalmente contra tirar dos pescadores sua fonte de renda à força e/ou sem lhes dar outro emprego.

imagrs

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katia cris

maio 1 2010 Responder

“O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males”. Por dinheiro, calam-se os órgãos responsáveis pela preservação da natureza sem se preocuparem com as consequências. Vimos nos noticiários as catástrofes ocorridas no Rio de Janeiro, frutos da ganância do homem. O atual governador de Pernambuco é muito esperto, verdadeiro aprendiz de raposa. Ele costuma maquiar as coisas para mostrar à população de que tudo está bem , graças a ele. Maquia a educação, a saúde, a segurança e agora o desmatamento do manguezal em Suape.

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