O Ministério Público Federal vem empreendendo uma campanha de “conscientização” para que os brasileiros verifiquem a procedência da carne que compram, de modo que evitem carne originada de pastos gerados com desmatamentos ilegais e outros crimes. É boa a intenção do MPF, mas é limitada e reducionista quando pensamos, no âmbito ambiental, que a campanha poderia ser mais abrangente em favor do meio ambiente, em prol de um consumo realmente mais ecoamigável e, sobretudo, ético.

Enxerga-se a expansão ilegal dos pastos na Amazônia e no Cerrado como o problema ambiental maior do Brasil, com razão. Mas está longe de ser o único que merece atenção dentre os diversos males ambientais causados pela pecuária, já que temos também a emissão de gases-estufa mesmo pelas criações totalmente legalizadas de bovinos e pelos sistemas de transporte animal e abate, além da alimentação de bois em regime semiextensivo com milho e soja, dois grandes vetores de desmatamento, do grande gasto de água e do desperdício de terras agriculturáveis pelo baixíssimo rendimento da carne em quilos por hectare por ano – isso só considerando a bovinocultura.

Assim sendo, fica ambientalmente evidente que toda a carne bovina é ecologicamente maléfica e que a campanha do MPF incorre em reducionismo. A solução então é comer carnes brancas ou de outros mamíferos, certo?

Também não. As criações de porcos, bodes e galináceos, das pequenas cercas até as fazendas-fábrica, são responsáveis por muita poluição, oriunda principalmente dos excrementos, das substâncias químicas e do transporte de “carga viva”, e consumo exorbitante de água.

Sem falar nas questões éticas. Cada vez menos se consome carne sem preocupação com os animais que, seja nas mais destrutivas fazendas ilegais, seja nas mais “sustentáveis” criações “orgânicas”, são tratados como propriedade e mortos em grande número como se não fossem nada mais além de coisas, de matéria-prima ambulante. Por mais “ecológica” que seja, uma carne sempre virá recheada de exploração e negação de direitos.

Assim sendo, faria mais lógica o MPF incentivar o vegetarianismo do que pregar o consumo de carne legalizada. Mas, se isso acontecesse, seria muito inesperado, visto que o Poder Judiciário carece de qualquer visão animalista fora o bem-estarismo e prefere preservar os empregos e as divisas econômicas proporcionados pela pecuária, mesmo que venham manchados de sangue.

A solução mais coerente da alimentação para responder às degradações ambientais em todo seu conjunto é parar de comer qualquer carne – e também qualquer outro alimento de origem animal –, e não simplesmente consumir “carne legal”, amenizando o peso na consciência e esquecendo todas as perversas consequências do onivorismo distintas – mas nunca não relacionadas – do desmatamento. Mas, como estamos observando, as entidades de justiça ainda demorarão bastante para entender isso, ainda estão hoje na fase de achar que a carne e outros derivados animais não podem ser expulsos de nossa alimentação e que a pecuária é sagrada para a economia, mesmo que a torne uma economia suja do sangue da exploração e da matança.

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Uma resposta a Carne legal? Por que não o vegetarianismo?

  1. Prezado sr. Robson,

    A campanha não é pelo consumo de carne. Essa é uma opção individual de cada um e não cabe ao Ministério Público Federal opinar sobre isso. A campanha é pela legalização da cadeia da pecuária. Tanto o consumo da carne quanto o consumo de couro e de tantos outros subprodutos do boi, que já são prejudiciais em sua opinião, tornam-se ainda mais prejudiciais se estiverem mantendo fazendas que desmatam ilegalmente, utilizam mão-de-obra escrava e invadem terras públicas. Contra isso há leis, e o MPF é o defensor das leis. Por isso a campanha.

    Ficamos à disposição.

    Ministério Público Federal no Pará
    Assessoria de Comunicação
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