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Exemplos de androcentrismo na língua portuguesa

Hélio Consolaro, professor de português e dono do site Por Trás das Letras, mostra como a língua portuguesa tem muitos detalhes androcêntricos, que o fazem ser um idioma machista.

E algo que intrigou, tanto numa resposta de um professor ao artigo abaixo no site de Hélio como em outros textos na internet — textos com argumentos muito fracos, por sinal –, é que há pessoas que negam que o português é uma língua androcêntrica. Essas pessoas, pelo que vi, acham natural e perfeitamente aceitável que o masculino tenha assumido o papel de gênero padrão ou “neutro” — mas não explicam por que não foi o feminino a assumir tal papel — e tentam justificar o viés machista do português com a existência de distorções de gênero existentes em outros idiomas. Me parece que há uma ideologia de “democracia de gênero” que, assim como a da “democracia racial”, é uma falácia distante da verdade e fundada em muitas outras falácias.

Machismo na língua
por Hélio Consolaro, no site Por Trás das Letras

Adriano da Gama Kury em seu livro Para Falar e Escrever Melhor o Português dedicou no capítulo Na língua há também comandantes e comandadados algumas páginas ao assunto do machismo da língua na concordância nominal.

Aliás, ele recomenda a leitura do livro A Mulher na Língua do Povo, de Eliane Vasconcelos Leitão. Citaremos alguns exemplos:

1) Havendo substantivos dos dois gêneros (masculino/feminino), a norma gramatical diz que o adjetivo referente vai para o masculino plural: “Alunos e alunas aplicados”, pode haver na classe um aluno e 39 alunas. É um caso de machismo evidente.

2) O mesmo acontece na designação de seres inanimados, que nem sexo possuem: “Havia papéis, gravuras, revistas e canetas espalhados…” (predominou o masculino papéis). Só em caso excepcional a concordância se dá com o substantivo mais próximo, no caso canetas.

3) Alguns pronomes de gênero neutro na sua forma, como alguém, ninguém e se. Na concordância, o adjetivo assume o gênero masculino. Exemplos:

a) “Ficava horas na janela a ver se alguém conhecido passava.”

b) “Não havia ninguém famoso na reunião.”

c) “Nunca se é suficientemente generoso.”

4) Nos nomes que sintetizam substantivos de gênero diferentes. Exemplos:

a) “Tenho três filhos, duas moças e um rapaz.”

b) “Na próxima semana haverá reunião de pais.” (Incluem as mães.)

5) O pronome pessoal de 3ª pessoa do plural assume a forma eles, do masculino, quando substitui nomes masculinos e femininos.

Exemplo: “João e Maria saíram: eles vão ao teatro.”

6) Quando nos referimos à humanidade, usamos o masculino homem para generalizar homens e mulheres.

Exemplo: O homem é um ser racional. O homem conquistou a Lua.

7) Quando se faz menção à nacionalidade é igualmente o masculino que se usa.

Exemplo: O brasileiro é cordial. (= os brasileiros e brasileiras).

Muita gente machista ria quando o ex-presidente da República José Sarney dizia “Brasileiros e brasileiras”. Ele usava uma linguagem politicamente correta.

8) Só se diz homem de Cro-Magnon, homem de Neanderthal, origem do homem, a evolução do homem (= humanidade). Assim também a Bíblia traz os traços machistas da cultura judaica.

9) Na expressão um e outro aplicada a nomes dos dois gêneros.

Exemplo: “Lá começaram os seus amores (do rei) com a rainha, que tão fatais foram para um e outro.” (E não outra.).

10) Na designação de certas profissões, como soldado e toda hierarquia militar.

Exemplo: O soldado Maria Regina foi convocado.

11) Na locução devido a houve masculinização. Devido é particípio do verbo dever, pois concorda normalmente com o substantivo referente. Exemplo:

a) Ausência devida a motivo imperioso (certo gramaticalmente).

b) Ausência devido a motivo imperioso (concordância machista).

c) Dada a atenuante. Dadas as atenuantes (certo gramaticalmente).

d) Dado à atenuante. Dados às atenuantes (concordância machista).

imagrs

5 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Andr

outubro 12 2013 Responder

What? Gênero gramatical não é sexo biológico. É uma convenção: meu leite aqui é masculino e la leche por aí é feminina. E quanto a nomes que se referem a pessoas de ambos os gêneros, como disse o Raphael, por que então a criança, a pessoa, a vítima, mesmo no plural? Mas não sou nem louco de negar a cultura machista. Só que não é o caso de dizer assim que o português é uma língua machista, permitindo entender que exclusivamente o português é assim. Até para evitar comentários como “É por isso que eu gosto de inglês,é uma língua mais democrática”.

Se o português não tem neutro a culpa é de quem? Nenhuma língua romance o tem (exceto o romeno, se eu não estiver dizendo besteira). Se não fosse o masculino a suprir esse papel seria o feminino, não é? E seria a mesma coisa. Acho que modificar a língua de forma alguma é um tipo de solução, porque não é natural. A linguagem é natural e essa artificialidade não “pega”, de jeito nenhum. O eficaz mesmo é acabar com o sexismo “de verdade”, aquele que está ali matando, ferindo, estuprando, humilhando.

Jorgina Vivace

agosto 9 2012 Responder

É por isso que eu gosto do inglês,é uma língua mais democrática.Os substantivos no inglês não têm gênero,o artigo e o plural também não.”He/she (eles/elas),em inglês,é “they”.

Sami

julho 1 2010 Responder

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Grato,
RF

Raphael

julho 1 2010 Responder

Robson… não acho que seja machismo em alguns dos itens colocados, a saber:

2) Não é verdade que seja um “caso excepcional”. É facultativa a concordância no masculino ou somente no feminino porque está mais próximo. Neste caso, vai para o masculino porque o adjetivo “espalhados” é predicativo do sujeito.

E ainda, como você mesmo apontou neste exemplo, são seres inanimados, não possuem sexo. O uso do masculino é mera convenção – porém, convenção necessária para ser entendido pelos outros.

3), 7) e 9) ninguém conhecido [nenhum ser, indivíduo, cidadão, elemento conhecido] “um e outro”, um e outro [ser, indivíduo, elemento; objeto, item de uma coleção].

10) Simplesmente porque existem palavras que NÃO variam textualmente de gênero, são sobrecomuns.

No caso citado, “o soldado” tanto se refere a homem ou mulher, da mesma forma que “o sujeito”. Se isso é machismo, então da mesma forma “a vítima”, “a criança”, “a testemunha”, poderiam ser casos flagrantes de feminismo e exclusão do gênero masculino, o que evidentemente é um absurdo, portanto o item 10 não procede.

A língua permite falar “filhos” e os outros entenderem que se trata de crianças de um e outro sexo. É pura praticidade também. Sem falar que o uso de arrobas e letras latinas arcaicas constitui um problema fonético. A não ser que se peguem emprestados os fonemas [estranhos ao português brasileiro] de outras línguas como o A na palavra “limba” em romeno. Ele é meio átono, mais ou menos como o segundo A na palavra CASA quando pronunciada em português com tipico sotaque lusitano.

Em tempo… não acho que isso seja algo merecedor de questionamento.

    Robson Fernando

    julho 2 2010 Responder

    Raphael, me permita observar seus questionamentos:
    A questão 2, pra um ponto de vista muito moderado e apaziguador, realmente parece um exagero. Mas ainda assim deixa exposto que o masculino é o gênero padrão. Se não têm sexo, o ideal seria o uso de verbos e adjetivos neutros, que não existem no português.
    Sobre a 3, precisamos relativizar. “Ninguém” também pode ser “nenhuma pessoa”, “nenhuma alma”.
    Já a 7 e a 9 também escancaram que o masculino é o gênero padrão.

    Sobre a questão fonética do PCIG (português com inclusão de gênero), ainda é uma lacuna, isso eu reconheço. A resposta a essa questão virá com o tempo. Até o momento, o idealizador do PCIG (http://conscienciaefervescente.blogspot.com/2009/08/proposta-do-portugues-com-inclusao-de.html) sugeriu que o @ poderia ser pronunciado “ó” — ex.: @s alun@s seria pronunciado como “ós alúnós” e a ligadura, pronunciada “é” — “professôrés”. Ainda fica polêmico porque enfatiza o fonema das vogais masculinas.

    E o assunto da linguagem realmente é avançado demais pra uma sociedade que ainda tenta dar igualdades de oportunidades às mulheres e diminuir a violência machista contra mulheres e gays. Mas vale a pena iniciar o debate desde já, pra que chegue mais desenvolvido quando chegar a hora de influenciar a linguagem depois de vencidos outros androcentrismos da nossa sociedade.

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