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“Por que não vão defender as crianças com fome?”

O texto abaixo foi escrito em 13/04/2005, por Francisco José Papi, e circula pela internet desde então. O primeiro parágrafo dá a impressão de que foi escrito no Orkut ou num fórum em sua época, em resposta a um post imediatamente anterior.

Por que não vão defender as crianças com fome?

Questão interessante. Vamos ver se essa eu consigo responder de modo tão didático quanto a anterior.

Primeiro: com esse fraseado você admite que existem dois tipos de pessoas no mundo, as Pessoas Que Ajudam e as Pessoas Que Não Ajudam.

Além disso, admite também que você faz parte das Pessoas Que Não Ajudam; afinal, do contrário, você diria algo do tipo “Por que não me ajudam a defender as crianças com fome?”, ou “Venham defender comigo as crianças com fome!”, ou “Não, obrigada, vou defender as crianças com fome”.

Então você se coloca claramente através de sua escolha de palavras como uma Pessoa Que Não Ajuda.

Ora, é curioso que você, Pessoa Que Não Ajuda, não faça nenhum esforço para ajudar, mas sim para tentar dirigir as ações das Pessoas Que Ajudam para onde você quer que elas vão.

É bastante interessante; se eu fosse até sua casa organizar sua vida financeira sob a alegação de que eu sei muito mais sobre administração familiar eu estaria interferindo, mas você se sente no direito de interferir nas ações que uma pessoa resolve tomar para aliviar os problemas que ela encontra ao seu redor.

Você é uma Pessoa Que Não Ajuda, mas ainda assim quer decidir quem merece ajuda das pessoas Que Ajudam.

O nome disso é “prepotência”.

Segundo: Pessoas Que Ajudam nunca vão ajudar as “crianças com fome”.

Nem tampouco os “velhos”, os “doentes” ou os “despossuídos”.

E sabe por que? Porque “crianças com fome” ou “velhos” ou qualquer outro destes é abstrato demais.

Não têm face, não são ninguém; são figuras de retóricas de quem gosta de comentar sobre o estado do mundo atual enquanto beberica seu uisquezinho no conforto de sua casa.

Pessoas Que Ajudam agem em cima do que existe, do que elas podem ver, do que lhes chama naquele momento.

Elas não ajudam “os velhos”; elas ajudam “os velhos do asilo X com 50,00 reais por mês”.

Elas não ajudam “as crianças com fome”; elas ajudam “as crianças do orfanato Y com a conta do supermercado”.

Elas não ajudam “os doentes”; elas ajudam o “Instituto da Doença Z com uma tarde por semana contando histórias aos pacientes”.

Pessoas Que Ajudam não ficam esperando esses seres vagos e difusos como as “crianças com fome” baterem na porta da sua casa e perguntar se elas podem lhe ajudar.

Pessoas Que Ajudam vão atrás de questões muito mais pontuais.

Pessoas Que Ajudam cobram das autoridades punição contra quem maltrata uma cadela indefesa sem motivo.

Pessoas Que Ajudam dão auxílio a um pai de família que perdeu o emprego e não tem como sustentar seus filhos por um tempo.

Pessoas Que Ajudam tiram satisfação de quem persegue uma velhinha no meio da rua.

Pessoas Que Ajudam dão aulas de inglês de graça para crianças de um bairro pobre.

Pessoas Que Ajudam levantam fundos para que alguém com uma doença rara possa ir se tratar no exterior.

Pessoas Que Ajudam não fogem da raia quando vêem QUALQUER COISA onde elas possam ser úteis.

Quem se preocupa com algo tão difuso e sem cara como as “crianças com fome” são as Pessoas Que Não Ajudam.

Terceiro: Pessoas Que Ajudam são incrivelmente multitarefa, ao contrário da preocupação que as Pessoas Que Não Ajudam manifestam a seu respeito.

(Preocupação até justificada porque, afinal, quem nunca faz nada realmente deve achar que é muito difícil fazer alguma coisa, que dirá várias).

O fato de uma pessoa Que Ajuda se preocupar com a punição de quem burlou a lei e torturou inutilmente uma cadela não significa que ela forçosamente comeu o cérebro de crianças pequenas no café da manhã.

Não existe uma disputa de facções entre Pessoas Que Ajudam do tipo “humanos versus animais”.

Geralmente as Pessoas Que Ajudam, até por estarem em menor número, ajudam várias causas ao mesmo tempo.

Elas vão onde precisam estar; portanto muitas das Pessoas Que Ajudam que acham importante fazer valer a lei no caso de maus-tratos a um animal são pessoas que ao mesmo tempo doam sangue, fazem trabalho voluntário, levantam fundos, são gentis com os menos privilegiados e batalham por condições melhores de vida para aqueles que não conseguem fazê-lo sozinhos.

Talvez você não saiba porque, afinal, as Pessoas Que Ajudam não saem alardeando por aí quando precisam de assinaturas para dobrar a pena para quem comete atrocidades contra animais que estão fazendo todas estas outras coisas, quase que diariamente.

E acho que é por isso que você pensa que se elas estão lutando por uma causa que você “não curte”, elas não estão fazendo outras pequenas ou grandes ações para os diversos outros problemas que elas vêem no mundo.

Elas estão, sim.

E se fazem ouvir como podem, porque sempre tem uma Pessoa Que Não Ajuda no meio para dar pitaco.

Então, como diria meu avô, “muito ajuda quem não atrapalha”.

Porque a gente já tem muito trabalho ajudando a Preta [provavelmente a cadela assassinada na época depois de arrastada por vários quilômetros por um carro cheio de criminosos] e todas as outras pessoas e animais que precisam (algumas até poderiam ser chamadas tecnicamente de “crianças com fome”, se assim você prefere).

Espero que isso tenha respondido à sua questão.

(este texto pode e deve ser reproduzido)

imagrs

13 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Bárbara de Almeida

outubro 20 2011 Responder

Sempre que me mandam ajudar as pessoas com fome eu link este texto. wahaha.

Obrigada, de novo, pelos argumentos Rob ;D

Nicole

setembro 23 2011 Responder

Simplesmente perfeita a resolução do texto!
Escreve muito bem, meus parabéns pelo caráter e a decência que possui, também por lutar e se dedicar a essas nobres causas…

    Robson Fernando de Souza

    setembro 23 2011 Responder

    Obrigado, Nicole, mas o texto é de Francisco José Papi, não meu.

Bruna

setembro 8 2011 Responder

Esse texto é maravilhoso. Postei no meu blog: libertas-quaeseratamen.blogspot.com

Fred Henrieto Marsanes

junho 19 2010 Responder

Pois é, e quando existem missões católicas ajudando centenas de pessoas com fome, na miséria e doente, tem ateu que fica querendo acabar com elas. Mais ajuda quem não atrapalha não é ?

    Robson Fernando

    junho 19 2010 Responder

    Espero que esse comentário não tenha sido uma crítica a este blog, porque, se for, ela não tem mais sentido, pelo post de aviso mais recente.

    estrela"k"invertido

    agosto 28 2011 Responder

    Galera por favor,uma sociedade como a que vivemos hoje tem que ser baseada na Justiça, e justiça não tem absolutamente nada a ver com Deus ou Religião. Eu sei o que é Justiça, e sei que a sociedade está tendo um lapso de Justiça.Sei também que Deus não precisa existir para que a sociedade evolua, 7 bilhões de cabeças pensantes (e muitas delas morrendo de sede e fome)não se ajudam mutuamente até nos mínimos detalhes porque o que falta é educação, não “Deus no coração”.
    Eu me martirizo todo dia por fazer piadas com os meus amigos, e por estar estudando em uma escola particular, e por não estar discursando na rodoviária, pregando cartazes, convencendo as pessoas. Eu penso todo dia se terei que esperar mais quatro anos para agir.
    Minha esperança também é que a Copa2014 termine antes mesmo de começar, que seja uma desgraça para a população brasileira, que seja um total desvio de dinheiro- talvez mexendo na única coisa que os burgueses brasileiros se importam eles acordem para a sociedade de merda que eles estão construindo.
    É ofensivo até que nas eleições os políticos precisem apelar para religião para conseguirem votos.Estado e Igreja são instituições que nada tem em comum entre si, mesmo porque cada Igreja é diferente mas o Estado é único e soberano.
    As missões em sua grande maioria são feita para salvação própria, em nome de Deus – sim, eles estão ajudando, mas esse não é, nunca foi, nem nunca será a solução – ; e o fim nunca justifica os meios.Os meios tem de ser tão bons quanto o resultado.
    Tem ateu que é sim idiota…mas vai dizer que a maioria da população brasileira, que é cristã (70% se não me engano): nem metade é idiota?Um terço?Um quarto?
    Quanto menos educação, mais ignorância.Eu descobri isso na 5º série; quando é que geral vai descobrir isso também?

Malu

junho 17 2010 Responder

Olá Robson,

Como sempre textos excelentes e pertinentes.
O seu texto foi publicado no meu blog.
Obrigada pela inspiração!

Abs.

(para conferir: http://vegetarianismoveganismo.wordpress.com/2010/06/17/por-que-nao-vao-cuidar-de-criancas/ )

    Robson Fernando

    junho 17 2010 Responder

    Obrigado, Malu =) bjs

Samory Pereira Santos

junho 16 2010 Responder

Ótimo texto. Muito bom mesmo.

SOS VIRA-LATAS

outubro 25 2008 Responder

Olá robson: adorei teu blog e o texto… melhor ainda, quer linkar o meu? tentei mas não sei fazer.

Art by Lu

outubro 25 2008 Responder

Texto excelente, vou repassar.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo