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jun10

A viralização da violência: quando uma “publicidade” se torna mais relevante que a violência

Um texto me causou confusão, tanto que inicialmente eu interpretei erradamente sua abordagem. Mas depois notei que era não uma crítica à ação do jornalista Afonso Benites, mas uma soma da compreensão do provável caráter de protesto do mesmo contra a banalização da violência, pela qual a exposição de “merchandisings” num notícia de assunto tão sério se tornou algo mais relevante que a sanguinolência do fato violento que a notícia relatou, e da crítica a essa banalização, que vem sendo promovida pelos mais diversos jornais e programas televisivos.

Essa banalização da violência é algo totalmente incompatível, um obstáculo até, com os desejos de que nos tornemos uma cultura de paz. O fato de termos naturalizado os crimes mais desgraçados nos tira muito de nossa vontade de tornar o Brasil um país menos violento.

Em relação à minha confusão, fica a lição de que eu ainda tenho o que evoluir em termos de interpretação de texto.

O texto citado acima é o artigo de Rodolfo Araújo, publicado no seu blog Não Posso Evitar e no Acerto de Contas:

A viralização da violência
por Rodolfo Araújo

Causou mal-estar uma notícia recente sobre um crime ocorrido num hipermercado em Guarulhos, região da Grande São Paulo, no último dia 28. O motivo da estranheza, contudo, não foi o crime em si – já que esfaquear três pessoas num local público é algo perfeitamente corriqueiro por aqui (ou pelo menos é assim que a imprensa brasileira quer que você pense).

A comoção teve origem nas estranhas linhas pseudopublicitárias que entremeavam a contagem de corpos do crime:

“José Marcelo de Araújo, 27, percorreu quase todas as seções do Extra, no centro, ameaçando as pessoas. Empunhava uma faca de churrasco, que furtou no próprio local (Tramontina, modelo Ultracorte, pacote com quatro tamanhos: R$ 53,90).”

Em seguida outra menção a uma marca:

“Era dia de promoção –a Quarta Extra (até 30% de desconto em frutas e legumes). A loja estava cheia.”

O texto de Afonso Benites (veja aqui a íntegra) escrito para a Folha de São Paulo foi-me enviado por uma amiga, enfurecida com o fato de um jornal fazer um post pago num tema dessa natureza. Ora, isso não faz o menor sentido, pensei.

A primeira coisa que me ocorreu, confesso, foi que era publicidade automática onde, tal como ocorre no Google Ads, anúncios específicos são inseridos de acordo com palavras-chave presentes no texto. O robô viu a palavra “faca” e colocou um anúncio de faca. Nada mais natural, até porque ainda não existe uma ferramenta de inteligência artificial capaz de identificar o teor de um texto, se positivo ou negativo.

Lembrei disso porque uma vez vi um uma reportagem falando dos males do narguilê e, logo abaixo, vários anúncios de lojas que vendiam narguilês.

Googlei o nome do autor e cheguei no blog de Marcelo Träsel, jornalista e professor da PUCRS, onde o texto Dançando no limite do bom gosto abriu um pouco minha perspectiva. Para Träsel, a citação dos produtos no meio do texto acrescenta um elemento de banalidade à narrativa, mostrando como notícias desta natureza assumem um caráter trivial frente à população. Apesar de isso parecer uma viagem acadêmica à primeira vista, um olhar mais crítico haverá de elogiar a sutileza do autor. Ou você ainda não percebeu que o anúncio da faca te chocou muito mais do que o crime em si?

A banalização da violência nos meios de comunicação entorpece nossos sentidos e nos deixa indiferentes a esses massacres. Ninguém se espanta mais com esses acontecimentos, mas um anúncio* é inadmissível! Mais adiante, Träsel lembra de um jornalista amigo seu contando como a grande divulgação de crimes violentos nas décadas de 1980 e 1990 tornaram os criminosos muito mais cruéis, buscando uma sinistra fama proporcionada pelos próprios jornais, gerando um macabro feedback.

Não sei se aqui há uma confusão entre correlação e causalidade, mas quando eu era criança, no Rio de Janeiro, não era raro ver na primeira página de um jornal fotos de cabeças desacompanhadas de seus respectivos corpos. E vice-versa. De lá para cá os crimes tornaram-se muito mais cruéis e banais, mas talvez seja apenas coincidência.

* * * * * * * * * *

Parei de ler jornais faz algum tempo, simplesmente porque eles não me acrescentam nada. No ótimo A lógica do cisne negro Taleb diz que não lê mais jornais porque eles não lhe trazem nenhum benefício – mesmo sendo ele um investidor profissional – e, assim, sobre-lhe uma hora a mais por dia para ler livros. Passo muito bem sem jornais.

Qualquer notícia mais relevante você vai ficar sabendo pelo twitter ou alguém vai fazer o desfavor de te contar. Fora isso, nada do que saiu no jornal nos últimos anos mudou a minha vida. Normalmente dou uma olhadela na edição online para conferir alguma coisa sobre a qual já ouvi. E sempre fecho a página revoltado com as notícias de escândalos, corrupção e crimes banais. Sinceramente eu posso viver sem isso. Você não?

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O outro “anúncio” do texto diz que às quartas-feiras o hipermercado tem promoção de frutas e legumes. Ainda segundo Träsel, é um contraponto ao título do texto lembrando que, apesar de o estabelecimento estar cheio, o criminoso só foi contido depois de meia hora. Se hoje não dá para esperar que alguém te ajude a atravessar a rua, que dirá te proteger de um assassino – mesmo quando em grande vantagem numérica.

Infelizmente os exemplos de Imaginação Heróica disseminados por Philip Zimbardo são cada vez mais raros. O que mais se observa é a Paralisia Coletiva descrita por Latané e Darley. No caso mais emblemático descrito por estes autores, Kitty Genovese foi atacada, esfaqueada e violentada durante mais de meia hora, gritando desesperadamente por socorro, diante de 38 espectadores que assistiam a tudo de seus apartamentos. Genovese morreu sem que ninguém tivesse feito nada.

Graças à nossa imprensa – e ao público que a consome e alimenta – homicídios não passam de entretenimento. Tal como descreveu um entrevistado vizinho ao prédio dos Nardoni, empolgado com a movimentação na rua, “bem a tempo, porque o Big Brother estava acabando”. Estas são as notícias interessantes. Estes são os temas empolgantes que rodam o mundo por email e twitter. Não à toa são os chamarizes da maioria dos vírus (bem feito para quem é vítima de tais hoaxes!). Enquanto isso, diversas Kitty Genoveses são mortas todos os dias. Mas anúncios são um absurdo!

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* Träsel lembra, ainda, que para que a citação seja caracterizada como publicidade é preciso haver um pagamento – o que eu duvido que tenha ocorrido.

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3 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Rodolfo Araújo

junho 24 2010 Responder

Legal, Robson, obrigado por postar o texto!

Um abraço, Rodolfo.

Tes Saloniki

junho 23 2010 Responder

Descreve parte da minha opinião. Nossa sociedade é cada vez mais violenta porque a violência está cada vez mais banalizada.

Nesse gancho, o que você acha, por exemplo, sobre a violência nos jogos eletrônicos? Uma pesquisa recente apontou que eles não influenciariam no comportamento juvenil.

TES

    Robson Fernando

    junho 24 2010 Responder

    Vejo os jogos violentos como uma forma de banalização, mas que está mais pra naturalizar a violência do que fazer pessoas se tornarem violentas.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo