Analisando um comercial de requintes discriminatórios
Deixo claro que a intenção não é “queimar” a Renault, mas alertar à população e à própria agência de publicidade que elaborou o comercial abaixo sobre como a publicidade televisiva tem um forte viés discriminatório no que se refere a negr@s e mulheres.
Um trabalho de um grupo de colegas do qual eu participei foi apresentado no Congresso Internacional de Ética e Direitos Humanos, que aconteceu no começo do mês no CCSA/UFPE e falava do rarefeito lado literalmente negro da publicidade televisiva no Brasil. O trabalho mostrava que é evidente como há uma ausência sistemática da pessoa negra nessas propagandas e como ela, quando presente, tem quase sempre uma participação desvalorizada, baseada em estereótipos e na submissão.
É o que vemos na propaganda abaixo. Mas, neste caso, não só do negro, mas também da mulher.
Reparem: o homem branco é o protagonista e fala tudo, uma pessoa extremamente ativa, enquanto o negro, seu colega, fica completamente silencioso, sempre passivo e, pasmem, termina sendo derrubado no esgoto!
Depois de o negro ser sacado do comercial, aparece a mulher casada, vestida de noiva. Também passiva e silenciosa perante o superativo protagonista branco.
São dois destratamentos de “minorias” — minorias enormes, considerando que a categoria “negra”, que soma a população parda (pele morena ou negra-clara) e preta (pele escura ou muito escura), correspondia em 2000 a 44,7% (Censo 2000 IBGE) e que há mais mulheres (50,78% da população em 2000) que homens no Brasil — em um só comercial.
Primeiro, o negro rebaixado, tratado como pessoa de segunda classe como acontece desde sempre no Brasil. Calado, passivo, de longe sem a mesma importância do branco, e ainda termina humilhado por ser jogado no bueiro pela chegada da mulher. Não apresenta um status explicitamente marginalizado ou submisso, mas é mantido na passividade, não sendo participativo no monólogo do branco. Pergunto: por que o protagonista tinha que ser o branco, não o negro?
Segundo, a mulher “feita” para casar, para ser esposa. A mulher só aparece no comercial porque o protagonista falou rejeitando o casamento. É explorado o estereótipo da mulher-esposa, da mulher sob tutela do marido, desprovida de autonomia e autodeterminação. Esse estereótipo ainda é reforçado com uma pitada de submissão, já que ela também não fala nada, se mantém silenciosa e passiva assim como o negro que foi jogado no esgoto. É secundária, não é participativa. Pergunto também: por que o protagonista tinha que ser o homem, não a mulher?
E por que se preferiu não fazer @s personagens do comercial igualitári@s na conversa, com o negro e, em seguida, a mulher conversando de igual para igual com o protagonista homem branco? E por que o negro teve que terminar sua participação de forma humilhante, sendo jogado no esgoto pela silenciosa mulher-noiva?
E, no final, o homem branco é o supremo. Dono e motorista do Clio. Longe do seu colega negro, que devia àquela hora estar se sufocando com o pestilento mau cheiro do esgoto onde caiu, e ao lado da sua submissa e passiva esposa vestida de noiva.
Em tempos de luta dos movimentos negros e feministas, ainda temos que ver esse tipo de comercial, discriminatório e rebaixante, que valoriza o homem branco e degrada a imagem dos homens negros e das mulheres (de qualquer raça).
Atualização (15/07/10, 23:11): O comercial acima foi denunciado ao CONAR com os argumentos acima.
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5 respostas a Analisando um comercial de requintes discriminatórios
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[...] Ética – Analisando um comercial de requintes discriminatórios [...]
Lhe responderei, pois hoje estou inspirado.
“Pergunto: por que o protagonista tinha que ser o branco, não o negro?”
Bem, como a maioria das pessoas que teriam condições para comprar um Renault são brancas, colocar um protagonista branco iria ajudar na identificação da maioria dos possíveis clientes com o protagonista e, logo, com o produto ao qual ele está associado.
“Pergunto também: por que o protagonista tinha que ser o homem, não a mulher?”
Idem, mas troque brancas/branco por homens, homem.
As outras suas perguntas são simples: apelando ao lado machista e supremacista branco que POSSIVELMENTE (vejam bem o possivelmente, antes que alguém venha me tachar de leviano) seus prováveis clientes possuem. Meio que masturbando a utopia pessoal de gente que, bem, gostou ideologicamente o comercial.
Obviamente, alguém vai ler isso e me chamar de partidário do “coitadismo”. Mas a vida tem suas dificuldades, e uma delas são pessoas tolas. Não no sentido bíblico da palavra.
Essa parte eu não entendi.
É a mesma resposta que eu tinha dado antes, mas onde se lê “pessoas brancas”, leia-se “homens” e onde se lê “branco”, leia-se “homem”.
Ah então assim sim. Agora eu entendi.