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jul10

Crítica ao atual paradigma de jornalismo ambiental

Do Observatório da Imprensa, um artigo que importa muito para o Arauto, já que trata de como o jornalismo ambiental ainda não atende às necessidades da conscientização – tivemos um exemplo agora sobre Suape, no qual a mídia fez uma cobertura para lá de desprezível – em certo caso, um jornalismo antiambiental – sobre o progresso do ecocídio liderado pelo governo Eduardo Campos.

Falta diálogo com a sociedade
Por Washington Araújo, para o Observatório da Imprensa

Em junho de 1992, o Brasil sediou a Cúpula da Terra, o mais importante evento promovido pelas Nações Unidas para tratar do meio ambiente no planeta. Durante quase um mês, centenas de organismos não-governamentais foram ao Rio de Janeiro e nos dias mesmo da Cúpula tivemos cerca de 180 chefes de Estado presentes.

O Aterro do Flamengo celebrou a força do movimento ecológico. Ainda não se falava do superaquecimento com o fervor com que hoje se fala; buraco na camada de ozônio aterrorizava mais pelo desconhecimento que por suas consequências práticas; derretimento das calotas polares era tema restrito aos círculos de cientistas. Enfim, éramos muito mais idealistas e muito menos práticos. E não existia ainda de maneira consolidada o jornalismo ambiental. Quem cobria catástrofes naturais, cobria meio ambiente; quem cobria a cena internacional, cobria a ação.

O jornalismo ambiental – mesmo que ainda, a meu ver, incipiente no Brasil – precisa mudar por várias razões. Em primeiro lugar, não se pode praticar o jornalismo ambiental sem compromisso, apostando numa pretensa neutralidade, objetividade etc. Em segundo lugar, o jornalismo ambiental não se pode focar apenas no aspecto técnico porque o importante, se quisermos efetivamente trabalhar para a solução dos problemas, é perceber as conexões entre o meio ambiente, a economia, a cultura, a política, a saúde e a sociedade.

Esta perspectiva fragmentada, que vem a reboque da cobertura de grandes catástrofes, não contribui para fortalecer o jornalismo ambiental, apenas o coloca na agenda, sem se comprometer com um debate sério, abrangente, como deve ser. Finalmente, o jornalismo ambiental deve atentar para os grandes interesses que rondam essa área e ter em mente que existe na prática a chamada praga do marketing verde.

É comum que jornalistas que “cobrem o meio ambiente” criem um linguajar todo próprio, falem com naturalidade sobre temas como efeito-estufa, vazamento de petróleo no golfo do México e as consequências do desmatamento desenfreado no Brasil, em particular, na região amazônica. Também são dados a repercutir previsões catastróficas sobre o futuro da humanidade, citando para tanto cientistas há muito assessorando entidades ambientalistas.

Parece-me estratégia equivocada. Não é através do medo que as pessoas passarão a se interessar pela preservação do meio ambiente. Tampouco é razoável ficar difundindo novas datas para o colapso total do planeta. Tal ação jornalística produz exatamente o efeito contrário: retirar a necessária credibilidade do assunto, quando não o empurra para aqueles temas fantasiosos que terminam virando roteiro de ficção científica tipo B, bem ao gosto dos estúdios cinematográficos de Hollywood.

Foi ao término da Segunda Guerra Mundial que ganhou relevância o jornalismo ambiental. Sessenta anos depois, a verdade é que ainda engatinhamos no assunto e seus temas estão invariavelmente atrelados ao catastrofismo. Pouco espaço é concedido à importância de levar à vitrine midiática experiências bem sucedidas no campo da educação ambiental. E não falta assunto sobre meio ambiente; o que falta mesmo é apetite para o cardápio.

Há muito que organismos não-governamentais, como o Greenpeace, embarcaram na onda da espetacularização, onde quanto mais vistosa for a cena, quanto mais inusitado for o roteiro a ser veiculados em filmetes mundo afora, usando-se principalmente o suporte da internet, mais se tem a sensação de missão cumprida. É assim com o trabalho das ONGs contra o massacre de baleias e é assim também sua ação contra a proliferação de tecnologia nuclear. O mesmo diapasão é usado para promover a preservação de espécies em extinção.

Quando teremos um jornalismo ambiental que dialogue com a sociedade, de igual para igual? Quando ouviremos um jornalista declaradamente ambientalista discorrendo sobre o assunto sem aquele jeito presunçoso de quem é o dono absoluto da verdade?

Há que se baixar a bola dos que se sentem investidos da missão de salvar o planeta e levantar a bola dos que sabem que, mesmo sendo a Terra nada mais um pálido ponto azul no universo, ainda assim é o melhor e o mais belo planeta que conhecemos e que nos acolhe uma e mil vezes, a cada momento, a cada instante. O que precisa ser levado à extinção é a arrogância dos que criam dificuldades para vender facilidades logo em seguida.

Será que fui claro?

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