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jul10

Essa é a gloriosa “Revolução de Suape”

Lendo o artigo de Georgia Pinheiro e Paulo Henrique Amorim intitulado “Suape é uma revolução em Pernambuco. O pernambucano quer voltar”, penso que “revolução” é essa, que vem promovendo um impulso econômico e industrial em Pernambuco às custas de intensiva destruição ambiental. Percebo que na verdade essa é mais uma daquelas revoluções que derramam sangue e destroem vidas para poder se instituir e se consolidar.

Depois das revoluções francesa, que executou o rei Luís XVI e muitos dissidentes, e russa, que matou toda a família do czar Nicolau II e implicou mais milhões de mortes nas décadas seguintes, vemos agora a Revolução de Suape, que não derrama sangue humano mas vem massacrando milhões de vidas, animais e vegetais, que habita(va)m o ecossistema estuarino da foz do Rio Ipojuca, ao mesmo tempo em que encanta a população que gosta de ver “revoluções” industrialistas como essa explodindo pelo planeta em prol do progresso.

A propaganda dos revolucionários é forte: divulga uma explosão industrial sem precedentes em Pernambuco, com geração de milhares de empregos sofisticados, ocupados por pernambucanos e pessoas de outros estados e países, e atração de divisas. Mas esconde convenientemente o massacre que acontece no “front de guerra” da batalha revolucionária.

Nesse conflito, a natureza é encarada como o Antigo Regime, ou como o czarismo semifeudal, que deve ser derrotado e derrubado, e sua população leal de caranguejos, siris, peixes, árvores Rizophora mangle, plantas rasteiras de restinga etc. massacrada, para que a nova ordem, a da industrialização suja, do progresso esfumaçado, da vitória humilhante da humanidade sobre a outrora dominante natureza, se erga e governe o local.

É um Terror pernambucano, ligeiramente semelhante ao Terror francês de 1793-94. Aqui, porém, o que é cortado não são pescoços de pessoas, mas árvores, arbustos, vegetação rasteira.

Como monumentos “revolucionários” às vitórias dessa revolução que tem como ideologia o desenvolvimento insustentável e inconsequente, dois “arcos triunfais” estão sendo ou serão erguidos: a Refinaria Abreu e Lima, uma glória à continuidade teimosa da dependência de petróleo da humanidade, construída a despeito da necessidade de se dedicar esforços ao desenvolvimento de fontes limpas e renováveis e da vontade do governo de encabeçar mundialmente a produção de combustíveis vegetais, e a termelétrica da Energética Suape II e da Wärtsilä, que promete jogar mais fumaça à já esquentada atmosfera e mostrar que, no século 21, ainda prevalece o paradigma energético do século 19 – queimar combustível-fóssil para gerar energia elétrica.

E não é só isso. A ala jacobina da frente revolucionária, já detentora do poder, encabeçada por Eduardo Campos e Fernando Bezerra Coelho, trouxe para o já combalido e vencido estuário aquilo de que o planeta menos precisa: uma fábrica descartável a derrubar 80 hectares de mangue! Trata-se de um estaleiro que será construído programado para fazer apenas oito navios gaseiros, depois dos quais só os deuses sabem o que será feito no lugar.

E as forças revolucionárias vão avançando com um exército de deixar muitos generais babosos: infantaria munida de motosserras e cavalaria a trator, apenas esperando as ordens para realizar o showdown: destruir os mais importantes redutos da população animal e vegetal que ainda tem como monarca absoluta a Mãe Natureza, disposta sobre 691 hectares. A revolução já deixa claro: aquilo tudo, desde o início dos enfrentamentos, está demarcado como propriedade das forças revolucionárias.

E assim vai andando a “revolução” elogiada por Paulo Henrique Amorim. Uma maravilha aos olhos das pessoas, que querem a vitória do progresso, mas por outro lado uma guerra sangrenta dos industrialistas contra a natureza, cada vez mais derrotada e próxima de uma aniquilação.

P.S: A linha final do artigo de PHA e Georgia Pinheiro diz: “Segundo o pernambucano Fernando Lyra, Eduardo Campos será presidente do Brasil.” Temo pelos biomas brasileiros se isso um dia acontecer. Talvez temerei ainda mais do que hoje temo a possível expansão da bancada ruralista em Brasília.

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