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jul10

A ética seletiva das pesquisas com células-tronco

EUA liberam em humanos teste com células-tronco embrionárias

A FDA (órgão que fiscaliza alimentos e medicamentos nos Estados Unidos, similar à Anvisa) liberou nesta sexta-feira (30) o primeiro teste no mundo em seres humanos de um tratamento médico derivado de células-tronco embrionárias.

Agora, a empresa Geron Corp. (Gern) poderá seguir em frente com seu teste preliminar, interrompido há cerca de um ano, em agosto de 2009.

Células-tronco embrionárias são consideradas as mais versáteis de todas, obtidas de embriões com poucos dias de vida –elas podem se transformar em qualquer tipo de célula no corpo.

A companhia de Menlo Park, Califórnia, inicialmente lançou sua experiência, que teria o potencial de curar lesões na medula espinhal, no início de 2009. Mas ele foi paralisado sete meses depois, quando preocupações sobre a segurança foram levantadas por conta de um teste utilizando camundongos. De acordo com a Geron, os animais haviam desenvolvido cistos espinhais.

A Geron diz agora que encontrou uma nova forma de testar sua terapia e que não viu cistos em um estudo separado com animais –diferente do que impulsionou a paralisação da FDA no ano passado.

Dois aspectos da notícia merecem discussão aqui.

Primeiro, a demonstrada falibilidade da experimentação animal. A segunda experiência ter diferido da primeira em resultados nos mostra, sem que seja uma denúncia feita por defensoræs dos direitos animais, que a tão propalada “segurança” da vivissecção é no mínimo imperfeita, no máximo um mito furado.

Segundo, a questão da ética antropocêntrica que ronda a questão da produção e experimentação das células-tronco embrionárias. Fazem-se sermões dizendo que “vidas humanas serão sacrificadas com o uso de células-tronco de embriões”, mesmo que não haja senciência na fase embrionária ou os embriões em questão não tenham surgido de gestações desejadas e planejadas, e relutou-se muito antes de a primeira experimentação dessas células em seres humanos ser autorizada. À vida humana é reservado o máximo de respeito e direitos. Mas e os animais não-humanos, as cobaias?

Esses, por sua vez, são completamente ignorados pela mesma gente que advoga em favor dos direitos da vida humana – tanto a militância antiaborto quanto quem relutou para liberar a primeira experiência humana. Os animais não são nada, apenas corpos autômatos, para essas pessoas. Sentem dor e sofrem, muit@s cientistas até reconhecem. Mas e daí? – pensam elæs. São “apenas animais”. Seres inferiores. Entidades que nasceram para nos servir, servir a nós seres superiores.

Seres inferiores não merecem direitos – pensam essas duas turmas. A vida humana deve ser preservada e zelada, mas a vida não-humana não merece nenhuma consideração. Animais vivos, adultos, podem ser livremente torturados, porque não valem o mesmo que um blatocisto humano desprovido de qualquer senciência. Ou melhor, não valem relativamente nada, fora seu “valor” de coisa útil para as pesquisas científicas.

Daí a vida animal pode ser um alvo livre das mais dolorosas e cruéis experiências. Tanto que os camundongos da primeira pesquisa citada na notícia acima sofreram cistos espinhais. Não foram curados, morreram com os cistos, provavelmente em sofrimento, provavelmente paraplégicos ou tetraplégicos. Animais não-humanos tiveram que sofrer antes de a experiência poder ser considerada segura para human@s.

É essa a motivação ética de quem milita contra as pesquisas com células-tronco embrionárias e de quem prezava pela vida humana quando tardou para liberar a experimentação humana das mesmas?

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Roque Citadini

julho 31 2010 Responder

O avanço neste campo não é feito sem dor . Dor de homens e animais. Mas o importante é deixar a pesquisa livre para avançar. Todos os progressos que tivemos nos últimos séculos sempre enfretou este debate. O pior é proibir tudo, paralizar tudo, esconder tudo.

    Robson Fernando

    julho 31 2010 Responder

    A questão, Roque, não é proibir e paralisar, até porque isso seria um absurdo, mas a comunidade científica adquirir interesse pra mudar seus métodos de pesquisa progressivamente.

    Se hoje estamos reféns, em nossa saúde, da vivissecção, isso se deve ao desinteresse que existe em técnicas alternativas e à falta de educação ética decente, não antropocêntrica, nas universidades.

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