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jul10

Exemplos de androcentrismo e machismo na sociedade brasileira

Abaixo mais um texto sobre como o androcentrismo se entranhou nos aspectos mais banais da vida social no Brasil, incluindo a linguagem. Do site da Rede Mulher, eu trouxe o texto de Vera Vieira sobre como a discriminação contra mulheres se arraigou na representações sociais imagéticas e linguísticas no país sobre o sexo feminino.

 

A discriminação à mulher está presa à tirania das palavras e imagens
por Vera Vieira (*)

Quando se diz “A salvação do planeta está nas mãos dos homens”, ao invés de ” A salvação do planeta está nas mãos da humanidade”, reflete-se a posição que o homem vem ocupando na história, reforçando-se seu papel hierárquico e as relações de poder e dominação masculina na sociedade.

Ao longo dos tempos, tem ficado bastante evidenciado o papel da linguagem sexista no reforço dos estereótipos machistas que contribuem sobremaneira para o desequilíbrio das relações sociais entre homens e mulheres, caracterizadas pelo binômio dominação/subordinação. Ao nascermos, nosso sexo é definido pela natureza. Já o comportamento diferenciado tem a influência direta da formação e educação que recebemos no meio social, historicamente marcadas pela subordinação da mulher ao homem. Trata-se de um fenômeno cultural que se arrasta ao longo de milênios e que deve ser mudado.

As pessoas são educadas e formadas tanto pelas escolas, como pela família, Igreja, meios de comunicação de massa, leis do Estado, etc., que são responsáveis pela clara definição dos papéis desiguais da mulher e do homem, com conseqüências dramáticas na sociedade. Bastam somente alguns dados para essa comprovação: alto índice de violência doméstica sofrida pela mulher (com um número assustador de mortes), independente de raça, cor, etnia, classe social ou escolaridade; a média salarial baixa, mesmo com maior formação; pouca ocupação de cargos de liderança e número elevado de mulheres chefes de família, entre outros.

É fundamental estarmos conscientes da relação da linguagem com o conhecimento e a cultura. É somente depois da fase da aquisição da linguagem que a pessoa atinge o campo da abstração. O pensamento conceitual é inconcebível sem a linguagem, em conseqüência do processo complexo da educação social. O ser humano não só aprende a falar, mas a pensar. Enquanto ponto de partida social do pensamento individual, a linguagem é a mediadora entre o que é social, dado – portanto, ditatorial -, e o que é individual, criador, no pensamento de cada pessoa. A linguagem não só constitui o ponto de partida social e a base do pensamento individual, mas influencia também o nível de abstração e de generalização desse pensamento. Ela influencia o nosso modo de percepção da realidade. A experiência individual implica em esquemas e estereótipos de origem social. O estereótipo vem à tona na relação emocional do ser humano com o mundo. Por ser um processo não consciente, exerce sua ação com força tanto maior quanto mais se identifica em um todo unitário como conceito dentro da consciência humana. Este é o segredo da famosa ‘tirania das palavras’.

A linguagem enquanto discurso não constitui um universo de signos que serve apenas como instrumento de comunicação ou suporte de pensamento. É interação e um modo de produção social. Não é neutra, nem inocente, na medida em que está engajada numa intencionalidade, e nem natural, por isso o lugar privilegiado de manifestação da ideologia.

 

Mitos da identidade masculina e feminina

O consenso social e histórico na construção da imagem e mitos da identidade masculina e feminina, desde os primórdios, é fator preponderante na continuidade do ‘poder do macho’. Não obstante as pressões para se alterar suas estruturas, seu enraizamento é extremamente profundo, exigindo uma incidência maior de ações educativas.

Mas, qual seria exatamente a diferenciação entre os termos mito, símbolo, arquétipo, esquema? Gilbert Durand, ao explicar a palavra mito, consegue incorporar e diferenciar as demais. De forma sintética, mito pode ser definido como um sistema formado por esquemas, arquétipos e símbolos, compondo-se em narrativa:

“(…) No prolongamento dos esquemas, arquétipos e simples símbolos podemos considerar o mito. Não tomaremos este termo na concepção restrita que lhe dão os etnólogos, que fazem dele apenas o reverso representativo de um ato ritual. Entenderemos por mito um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos e esquemas, sistema dinâmico que, sob o impulso de um esquema tende a compor-se em narrativa. O mito é já um esboço de racionalização, dado que utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em idéias. O mito explica um esquema ou um grupo de esquemas. Do mesmo modo que o arquétipo promovia a idéia e que o símbolo engendrava o nome, podemos dizer que o mito promove a doutrina religiosa, o sistema filosófico ou, como bem viu Bréhier, a narrativa histórica e lendária. É o que ensina de maneira brilhante a obra de Platão, na qual o pensamento racional parece constantemente emergir de um sonho mítico e algumas vezes ter saudades dele. Verificaremos, de resto, que a organização dinâmica do mito correspondente muitas vezes à organização estática a que chamamos de ‘constelação de imagens’. O método de convergência evidencia o mesmo isomorfismo na constelação e no mito.”[1]

 

Paulo Freire reconhece a própria linguagem machista

Ao publicar, em 1992, A pedagogia da esperança – um reencontro com a Pedagogia do oprimido, Paulo Freire faz, com muita humildade, uma análise do volume imenso de cartas que recebeu, em Genebra, com críticas de mulheres norte-americanas, depois do lançamento do livro, em sua primeira edição no início de 1971. Eram tempos de exílio, em função do longo regime militar brasileiro, e a primeira edição foi publicada em inglês.

“(…) É que, diziam elas, com suas palavras, discutindo a opressão, a libertação, criticando, com justa indignação, as estruturas opressoras, eu usava, porém, uma linguagem machista, portanto discriminatória, em que não havia lugar para as mulheres. (…) Em certo momento de minhas tentativas, puramente ideológicas, de justificar a mim mesmo, a linguagem machista que usava, percebi a mentira ou a ocultação da verdade que havia na afirmação: ‘Quando falo homem, a mulher está incluída’. E por que os homens não se acham incluídos quando dizemos: ‘As mulheres estão decididas a mudar o mundo’? (…) A discriminação da mulher, expressada e feita pelo discurso machista e encarnada em práticas concretas é uma forma colonial de tratá-la, incompatível, portanto, com qualquer posição progressista, de mulher ou de homem, pouco importa. (…) A recusa à ideologia machista, que implica necessariamente a recriação da linguagem, faz parte do sonho possível em favor da mudança do mundo. (…) Não é puro idealismo, acrescente-se, não esperar que o mundo mude radicalmente para que se vá mudando a linguagem. Mudar a linguagem faz parte do processo de mudar o mundo. A relação entre linguagem-pensamento-mundo é uma relação dialética, processual, contraditória.”[2]

As conclusões a que chegou Paulo Freire remetem a Bakhtin, que se aprofundou na relação da linguagem e da cultura, considerada enquanto relação de causa e efeito, isto é bilateral: trata-se da influência da cultura sobre a linguagem, como da ação da linguagem sobre o desenvolvimento da cultura:

“(…) A consciência adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais. (…) As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios. (…) A fórmula estereotipada adapta-se, em qualquer lugar, ao canal de interação social que lhe é reservado, refletindo ideologicamente o tipo, a estrutura, os objetivos e a composição social do grupo.”[3]

Durante o desenvolvimento de um projeto da Rede Mulher de Educação, intitulado Gênero e Educação para os Meios, a etapa denominada ‘diagnóstico dos meios’ apresentou exercícios críticos por parte das participantes, apontando, com bastante regularidade, a presença de linguagem sexista, como os exemplos abaixo destacados:

As chamadas são feitas sempre no masculino, mesmo quando os programas suscitam ou têm a participação de ouvintes, e essas, em sua grande maioria, são mulheres. Isto é feito tanto por locutores masculinos, como pelas poucas locutoras femininas. (Programa ‘Pop de Chapa Cruz’ – FM-101,1 – Cuiabá/MT, monitorado por Madalena R. Santos).
As fotos de mulheres predominam na coluna social. As de mulheres negras, só aparecem no caderno policial. (Jornal ‘Vale dos Sinos’, de São Leopoldo/RS, monitorado por Clair Ribeiro Ziebell)
São comuns as imagens de mulheres donas-de-casa ou infratoras. (Jornal Nacional, da TV Globo, monitorado por Denise Gomide)
É um escândalo! Tem muita gente que se espelha nas novelas… Nunca aparece a família das empregadas domésticas. As mulheres casadas estão sempre cozinhando e lavando; os homens, solicitando comida e cerveja. (Telenovela ‘Laços de Família”, da Rede Globo, monitorada por Sandra Monteiro, de São Miguel do Tocantins)
O filho é sempre da mulher; o homem não precisa ter responsabilidade – ou ele é condenado pelo auditório, ou é aplaudido por causa da ‘lei de Gérson’, no sentido de levar vantagem em tudo. (Programa do Ratinho, da SBT, monitorado por Thereza Ferraz, de Santos/SP)

A linguagem – escrita e imagética -, carregada de estereótipos, há tempos vem merecendo ênfase nas ações do movimento feminista, como bandeira fundamental para o avanço da luta, tanto que, a partir de 1991, a REPEM (Rede de Educação Popular entre Mulheres da América Latina e Caribe) passou a designar o dia 21 de junho, com uma série de atividades, como a data “Por uma educação sem discriminação”.

Vamos romper com a linguagem sexista, em busca de um mundo com igualdade entre mulheres e homens! Quando se quebra com a linguagem, quebra-se também com padrões comportamentais.

(*) Vera Vieira, coordenadora-Executiva da Rede Mulher,é jornalista, com especialização em Gestão de Processos Comunicacionais e mestra em Comunicação /Educação pela USP/ECA.

[1] DURAND, Gilbert. As estruturas antropológicas do imaginário. Tradução: Hélder Coutinho. SP. Martins Fontes. 2ª ed. 2001. P.18

[2] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Esperança – um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. RJ. Paz e Terra. 7ªed. 2000. p.66-67-68

[3] BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. Tradução: Michel Lahud e Yara Frateschi Oliveira. SP. Editora Hucitec. 1999. p.35/41/126

imagrs

9 Comentários

Camila

maio 27 2013 Responder

E pensar q em um país tão liberal como o Brasil ainda existi esse tipo d coisa. Apesar q acho q quando inventaram as palavra, nós mulheres não tinhamos liberdade d expressão

    maria

    julho 21 2013 Responder

    hum,o que você classifica como “liberal”? Nossa exposição como objetos sexuais? O que tenho visto ser classificado como “liberal” é justamente esta aceitação da nossa exploração sexual que nos é imposta como “direito feminino”.Não vejo na de liberal num país onde nosso valor é estimado em termos de corpo,beleza e juventude.Nós brasileiras temos que ser mais críticas em relação á esta idéia de “feminilidade”

jurema Flor

abril 29 2011 Responder

de uma cultura machista , tem origem a lingua portuguesa…

Pedro

fevereiro 7 2011 Responder

Em mais um blog venho corrigir a falta de conhecimento em relação à linguística. As pessoas querem mudar a linguagem, tentando se apropriar de uma coisa que é um bem comum. A autora do artigo não é linguista, não fez faculdade de linguística. Paulo Freire não é linguista, não fez faculdade de linguística.

Responderei resumidamente com ciência à pergunta de Paulo Freire, “E por que os homens não se acham incluídos quando dizemos: ‘As mulheres estão decididas a mudar o mundo’?”

Simples. O gênero masculino é a forma não-marcada e o gênero feminino é a forma marcada. Ou seja, na língua portuguesa, fundamentalmente, a forma básica e não marcada é também o gênero masculino, e.g. “o professor-”, e o gênero feminino tem de ser marcado, e.g. “a professor-A”. Isso pode passar despercebido pela maioria das pessoas, mas, na maioria da línguas, a forma não marcada tem a propriedade de representar ambos gêneros em declarações gerais. Há a necessidade de UMA palavra SÓ para grupos mistos. Poderíamos falar “os professores e as professoras”, com “o professor” tendo somente a propriedade de representar as pessoas do sexo masculino e “a professora” tendo somente a propriedade de representar as pessoas do sexo feminino. Mas isso seria uma tremenda contramão em relação ao ritmo natural e fluido da linguagem. Poderia haver um terceiro gênero, para grupos mistos, mas NINGUÉM controla PESSOALMENTE a linguagem coletiva. E penso eu que esse sistema não teria muita estabilidade e desapareceria em não muito tempo.

Além disso, um dado referente ao caso particular de homem/mulher/ser humano: “homo”, que evoluiu para “homem” no português, significava apenas “ser humano” no latim. Uma palavra neutra. “Ser humano do sexo masculino” era “vir” e “ser humano do sexo feminino” era “mulier”. Com os efeitos da analogia, e nesse caso particular, da simplificação (as línguas nem sempre se simplificam), “vir” desapareceu e “homo” ocupou sua vaga. Desde então “homem” tem dois significados: “ser humano” e “ser humano do sexo masculino”.

A língua portuguesa pode ter sim sexismo e machismo, mas os casos apresentados no artigo com certeza não são machismo.

    Robson Fernando

    fevereiro 7 2011 Responder

    Há perguntas a serem feitas em relação a isso:

    1. Por que uma mesma palavra foi mudada de modo a designar ao mesmo tempo a espécie inteira e um dos seus gêneros (justamente o socialmente dominante)? Por que não abolir esse privilégio de um dos gêneros?
    2. Por que o masculino é o gênero que o português escolhe como representante de “neutralidade”?

    Sobre soluções ao masculino pseudoneutro, na lusofonia já começaram a aparecer sugestões, como o uso de arrobas (de tamanho equivalente ao minúsculo) e ligaduras æ [fonte: http://numpol.com/#chapter=2;lang=br ]. Mas até o momento são apenas sugestões que precisam de discussões aprofundadas.
    É algo em que as feministas precisam investir esforços primeiro antes de começar a suscitar discussões e mais esforços de mudar.

    E o que sugiro não é a apropriação da língua, mas apresentação de sugestões. De modo que a sociedade tenha modelos a se inspirar pra se influenciar, sem estabelecimento de obrigações por ora, no rumo a uma linguagem inclusiva.

      Pedro

      fevereiro 8 2011 Responder

      Sugestão em relação à questão do uso do gênero masculino em declarações gerais/de grupo misto: deixar como está. Não há necessidade de mudança nessa questão. Não é qualquer tipo de sexismo, machismo, femismo etc.

      Agora, há realmente sexismo na linguagem. Por exemplo, no uso comum, homem público=político/mulher pública=prostituta. Esse caso é realmente sexismo.

        Robson Fernando

        fevereiro 8 2011 Responder

        Necessidade há, mas reconheço que é algo que só vai acontecer quando a sociedade começar a tornar mais igualitárias as condições de mulheres e homens.

        A sociedade atual é, digamos, imatura demais em termos de discriminações de gênero pra adotar uma linguagem inclusiva. A linguagem que privilegia homens acaba sendo muito “compatível” com a sociedade que a usa.

          Pedro

          fevereiro 8 2011

          A questão é que mesmo em uma sociedade de condições totalmente igualitárias entre homens e mulheres, não haverá necessidade de mudar o sistema de privilegiar o gênero masculino em declarações genéricas! É pura convenção. Poderíamos até inverter o sistema: falaríamos “a professor/o professoro”, “a artista/o artisto” etc. Simplesmente porque o gênero das palavras não tem nada a ver com seu conteúdo. É arbitrário. Por que falamos “o lápis” e “a caneta”, e não “a lápis” e “o caneto”?

          Estou querendo dizer que em uma língua que tenha a divisão em duas categorias de palavras flexivas, nomes (substantivos, adjetivos, artigos, numerais etc) , divisão essa chamada convecionalmente de “gênero”, é forçoso que um gênero prepondere sobre o outro em declarações gerais/genéricas/mistas. Podia ser o feminino, o que mudaria? Não há sexismo nesse quesito.

          Vou tentar explicar de outro jeito: são formas da mesma palavra. Aqui um desenho colorido pra entender: http://img151.imageshack.us/i/flexaogat.jpg/

          Robson Fernando

          fevereiro 8 2011

          A pergunta nem é tanto por que o português tem pouca neutralidade ou por que chamamos “o gato” ou “a galinha”, mas por que o masculino, não o feminino, foi convencionado, desde o alicerce latino da semelhança que você citou (-um, -us, -a), como o gênero que tapa o buraco da neutralidade.

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