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jul10

FAQ da campanha pró-vivissecção X coerência e direitos animais (Parte 3)

Gaiolas de camundongos transgênicos, segundo o site de origem (natalneuro.org.br)

Esta parte é a continuidade do artigo que visa comentar o FAQ do site “eticanapesquisa.org.br”, parte da campanha de “conscientização”, promovida pelo Governo Federal e por organizações científicas brasileiras, relativa ao uso de animais em pesquisas.

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7. De onde vêm os animais utilizados em experimentos?
Todos são produzidos
[sic] e criados em biotérios (ambiente de criação de animais destinados exclusivamente para pesquisa). Os pesquisadores podem comprar [sic] os animais, desde que tenham projetos aceitos por Comissões de Ética, criados nesses biotérios licenciados ou criá-los em biotérios próprios.

Se considerar que os interessados pela vivissecção estão praticamente em pé de guerra contra a defesa dos direitos animais, na “batalha” de argumentos eles perdem feio. Nesta questão eles deixam claro que tratam os animais como coisas, como objetos industrializados que podem ser produzidos numa fábrica (biotério), tal como um microscópio ou um computador, e vendidos como mercadorias para o primeiro cientista disposto a explorá-los de forma violenta numa experiência.

Trata-se, nessa atitude, de alhear os animais não-humanos de sua dignidade como seres sencientes,  dotados do interesse de viver bem e livres, nascidos como fins em si mesmos – em vez de como meios para fins de outrem. E transformá-los em objetos passíveis de ser fabricados, comercializados e usados, tal como qualquer produto industrializado cuja existência é condicionada a interesses humanos.

Isso ser feito com pessoas – transformar em produtos industrializados comerciáveis e usáveis por exploração violenta – seria considerado a pior e mais diabólica das agressões aos direitos humanos, mas, como quem é coisificado e explorado são “apenas animais”, isso é livre, é permitido pela lei, é incentivado pelos governos, tal como a campanha de “conscientização” deixa escancarado.

Está visível a violência moral promovida, mesmo sem perceber, por quem deseja a perpetuação da experimentação animal.

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8. Quais são os animais mais usados em experimentação animal?
De acordo com o Departamento de Agricultura norte-americano, 90% dos animais usados são roedores, em sua maioria ratos e camundongos. De acordo com o mesmo Departamento, entre 1968 e 1986 o número de animais utilizados diminui em 40% em razão dos métodos alternativos e do refinamento dos experimentos com animais.
Esses animais são utilizados para desenvolver drogas usadas no tratamento de doenças como hipertensão, diabetes, vários tipos de câncer, bem como lesões na medula espinhal, entre outros. Camundongos, em sua maioria, agora estão sendo utilizados para determinar a função de genes, o que é importante para entendimento de doenças genéticas, por exemplo.
Outros mamíferos, como cães, gatos e primatas (macacos, por exemplo) contabilizam, em todo o mundo, menos de 1% de todos os animais utilizados em pesquisas.

Nessa parte é explorado de forma quase subliminar o apelo à compaixão da sociedade por determinadas espécies. Fala-se que cães, gatos, primatas e outros mamíferos são menos de 1% dos animais explorados em pesquisas, logo a ciência vivisseccionista respeitaria os animais que as pessoas mais estimam.

Se foi para contra-atacar os defensores dos direitos animais, erraram novamente, uma vez que esqueceram que estes defendem, além do fim da exploração animal pela ciência, também o fim do “respeito” seletivo a determinadas espécies animais em detrimento de outras – por exemplo, amar cães e gatos mas ignorar o sofrimento de camundongos, bois/vacas, porcos e peixes causado por humanos –, o chamado especismo seletivo, que é a discriminação de espécies animais por parte do ser humano pela atribuição de patamares morais desiguais de acordo com a espécie.

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9. Os animais são bons modelos para os humanos ou há particularidades que fazem com que outras espécies não possam fornecer informações confiáveis sobre o organismo humano?
Os cientistas afirmam que há mais semelhanças que diferenças entre as espécies animais. Na verdade, todos os mamíferos têm os mesmos órgãos (coração, pulmões, rins, fígado etc). Esses órgãos executam as mesmas funções e são coordenados da mesma maneira tanto nos humanos quanto em outros animais. Estas semelhanças superam outras diferenças que são menores. Porém, até mesmo as pequenas diferenças podem fornecer informações úteis.
Um camundongo possui até 90% da sua informação genética similar a dos seres humanos. Diferentes espécies animais compartilham não só códigos genéticos semelhantes, mas esses genes são estruturados de formas similares nos cromossomos, o que é um ponto importante para as pesquisas básicas com animais, pois falam a favor da semelhança com o funcionamento da fisiologia do ser humano. Na maioria dos casos, os animais desenvolvem e transmitem uma série de doenças encontradas em humanos, como câncer, asma, diabetes, doenças coronárias, hepatite, rubéola, tuberculose, malária entre outras. Essas doenças, além de se desenvolverem de forma semelhante entre os animais humanos ou não, podem ser estudadas e tratadas de forma semelhante. Isso facilita o desenvolvimento de novos medicamentos e procedimentos que possam curar doenças.

Como resposta, trago como citação um trecho do resumo feito pela defensora animal Gabriela Toledo, da ONG Projeto Esperança Animal, sobre experimentação com cobaias:

Um dos grandes erros da vivissecção é usar o animal como modelo humano. A experimentação animal parte do conceito errôneo de que espécies diferentes reagem de maneira idêntica ou similar a determinadas drogas e/ou substâncias. Apesar das diferenças gritantes entre cada indivíduo – respostas aos estímulos; os hábitos; o organismo; sexos; raças; formas de locomoção; raciocínio; estrutura celular, esquelética e muscular; as doenças e as reações fisiológicas, as respostas aos medicamentos são totalmente diferentes entre as espécies. – na vivissecção as diferenças são praticamente ignoradas.
As diferenças existem até mesmo entre espécies próximas, como é o caso do rato e do camundongo. Um exemplo bem ilustrativo foi um estudo de 1989 para determinar a carcinogenicidade de fluorido: Aproximadamente 520 ratos e 520 camundongos receberam doses diárias do mineral fluorido por 2 anos. Nenhum dos camundongos foi afetado pelo fluorido, mas os ratos apresentaram problemas de saúde incluindo câncer na boca e nos olhos. Resumindo, experiências iguais realizadas simultaneamente nas duas espécies garantiram resultados totalmente diferentes.
Muitas enfermidades que afetam seres humanos não afetam animais, por exemplo, os principais tipos de câncer que afetam humanos são muito diferentes daqueles que acometem os ratos. O tipo de tuberculose que afeta as pessoas é muito diferente do que é produzido artificialmente em animais.
É comprovado que estudos envolvendo animais gera atraso na evolução científica, além de ser um grande desperdício de dinheiro e de vida animal.
A vivissecção, em geral, conduz o pesquisador ao erro, uma vez que os resultados obtidos em experimentos com animais são totalmente diferentes dos resultados obtidos em humanos.
[…]
Lembrando que, geralmente, as “cobaias” são geneticamente modificadas a fim de tentar conseguir um quadro semelhante ao organismo humano. Doenças são artificialmente induzidas o que, por si só, já compromete os resultados das pesquisas.

A resposta dos elaboradores do FAQ também acaba confessando que a pesquisa com cobaias causa sofrimento nos animais, pois os infecta com as doenças mais variadas e dolorosas, e que esse é um fundamento seu – consideram necessário reproduzir as doenças nos animais não-humanos (as quais, fique claro, segundo os próprios vivisseccionistas, se desenvolvem de forma semelhante entre os animais humanos e não-humanos), para que a cura às mesmas sejam testadas de modo a dar certo nos seres humanos.

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Continue lendo a próxima parte deste artigo, para perceber como são frágeis os argumentos de quem é interessado na perpetuação do uso de animais em pesquisas.

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