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jul10

FAQ da campanha pró-vivissecção X coerência e direitos animais (Parte 4 e final)

Mensagem na porta de um laboratório no CCS/UFPE. Foto tirada por mim em 2009.

Esta parte é o final do artigo que visa comentar o FAQ do site “eticanapesquisa.org.br”, parte da campanha de “conscientização”, promovida pelo Governo Federal e por organizações científicas brasileiras, relativa ao uso de animais em pesquisas.

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10. Que doenças evoluíram seu tratamento, em razão das pesquisas?
São várias, podemos citar duas: o câncer e a fibrose cística. No caso do câncer, por exemplo, pode ser realizado atualmente a terapia gênica, onde são retiradas células do tumor, inserido um gene que reage contra o câncer e reinjetado as células no paciente. Desse modo, as células geneticamente modificadas irão “ensinar” ao sistema imunológico do paciente a reconhecer as peculiaridades de suas células cancerígenas e destruir o tumor. Atualmente, esse tipo de pesquisa vem alcançado avanços significativos em ratos e camundongos e, certamente, poderão salvar várias vidas, inclusive as dos seres humanos.
No tratamento da fibrose cística, foi desenvolvido um modelo animal que reproduz a doença humana. Essa tecnologia permitiu que novos testes fossem realizados no combate a essa terrível doença genética, que acomete principalmente o pulmão de crianças em todo o mundo. Contra essa doença, está sendo realizada também a “terapia gênica”, onde as pesquisas com animais são extremamente relevantes.
Devemos lembrar também dos coqueteis anti-aids, um conjunto de medicamentos que já salvou e ajuda a prolongar a vida de milhões de pessoas em todo o mundo.

Nessa resposta, revela-se que a experimentação animal, cujos autores dizem prezar pela “responsabilidade, ética e respeito aos animais”, causou sofrimento crônico em animais que foram submetidos ao mais diversos tipos de câncer e à fibrose cística, descrito pelos próprios autores do FAQ como uma “terrível doença genética”.

Se a fibrose cística é terrível como dizem esses cientistas, imaginemos como seria estar na pele dos animais que foram induzidos a nascer com essa doença e passaram toda a sua vida sofrendo com ela. Essa questão 10 mostra como falta o mínimo de senso de alteridade e empatia interespecíficas nas pessoas que exploram animais em suas experiências e defendem a continuidade desse tipo de método de pesquisa. É uma demonstração de que esses indivíduos são incapazes de se pôr imaginariamente na pele dos animais que exploram.

É isso que os idealizadores da campanha de “conscientização” vivisseccionista querem? Que “terríveis doenças” continuem sendo induzidas em animais não-humanos para que seres humanos sejam salvos – e não possam optar por viver sem depender de remédios resultantes desse tipo de violência?

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11. Como a pesquisa com animais ajuda os próprios animais?
As pesquisas com vacinas também beneficiaram a saúde dos animais ao aprimorarem tratamentos como os da raiva, do tétano, da leucemia animal e daquelas contra parasitas. Além disso, os estudos comportamentais melhoram a qualidade no trato com os próprios animais. Vale lembrar que alguns animais foram salvos da extinção, graças a várias pesquisas científicas realizadas, muitas delas, utilizando embriões de camundongos.

Essa resposta é uma demonstração clara do especismo seletivo dos cientistas interessados na vivissecção. Torturam-se uns animais não-humanos, alheios de qualquer compaixão, para salvar outros, que por sua vez recebem muito carinho e afeto por parte de seus tutores.

É muito provável que as cobaias que contraíram hidrofobia, tétano, leucemia e infecções por parasitas sofreram muito antes de receber os medicamentos certos para serem curados – detalhe: mesmo depois de curados, podem ter sido mortos mesmo assim para avaliação, tal como a questão nº2 deixa evidente que acontece de praxe. E também é certo que as muitas experiências anteriores com tratamentos fracassados dessas doenças, baseadas na tentativa-e-erro, impuseram sofrimento intenso e mortes dolorosas aos  bichos explorados. Sem falar nos estudos comportamentais que “melhoram a qualidade no trato com os próprios animais”: é possível imaginarmos pesquisas que induzem os animais a sentimentos e comportamentos negativos e destrutivos, como tristeza, estresse, raiva e agressividade.

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12. Como a pesquisa com animais ajuda os humanos e outros animais?
As pesquisas possibilitaram o desenvolvimento de vários tratamentos e procedimentos de prevenção, tais como vacinas contra gripe H1N1, poliomielite, a caxumba, o sarampo, a difteria, a rubéola e a hepatite; além de tratamentos onde destacamos as transfusões de sangue, hemodiálise, transplantes e cirurgias. Graças às pesquisas do brasileiro Sergio Ferreira, foi descoberto um dos mais utilizados e potentes anti-hipertensivos: o Captopril. Além disso, a morfina utilizada na dramática dor de pacientes com câncer terminal também foi testada em animais.
Várias das pesquisas com animais foram importantes no desenvolvimento de medicamentos para tratamento das mais diversas doenças, tais como hipertensão, diabetes, aids. Até mesmo os anestésicos, analgésicos e antibióticos precisaram do estudo em animais para que pudessem ser desenvolvidos e beneficiar a vida de todos os animais, inclusive seres humanos. Não podemos esquecer que o aprimoramento de cirurgias e dos transplantes de órgãos e dos estudos com células-tronco que salvam milhares de vidas todos os anos são procedimentos que hoje são seguros graças aos estudos realizados previamente em animais.
Tudo isso certamente melhorou a qualidade de vida não só dos seres humanos, mas de diversos animais.

Minhas objeções às questões 10 e 11 já comentam em grande parte esta questão. Mas alguns trechos desta  chamam uma atenção especial:

Primeiro: “[…] a morfina utilizada na dramática [sic] dor de pacientes com câncer terminal também foi testada em animais.” Deduz-se: animais não-humanos tiveram que sofrer dores igualmente dramáticas em estado de câncer terminal.

Segundo: “Até mesmo os anestésicos, analgésicos e antibióticos precisaram do estudo em animais para que pudessem ser desenvolvidos e beneficiar a vida de todos os animais, inclusive seres humanos.” Ou seja, animais tiveram que sentir muita dor para que pudessem ser beneficiados por anestésicos e analgésicos. Sem falar nos antibióticos, que foram injetados nos bichos ou ingeridos por eles apenas depois que determinadas doenças infecciosas, devidamente propagadas no organismo das cobaias, lhes causaram estragos relevantes e consequente sofrimento.

Repito: é essa ciência recheada de crueldade que os idealizadores da campanha querem que continue existindo permanentemente, e que nós apoiemos?

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13. Por que são utilizados animais em pesquisas científicas?
Os cientistas utilizam animais nas pesquisas científicas com o objetivo de entender melhor os problemas de saúde que afetam os animais, inclusive os seres humanos. Além disso, as pesquisas utilizando animais permitem que novos tratamentos médicos sejam mais seguros. Algumas doenças envolvem processos bastante complexos e, devido a essa complexidade, precisam ser estudados em organismo vivo.
Os animais, principalmente os mamíferos tais como ratos, camundongos e coelhos são biologicamente semelhantes aos seres humanos em vários aspectos biológicos. Eles são suscetíveis a muitas das mesmas doenças que acometem o homem
[sic]. O fato de terem ciclos de vida curtos, comparados ao do homem [sic], facilita o estudo dos fenômenos fisiológicos do nascimento ao envelhecimento e até mesmo durante várias gerações.
Além disso, durante um estudo científico é possível controlar o ambiente que influencia o animal (alimentação, temperatura, iluminação etc), o que é difícil de ser realizado com seres humanos.?Por esse motivo, os animais são fundamentais em pesquisas para desenvolver medicamentos, vacinas e procedimentos médicos (tais como cirurgias, transplantes etc). Se os resultados dos estudos em animais se mostram eficazes, então alguns poucos voluntários humanos são convidados a participar de um ensaio clínico inicial para tratar da segurança do procedimento (chamada fase I de teste).
Os estudos em animais são feitos previamente para assegurar o benefício do tratamento de uma doença ou procedimento e verificar se essa nova tecnologia não leva risco à vida. Com isso, os testes que causariam riscos aos seres humanos e a outros animais são amenizados. Vale lembrar que para se desenvolver a vacina anti-rábica, por exemplo, foram utilizados de quatro a seis mil cães, mas depois foram salvos mais de trinta milhões.

O primeiro parágrafo dessa resposta é dotado de uma enorme hipocrisia. Seus elaboradores fingem que não são especistas, que não priorizam a espécie humana, que pensam com a mesma dedicação em outras espécies animais, mesmo naquelas que, não sendo de estimação, não recebem o afeto de tutores (“…que afetam os animais, inclusive os seres humanos.”).

Parece que pensam no melhor para os camundongos tanto quanto pensam no bem dos humanos, mas uma pesquisa simples mostra que não é bem assim. Numa pesquisa no Scielo, site que disponibiliza muitos periódicos e artigos científicos, encontrei apenas 63 artigos com as palavras “camundongos” e “veterinária” (ou “veterinário”), menos de 10% entre 642 trabalhos que tiveram referências a “camundongos”  – e o pior, nem todas as pesquisas que continham a palavra “veterinária(o)” eram de fato pesquisas a serem aplicadas subsequentemente em pacientes animais domésticos. É evidente que a prioridade de se explorar animais na pesquisa científica são de fato os seres humanos.

O mesmo primeiro parágrafo, com seu apelo à “necessidade” de se usar animais nas pesquisas, nos remete à mesma argumentação usada na questão nº4: a incapacidade dos cientistas (dos favoráveis à vivissecção, deixo claro) de desenvolver métodos de pesquisa alternativos completos o bastante para dispensar as cobaias.

No segundo e terceiro parágrafos, dois argumentos se fazem presentes: as semelhanças biológicas das cobaias com o organismo humano, já comentadas abaixo da questão nº9, e aquela que parece ser a única justificativa dos interessados na vivissecção para não explorarem seres humanos: o ciclo de vida curto dos animais não-humanos de pequeno porte e a facilidade de lidar com o ambiente (artificial e prisional, que fique claro) onde os mesmos vivem.

Esse segundo é visto como o bastante para aplacar a indignação de quem quem perguntar “por que vocês não fazem pesquisa com seres humanos, já que dizem tratar outros animais tão bem?”. Essa pergunta pode até ter sido parcialmente aplacada tecnicamente, mas não o bastante. Ainda dá para questionar: por que os cientistas que dizem tratar as cobaias com “ética e e dignidade” não fazem nem mesmo pesquisas de curta ou média duração com seres humanos sem terem usado outros animais antes?

Sem falar que não responde eticamente à indagação de não se explorar cobaias humanas. Hoje seria perfeitamente possível criar em laboratório seres humanos transgênicos capazes de crescer em ritmo muito mais acelerado do que pessoas comuns e livres. Só não o fazem, é evidente, por motivos éticos, que hoje só dizem respeito aos direitos humanos e negam aos seres não-humanos a mesma dignidade de serem respeitados da mesma forma.

O parágrafo final volta a pecar pela fragilidade da argumentação. Primeiro diz que “Os estudos em animais são feitos previamente para assegurar o benefício do tratamento de uma doença ou procedimento e verificar se essa nova tecnologia não leva risco à vida. Com isso, os testes que causariam riscos aos seres humanos e a outros animais são amenizados.”, o que é uma confissão clara de que a vida das cobaias é posta em risco total, já que as técnicas são usadas nelas, mesmo sob totais insegurança e incerteza, antes de serem aplicadas em seres humanos ou animais de estimação. Confessa-se que não há a menor preocupação com a vida das cobaias que reagem mal ao tratamento sob teste.

Segundo, parte para o desprezo total aos animais enquanto indivíduos interessados em sua própria vida e  integridade quando diz que “vale lembrar que para se desenvolver a vacina anti-rábica, por exemplo, foram utilizados de quatro a seis mil cães, mas depois foram salvos mais de trinta milhões”. Ignora-se totalmente o fato de que o interesse de viver livre e não sofrer não é um fenômeno social, condicionado à coletividade de animais socializados entre sua população, mas sim a capacidade psicológica que cada animal, tomado individualmente, possui.

Vale parafrasear o biólogo Sérgio Greif: “não nos interessa que poucos precisaram ser sacrificados para o benefício de muitos, pois a utilização de cobaias involuntárias contraria direitos individuais.”

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O FAQ da campanha pró-vivissecção tem conteúdo bastante para enganar pessoas mais incautas e leigas em direitos animais e assim formar uma opinião pública alienada do conhecimento da verdadeira essência cruel da experimentação animal. Mas, como o argumento falacioso e frágil tem perna curta, assim como a mentira, uma campanha-antídoto de esclarecimento por parte dos defensores dos direitos animais poderá, sem muito trabalho argumentativo, desbancar tudo o que os interessados na perpetuação da vivissecção tentam passar para a população.

Ao leitor que ainda não conhece o bastante o que são os verdadeiros direitos animais, concluo o artigo dizendo: há muita acomodação na comunidade científica. A maioria dos cientistas da área biomédica, não tendo recebido uma educação bioética decente – não-antropocêntrica, que respeitasse os direitos animais e transcendesse o mero “bem-estar” – ao longo da vida, não está interessada em mudar o atual cenário de dependência crônica da ciência biomédica por cobaias.

Há também acusações sérias, por parte de vários defensores do fim da exploração animal, de que há um complô de interesses econômicos entre pesquisadores e empresas que abastecem laboratórios e biotérios com equipamentos para a pesquisa com cobaias. Mas é fato que essas denúncias só serão investigadas quando os direitos animais começarem a ser reconhecidos legalmente e respeitados pelos governos no Brasil – daqui a várias décadas, deduza-se, não sem um histórico precedente de forte mobilização por parte dos defensores dos animais.

Portanto, insisto que o brasileiro não se deixe enganar pela campanha conjunta do governo federal (Ministério da Ciência e Tecnologia) e de diversas organizações científicas para tentar convencer a população de que explorar e matar animais para fins científicos é “válido” e “aceitável”. Procure compreender os direitos animais, busque conhecimento sobre o assunto. Ao mesmo tempo em que vai saber por que a campanha dos órgãos citados não passa de uma tentativa de alienar a sociedade em prol da perpetuação da exploração animal na ciência, você irá melhorar muito sua própria relação com os animais.

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Cristiane

fevereiro 26 2014 Responder

Trabalho com pesquisa e sei que o trato com animal é uma necessidade e não uma opção. Espero que todos que joguem pedras na experimentação animal não tomem, nunca, sequer, um comprimido de AAS, pois praticamente todos os medicamentos, antes de serem aprovados, passam por fase com experimentação animal antes de testes em humanos. Concordo que abusos devem ser coibidos, mas querer execrar toda e qualquer experimentação animal é uma burrice sem fim, como foi feito nesse post no caso de animais que são usados para evoluir nossos conhecimentos com fibrose cística e câncer.

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