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Não desista do Brasil

Esta mensagem é para você que, vendo tantos problemas sociais e políticos no Brasil e sem saber se há solução para eles, afirma que gostaria muito de ir embora e morar num país menos problemático. Para você que afirma algo como “O Brasil não tem mais jeito. Não dá para viver direito aqui. Quero fugir pra um outro país e viver mais dignamente.”

Diante de um cenário de violência em alta, distribuição indecente de renda, corrupção, promessas eleitorais descumpridas, ensino público caindo aos pedaços etc., realmente é sedutora a imagem de morar no Canadá, ou na Inglaterra, ou na Austrália, ou na Alemanha… longe do caos sociopolítico que nos tem como cativos. Mas pergunto: será que isso realmente é o melhor a se fazer?

Penso que o que faria uma pessoa voltar atrás de sua vontade emigratória seria que o Brasil se tornasse uma nação livre de tantos problemas, ou pelo menos com esses defeitos em um grau muito menor. Creio que você esteja concordando comigo. Mas como você espera que isso aconteça, se um número insuficiente de pessoas se engaja em tentar consertar nosso país?

De fato vemos, de um lado, governos que não cumprem o papel de trabalhar pelo povo, de assegurar o cumprimento e respeito dos direitos sociais que temos. Governos ocupados por pessoas que buscam interesses próprios, não o bem comum, e para isso promovem atos de negligência social, corrupção e atendimento de lobbies escusos.

Do outro, há um povo dormindo em berço esplêndido, esquecendo o que nossa Constituição diz sobre a cidadania ser fundamento da República brasileira e todo o poder emanar do povo. Uma população que não tem como costume exigir justiça social dos governantes, ou protestar contra quem lhe faz mal, preferindo aceitar o estado de coisas enquanto ele não se torna absolutamente insuportável. Há exceções, gente que faz valer seu atributo de cidadãos, mas ainda assim é muito pouca para melhorar substancialmente o Brasil.

Pergunto a você: quem te inspira mais? Aqueles que manifestam o desejo de se mudar para o exterior e esquecer os problemas de seu país de origem, ou os que trabalham duro e fomentam diariamente a esperança, a qual de tempos em tempos aflora em você e em outras pessoas, pelas mudanças de que a nação precisa? Quem dá mais motivos de apreciação? Cabe a você refletir.

Ir embora para outra nação por desistência da terra natal pode ser reconfortante, o El Dorado para quem tem condições de emigrar e construir uma vida lá fora. Mas fará mal para as pessoas que são deixadas para trás. Quando tomamos tal atitude, estamos demonstrando que não nos importamos com as pessoas que convivem conosco no nosso bairro, cidade, estado e país. Estamos mostrando, mesmo que não pensemos explicitamente assim, que não damos a mínima para o nosso próximo. Terminamos dando a ideia de que queremos mais que o Brasil e quem vive nele afundem longe de nós, com todos os seus problemas ditos insolúveis.

É de se pensar: se cem mil brasileiros, em vez de se manterem conformados ou se autoexilarem por desalento social, começassem a exercer seus potenciais com espírito de cidadão, fariam toda a diferença, mesmo nacionalmente. Nossa sociedade já se tornaria bem mais politizada do que é hoje, teria muito mais poder para reivindicar justiça social e até melhorar a vida de conterrâneos pelo voluntariado. A que população você preferiria pertencer? À de quem desligou todas as possibilidades de agir pelo bem do seu país por se exilar, ou à dos cem mil que transformaram sua indignação concentrada em cidadania ativa?

É de se considerar também que, em vários momentos da História mundial, muitas pessoas preferiram não só manter o apego fiel ao seu país e sociedade como também forçar melhorias no lugar onde viviam. Em vez de dizer “Eu queria muito ir embora daqui porque aqui não tem mais jeito”, disseram “Aqui é cheio de problemas, mas nós vamos fazer com que os resolvam”. Preferiram consertar a barca a abandoná-la furada.

Esse foi o caso dos operários europeus que, a partir do século 19, passaram a lutar por direitos trabalhistas e conseguiram, para sua geração e as seguintes, um trabalho de condições e remuneração muito mais dignas; das feministas que, também desde o século 19, pressionaram os governos a lhes dar direitos que só os homens tinham, como o voto, o estudo, o trabalho remunerado e a participação política ativa; dos estudantes chilenos que, depois de intensivos protestos em 2006, obrigaram a então presidente Michelle Bachelet a promover melhorias na educação, prejudicada pela política desde a época do ditador Pinochet.

Foi o caso também dos jovens franceses, que, também em 2006, protestaram com força até provocarem o arquivamento de um opressivo programa de primeiro emprego; dos negros estadunidenses que, nas décadas de 1950 e 60, a partir da ação de pessoas como Rosa Parks e Martin Luther King Jr., derrubaram o estado de coisas racista então vigente em seu país e proporcionaram à sua raça mais dignidade social; dos iugoslavos que, em 2000, impediram que o ditador genocida Slobodan Milosevic fosse reeleito por fraude e forçaram sua renúncia; entre tantos outros casos de ativismo cidadão de pessoas que, em vez de fugir para encontrar uma vida melhor, construíram essa vida melhor em suas próprias pátrias.

É de se pensar também: esses países que os brasileiros vislumbram como um lar muito melhor do que o Brasil só se tornaram lugares dignos justamente porque seus cidadãos antepassados ou contemporâneos, em vez de pensar conformisticamente ou buscar autoexílio, lutaram pela dignidade, pelo direito de viver com decência. Não fossem essas lutas cidadãs, a tão desejada Europa ainda hoje estaria com sua população assalariada em situação de penúria e exploração; diversos países europeus e americanos ainda estariam sob jugo de ditaduras sangrentas; o Canadá e a Austrália seriam apenas colônias oprimidas da Grã-Bretanha, não países soberanos e livres – ainda que tendo mesmo hoje a rainha britânica como chefe de Estado.

Você então passa a querer perguntar a mim: “Como é que nós vamos resolver alguma coisa? Como vamos consertar esse país tão falho?”. O melhor a fazer é você começar a mudar o país iniciando o processo por VOCÊ MESMO. Desapegue-se aos poucos do costume de ver a programação fútil da televisão, que te induz à alienação e ao conformismo. Leia livros que te ensinem a compreender nossa realidade socioeconômica e política de uma forma diferente da que a TV nos induz a enxergar.

Em vez de sempre falar sobre as banalidades do dia-a-dia, sobre dinheiro, novelas, carros, música, celebridades etc., reserve um pouco de seu tempo para conversar com quem entende de política e sociedade. Procure também conhecer o trabalho de ONGs cidadãs, que atuam contra a violência, a corrupção, a miséria etc. e/ou a favor dos direitos humanos, do meio ambiente, dos animais, da educação, da democracia… Você poderá se interessar por alguma(s) e aderir a ela(s) como sócio ativo ou mensalista.

Dedique pelo menos um dia por quinzena para usar suas habilidades de trabalho para atividades de cidadania. Se você é webdesigner, crie voluntariamente um site para uma ONG ou um layout para um blog ciberativista. Se você é pintor, pinte cartazes de protesto contra algum mal que esteja prejudicando a sociedade, faça uma cotinha para imprimir cópias e distribua para as pessoas nos ônibus ou na rua. Se você trabalha escrevendo, escreva textos direcionados à conscientização das pessoas, os quais podem ser xerocados e distribuídos nas ruas, nas escolas e faculdades, no trabalho, na vizinhança… Se você tem alguma outra habilidade profissional, pense direitinho e procure saber como utilizá-la pelo bem comum.

Se você deseja um país melhor, precisa começar a mudá-lo de dentro para fora, a partir de você mesmo. Quanto mais pessoas assimilam a atitude de mudar o estado de coisas nesse sentido, maior é a população disposta a lutar pela cobrança de mudanças. Maior é a quantidade de gente suficientemente consciente para se habilitar a aderir a manifestações – não obrigatoriamente insurretas e violentas – em prol de forçar o poder público a se adequar a nossas necessidades e direitos.

Compreenda que dizer “eu quero ir embora porque aqui não tem mais jeito”, exceto em últimos casos, não é uma atitude bonita, não é algo digno de uma pessoa que se importa com o próximo e com a sociedade. Se você quer viver honradamente, realmente deseja que o país, região, estado, cidade ou localidade em que vive melhorem e não quer passar a vergonha de ser “expulso” sem resistir de um território por ele ser muito problemático (embora não esteja sofrendo com conflito armado ou catástrofe natural), você precisa fazer a melhoria acontecer.

imagrs

13 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Manuela Araújo

julho 18 2010 Responder

Olá Robson

Curioso que já agendei o post para amanhã, e dei o título ao mesmo “Não desista de Portugal”, antes de ver seu comentário :)

Mas isso é o título do post, pois não adaptei seu texto que fica lá inteiro, com o título correcto. Mas peço para os portugueses lerem “Portugal” onde diz “Brasil”.

Obrigada e uma boa semana

    Robson Fernando

    julho 18 2010 Responder

    Tudo bem. Abs

Manuela Araújo

julho 18 2010 Responder

Robson, seu texto está excelente.

E se trocar o nome “Brasil” por “Portugal”, tirando uma palavra ou outra, serve e adequa-se perfeitamente.

É deprimente ouvir tantos portugueses a dizer mal de Portugal. Por cá, as coisas estão más, mas é como você diz: a melhoria tem de partir de dentro para fora de cada um. Claro que precisamos que as políticas mudem, mas só mudam com a nossa participação activa

Posso “postar” seu texto (inteiro ou em parte) no meu blogue, com as devidas referências, claro?
É que acabo de entrar em férias, vou dar um giro e queria deixar uma linda mensagem para reflexão enquanto estou fora e longe do PC, mas o cansaço tirou-me a inspiração. E depois, este seu texto, vem mesmo a calhar como uma luva ao que eu tinha em mente.

PARABÉNS pelo excelente texto. Adorei as suas sugestões.

Um abraço de Portugal

    Robson Fernando

    julho 18 2010 Responder

    Obrigado mesmo, Manuela =)

    Vc pode sim postar. Aqui a reprodução é livre, desde que seja preservada a autoria.

    Se vc quiser, pode até fazer uma versão “Não desista de Portugal”, dizendo que é uma adaptação do “Não desista do Brasil”.

    Abs

Ivo S. G. Reis

julho 13 2010 Responder

Belo artigo, Robson. E muito verdadeiro. Você tem razão quanto ao conformismo do povo brasileiro que se revela cada vez mais alienado social e politicamente. Não adianta ficar descontente e reclamar entre os amigos ou nos locais de trabalho ou nos “chopinhos”. É preciso se informar melhor, se organizar e agir, exatamente o que o povo não faz.

Temos alguns raros exemplos demonstrando que, quando o povo se organiza e exige, as coisas acontecem. Mas, como disse, isto é raro e os politicos – os que têm o poder de aprovar as mudanças necessárias – sabem disso e se omitem, só agindo em nome dos interesses nacionais quando pressionados e cobrados. Está aí o exemplo do “Ficha Limpa”. Tudo bem que não saiu exatamente como o povo queria porque os políticos são mestres na arte de ludibriar. Mas já representou algum avanço, mesmo sabendo que a lei vai ser de pouca eficácia.

Ainda assim, o maior mérito do movimento foi o de provar que quando o povo se organiza e exige, as mudanças acontecem. Concordo com você. Fugir é uma atitude covarde, que pode até resolver os seus problemas, mas deixa os seus compatriotas mais enfraquecidos.

Agora mesmo estou numa luta lá no “Irreligosos”, tentando motivar e implementar um movimento para a criação de uma entidade representativa dos irreligiosos, agnósticos, céticos, secularistas e ateus. Iniciadas as discussões, detectamos que, apesar da discriminação contra a nossa comunidade, muitos se omitem e aceitam esse estado de coisas, ao invés de lutar e se organizar para defender os seus interesses. Assim é o brasileiro e, por isso, sofre as conseqüências. Aliás, gostaríamos de poder contar com a sua participação naquelas discussões, já com mais de 20 respostas. Sua opinião seria muito valiosa.

Mais uma vez, parabéns pelo seu site e interessantes matérias. Vá em frente, soldado!

Abraços!

    Robson Fernando

    julho 14 2010 Responder

    Obrigado, Ivo, e bem vindo de volta ao Arauto. (ou bem vindo se nunca conheceu o Arauto e estava acostumado com o Consciência Efervescente)

    Vou passar lá hoje, quando voltar do consultório. Abs

    Samory Pereira Santos

    julho 17 2010 Responder

    Ivo,

    Não tem a ATEA já não?

    Abs.

      Robson Fernando

      julho 17 2010 Responder

      Samory, até onde sei, a ATEA é reservada pra ateus e agnósticos. Ivo quer construir uma organização pra ateus, agnósticos, céticos em geral e humanistas seculares.

        Samory Pereira Santos

        julho 17 2010 Responder

        Ah, entendi.

        Darei meu apoio.

        Abs

          Robson Fernando

          julho 17 2010

          Valeu, Samory =)

Sami

julho 12 2010 Responder

Desculpa, mas eu parei de acreditar em Papai Noel.

Thiago Caribé

julho 12 2010 Responder

Muito Bom…. Quem é o autor do texto!?

    Robson Fernando

    julho 14 2010 Responder

    Fui eu que escrevi. O Arauto, além de conscientizar sobre direitos animais, meio ambiente, vegetarianismo e humanidades, também se preocupa em incitar o exercício da cidadania ativa, algo que está em falta no Brasil.

Sua opinião é bem vinda, desde que respeitosa. Fique à vontade para comentar abaixo