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jul10

Outro episódio recente de intolerância religiosa ateofóbica

O caso abaixo teve infinitamente menos repercussão do que o caso de Datena, mas vale escancará-lo aqui para mostrar aos leitoræs que não há uma “democracia multirreligiosa” de fato no Brasil, da mesma forma que não há uma “democracia racial”, e que agressões públicas vindas de pessoas religiosas são relativamente comuns e reforçam na sociedade o preconceito que faz ateus não serem pessoas tão bem-quistas quanto teístas de religiões não-cristãs no país.

O artigo abaixo, publicado no portal sul-matogrossense AgoraMS, é de um religioso, e em uma linha ele compara o ateísmo (e a liberalidade sexual, de quebra) a perversões como a criminalidade, o uso de drogas ilegais e o alcoolismo.

(Aviso: recomendo que leia todo o texto, por mais que se enoje perante o fanatismo e o preconceito presentes, e não mude de página depois que terminar de ler o artigo, pois há mais a falar e reproduzir – o direito de resposta concedido aos ateus.)

Nos batentes das portas
por Pr. Mario Antonio da Silva
(Aviso: grifos meus)

Uma marca de sangue. Essa foi a ordem de Deus para as famílias israelitas que se encontravam no Egito. O sangue de um cordeiro sacrificado por cada família deveria ser passado nas laterais e nos batentes das portas das casas. Seria, naquela noite, a primeira Páscoa dos Judeus – Êxodo 12:7.

O não cumprimento da ordem seria desastroso. Os primogênitos, tanto de homens como de animais, seriam mortos – Êxodo 12: 12 e 13.

E assim aconteceu. Nas casas onde não havia marca de sangue ouvia-se prantos – Êxodo 12:30. Já nas casas dos israelitas havia festa – Êxodo 12:14.

Seria tão bom se pudéssemos também fazer o mesmo hoje, apenas colocar um pouco de sangue de cabrito nos umbrais de nossas portas, para que nossos filhos não fossem atingidos por tantas pragas modernas que atingem as famílias brasileiras.

Podemos citar algumas: as drogas (o maldito do crack), o liberalismo sexual, a criminalidade, o alcoolismo e o ateísmo, etc.

Já que não podemos colocar um pouco de sangue nas portas, o que então os pais podem fazer para que seus filhos não sejam atingidos por estas outras pragas?

Queridos pais, é necessário muita oração. Os pais devem orar para que seus filhos tenham a sabedoria e a coragem para rejeitar as ofertas mundanas e evitarem tais pragas. Pais e mães devem dobrar seus joelhos pedindo a misericórdia de Deus para que seus filhos estejam livres desses anjos da morte (traficantes) que tentam-os, na escola, no trabalho, no lazer e nas ruas. Nossas crianças, adolescentes e jovens, mesmo que tenham sido criados em lar saudável, com tantas ofertas e oportunidades acabam transgredindo, por isso, “vigia e orai” pelos vossos filhos.

Por outro lado, já que não podemos repetir o gesto dos israelitas na primeira páscoa, devemos, como pais, manter sempre aberto o canal de comunicação com os filhos. Cultivando o dialogo com os mesmos sobre todos os temas, sem exceção. Como livrar nossos filhos das drogas e do liberalismo se em casa não há dialogo sobre estas questões?

Pais que desejam ver os seus filhos livres das pragas modernas não podem se omitir quanto a orientação dada na Bíblia. Essas orientações devem ser dadas enquanto os filhos estão sentados em volta da nossa mesa, andando conosco pelo caminho, ao se deitarem e ao se levantarem.

Por ultimo, filhos precisam de exemplo, filhos precisam de disciplina. Caso sejam criados sem disciplina, terão grandes possibilidades de se desviarem dos caminhos aprovados pela sociedade e por Deus. O fim deles certamente e muitas vezes de modo precoce será a sepultura, conforme afirma o sábio Salomão no Livro de Provérbios 23:13 e 14.

Não será tão fácil, como aqueles pais da primeira páscoa, mas com certeza teremos a ajuda do mesmo Deus que esteve ao lado daqueles familiares israelitas e teremos festa e regozijo em nossos lares e não choro. Amem!

Felizmente a justiça foi feita e a ATEA, ONG ateísta presidida por Daniel Sottomaior, conseguiu um direito de resposta, contra o artigo ateofóbico do pastor. Seu artigo esclarecedor foi postado oito dias depois no portal.

Antes de partir para o artigo de Sottomaior, concluo dizendo: temos o direito de partir para a Justiça quando formos ofendid@s por nossa descrença. A pessoa ofensora deverá ser punida, com uma multa ou outras penas mais severas, e teremos um direito de resposta caso a ofensa tenha sido feita em um meio de comunicação.

Em defesa do ateísmo
por Daniel Sottomaior, presidente da ATEA

No artigo “Nos batentes das portas”, publicado pelo AgoraMS em 27 abril, o pastor Mário Antônio da Silva fez uma pequena lista de “pragas modernas que atingem as famílias brasileiras”, em que incluiu “as drogas (o maldito do crack), o liberalismo sexual, a criminalidade, o alcoolismo e o ateísmo, etc.” Essa é uma agressão inadmissível e que não será tolerada.

Este artigo é uma resposta da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea) à ultrajante afirmação implícita de que o ateísmo é uma “praga” do mesmo calibre que a criminalidade. Por ter enumerado crimes e opiniões lado a lado, parece que o pastor não entende a diferença marcante que existe entre eles.

No mundo civilizado, crimes são ações que geram dano objetivo e expressivo a outras pessoas ou animais: roubo, assassinato, extorsão, etc. Durante os muitos séculos em que as igrejas cristãs legitimaram o poder absoluto de tiranos de todos os tipos, seus sacerdotes usaram a força para deportar, converter, extorquir, prender, escravizar, torturar ou matar todos que discordassem deles. Na cultura europeia (cristã) que herdamos, existia uma figura que hoje chamamos de crime de opinião: o crime de ter uma opinião diferente daquela defendida por quem está no poder.

Ainda existem crimes de opinião em todas as ditaduras ao redor do mundo, como a que tivemos no país até pouco tempo atrás. Mas nas democracias que se prezem, isso acabou. Ateísmo, portanto, como qualquer outra posição com relação à religião, não é crime. Ateísmo é uma posição com a qual pode não se concordar, mas que não tem nada de criminoso — a não ser nos países do oriente médio onde cristianismo também é crime. Os cristãos que desejarem um país controlado pela religião podem emigrar para o Irã, e de quebra sentir o que significa ser considerado criminoso por suas opiniões.

Também é abjeta a comparação implícita do ateísmo com a dependência química, tanto de drogas lícitas como ilícitas. O pastor talvez não entenda a diferença entre uma doença e uma opinião. A dependência química é uma condição médica passível de tratamento, contra a qual no mundo inteiro se utilizam as armas da ciência. É incrível que ainda seja preciso dizer isso, mas o ateísmo não apenas não é crime, mas também não é uma doença, e não tem nada em comum com essas coisas.

Que as pessoas queiram lutar contra o ateísmo é perfeitamente legítimo. Muitas pessoas lutam contra a religião organizada porque a consideram um mal. Mas um mal de ordem muito diferente que a criminalidade, pois toda opinião religiosa, certa ou errada, é protegida por lei, assim como o ateísmo.

O pastor parece sonhar com um mundo em que os direitos alheios ficam restritos àquilo que ele acha correto. Ele seria muito feliz no século doze sob um governo cristão, não fosse o fato de que esse Estado também seria católico e o prenderia e executaria pelo crime de heresia.

Liberalismo ou conservadorismo sexual, assim como ateísmo e teísmo são questões de foro íntimo, todas igualmente aceitáveis no país, segundo nossa Constituição. E é sorte dele que assim seja. Do contrário, a vida dele correria risco quando ateus ou liberais assumissem o poder.

Se o pastor tiver interesse e houver espaço para isso, será um prazer debatermos sobre nossos pontos de vista. Desde que fique assentado desde já que estamos discutindo ideias, e não pessoas, e que ambas as escolhas são igualmente legítimas.

imagrs

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cissa

julho 30 2010 Responder

*resposta

cissa

julho 30 2010 Responder

ótimo texto respota !

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