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11 perguntas de um eleitor relutante para Marina Silva

Excelentíssima senadora e candidata Marina Silva,

Declarações recentes da senhora deixaram muita gente apreensiva. Nelas a sra. deixou a entender que suas crenças religiosas estão, de alguma forma, interferindo em sua posição relativa a assuntos sensíveis, relativos a direitos humanos – legalização do casamento homossexual e do aborto – e à questão do consumo de maconha, cuja liberação muitos defendem como forma de enfraquecer os traficantes e por não ser pesada e viciante como as drogas ilegais.

Até muito recentemente, eu tinha total certeza de que meu voto já era seu. Mas, depois de eu ter tomado conhecimento desse discurso considerado conservador e contraditório com o Estado laico, passei a ter receio de lhe dedicar meu voto. É um temor de que mulheres e homossexuais passem mais quatro ou oito anos com direitos muito importantes em suspensão por causa da interferência da crença religiosa alheia.

Além disso, algumas perguntas estão em aberto, sendo questões tão relevantes que são decisivas para os votos meu e de muitos outros eleitores, se eles realmente serão dedicados ao vosso sucesso eleitoral. Inclusive uma delas eu lhe dirigi quando a sra. veio ao Recife – sobre o que achas do desmatamento que está prestes a destruir quase 700 hectares de vegetação estuarina em torno do Porto de Suape – e até hoje não fui respondido.

Assim sendo, eu, como eleitor que ainda vê na senhora uma alternativa promissora para o Brasil, que vem se mostrando melhor que Dilma Rousseff e José Serra na argumentação e na forma de lidar com os debates e entrevistas, que vem conquistando o voto e o carinho de cada vez mais brasileiros esperançosos, me vejo impelido a lançar onze perguntas, para que possas responder com carinho. Respondê-las, espero, vai aliviar ou sanar essa insegurança que eu e muitos outros eleitores estamos tendo em relação a lhe dedicar nossos votos.

***

1. Como a sra. pretende lidar com a famigerada bancada ruralista, conhecida por votar contra o meio ambiente, contra a reforma agrária, contra a repressão ao trabalho escravo, contra os animais e contra a proibição de agrotóxicos mortais? Como vai conseguir levar adiante sua política ambiental e, quem sabe, implementar uma política fundiária socialmente justa tendo a oposição raivosa dos parlamentares ruralistas?

2. Na sua condição de fiel da Assembleia de Deus, como será a sua relação com a bancada evangélica, acusada por muitos de corrupta (visto os diversos escândalos envolvendo pastores-deputados nos últimos anos) e antilaica (por frequentemente inserirem motivos religiosos em suas decisões políticas)?

3. Por que a sra. é “pessoalmente” contrária a direitos civis como o casamento gay e o aborto? Deixar em suspensão ou nas mãos de outrem a decisão sobre esses assuntos por convicção religiosa pessoal não seria contrário ao Estado laico, uma vez que a religião estaria interferindo na vontade política e poder decisório da sra.? A sra. sancionaria leis aprovadas no Congresso que autorizassem casamentos gays e abortos?

4. Não seria uma contradição alguém que faz tanta questão de, com sua própria pessoa como exemplo, demonstrar e representar a emancipação sociopolítica feminina ser ao mesmo tempo contra direitos diretamente ligados à derrubada do patriarcalismo homofóbico o qual tanto oprimiu e oprime mulheres e homossexuais?

5. A sra., ao defender plebiscitos pra decidir sobre essas questões, não leva em conta que grande parte da população brasileira é muito apegada ao conservadorismo das igrejas que segue e, assim, despreparada para reconhecer e respeitar direitos “polêmicos” de minorias? Tenha em mente que, em caso de plebiscito, haverá uma campanha muito pesada de quase todas as denominações do cristianismo no Brasil para influenciar seus fiéis, que são a maioria dos brasileiros, a dizer um veemente não ao aborto e ao casamento homossexual.

6. Para expandir o Porto de Suape, o Governo de Pernambuco aprovou este ano uma lei que autoriza o desmatamento de quase 700 hectares de vegetação estuarina ao redor daquele complexo industrial-portuário, sendo 583ha só de mangues. Qual a sua opinião sobre esse fato?

7. Qual a política que a sra. pretende implementar para a educação básica, setor pelo qual a sra. diz tanto primar até por sua origem social? A sra. vai tratá-la como prioridade, ao contrário de todos os governo federais passados? O que acha de os outros candidatos principais à presidência falarem tanto do ensino profissionalizante e deixarem de lado o ciclo básico em seus discursos?

8. Como a sra. encara estar sendo acusada, por muitos formadores alternativos de opinião (blogueiros), de ser “ecocapitalista”, de não enxergar nos próprios pilares do capitalismo, como por exemplo a busca do progresso infinito e a hierarquia socioeconômica que promove a desigualdade social, algumas das raízes do problema da insustentabilidade das sociedades modernas?

9. Qual a sua opinião sobre a ética dos direitos animais, que preconiza que todos os seres sencientes (animais) têm direito à vida, à liberdade e a não ser tratados como propriedade humana? E o que pensas sobre “esportes” rurais que exploram e maltratam animais, como rodeios e vaquejadas?

10. O que a sra. acha de relatórios e alertas como os da FAO, do Worldwatch Institute e do IPCC que vêm apontando a pecuária e a pesca como grandes vilãs do meio ambiente global, provocando desmatamento e desperdício de água e terras, poluindo o solo e as águas, agravando as mudanças climáticas e exaurindo a vida nos rios, mares e oceanos? E qual sua opinião sobre quem diz que apenas o veganismo, hábito de consumo ético que boicota alimentos e produtos quaisquer de origem animal, poderá fazer recuar esse impacto ambiental tão grande?

11. Qual será sua política para o transporte ferroviário? A sra. tem alguma proposta para o transporte de passageiros a média e longa distância, que foi desmontado ao longo das décadas por governos que só enxergavam as rodovias?

***

Marina, espero de coração que a senhora possa responder essas onze perguntas. Suas respostas serão decisivas para que esse receio meu e de muitos outros de votar na sra. seja sanado e votemos a declarar com orgulho: “nós marinamos”.

Grato,

Um eleitor relutante

imagrs

13 comentário(s). Venha deixar o seu também.

Deus é!

setembro 20 2010 Responder

Discussões inúteis que só geram mais confusão, se você defende sua posição favorável ao aborto você está simplesmente incitando o governo a formar cidadãos assassinos, pois quando se fala em aborto se fala em assassinato de pessoas inocentes que não tem a culpa de vir ao mundo por causa de atos causados por estrupadores e deliquentes.
O aborto já acontece as escondidas mesmo sem a aprovação dessa lei, agora imagina quantas crianças inocentes seriam mortas no Brasil esmagadoramente se essa lei fosse aprovada.

Todos tem o direito a vida não importam se nascerem crianças por meio de um estupro ou por meio de um sexo não planejado, (uma gravidez indesejada). Mesmo que uma mãe se sinta mal em trazer um filho no mundo por que foi estuprada isso não dá o direito dela tirar a vida de um ser humano que não tem culpa de ter sido gerado dessa forma.

Quem pratica aborto está matando um ser humano, e quem mata no Brasil vai pra cadeia por que é assassino. Se você quer criar cidadãos assassinos então você também é um assasssino pois concorda com uma lei que tira os direitos a vida de um ser humano independente de sua origem paterna.
Outra coisa, defender a o casamento entre pessoas do mesmo sexo é o mesmo que ofender a ordem natural das coisas, o homem nasceu homem para coabitar com uma uma mulher, e nesse caso isso deturpa toda uma formação de conduta familiar que a partir disso se tornaria uma familia cheia de complexos e problemas devido a confusão que causaria em crianças adotadas por pessoas do mesmo sexo sem saber o que decidir.

Não adianta você dizer que um Estado laico é um Estado ateu, pois a maioria das leis foram criadas baseadas em fundamentos bíblicos, então conclui-se que Deus e a Política podem caminhar juntos sim, mesmo tendo a discordância da constituição ou não.

E dizer que religiosos no governo é ato incostitucional é balela pois desde que o mundo é mundo que religião e política sempre caminharam juntas. O problema é que as pessoas querem impor seus conceitos errôneos e próprios e suas vontades deturpadas e infundáveis para obrigar uma nação inteira a seguir suas vãs filosofias que só servem para trazer mais confusão ao seres humanos e torná-los cada mais insensíveis e menos tementes a Deus.

Não escrevo isso como religioso por que não sou religioso; sou apenas temente a Deus. Que Deus te abençoe e mostre a você o o que está certo é o que está errado em suas filosofias.

    Robson Fernando

    setembro 20 2010 Responder

    Ache ad hominem se quiser, mas não me dou ao trabalho de responder argumentações tão fundamentalistas.

Devanil

agosto 17 2010 Responder

Não acho lamentável dizer que um estado laico não significa um estado ateu, inclusive adorei essa citação, mesmo sendo ateu, já que muitos pregam o radicalismo ateu.

Vamos tuítar essas perguntas para Marina Silva. Eu tenho as mesmas perguntas e receios quanto a esses pontos, mas sinceramente? Dúvido que ela venha a responder tais questões.

Mário César Mancinelli de Araújo

agosto 16 2010 Responder

Aliás… Até o fato de religiosos (padres, pastores, etc) se candidatarem já é algo INCONSTITUCIONAL.

    Robson Fernando

    agosto 16 2010 Responder

    Não é inconstitucional religiosos se candidatarem apenas por terem religião, mas sim quando eles põem dogmas e morais religiosas entre as motivações de suas decisões.

      Mário César Mancinelli de Araújo

      agosto 17 2010 Responder

      É inconstitucional sim e vou explicar porque, dando apenas 2 motivos:

      1º – Um parlamentar religioso SEMPRE vai decidir seguindo sua fé, seus dogmas. Veja, até hoje não foi dado às mulheres o direito de continuar ou não uma gravidez. Adivinhe porque…

      2º – As decisões dele, TODAS, serão inconstitucionais, mas você não terá o que fazer contra isso. Nem ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade), nem ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental)… NADA.

      Isto faz desse tipo de candidatura INCONSTITUCIONAL. Corta-se o mal pela raiz, para que danos maiores não sejam criados.

Mário César Mancinelli de Araújo

agosto 16 2010 Responder

O problema quanto ao Estado Laico é mesmo GRAVE.

Estado Laico é sim um Estado Ateu, já que é um estado que:

1 – Não tem religião;
2 – Não permite que dogmas religiosos influenciem nas decisões;
3 – Respeita a opção religiosa ou NÃO RELIGIOSA de todos.

Dizer que Estado Laico não é Estado Ateu foi simplesmente LAMENTÁVEL…

E olha que estou mesmo pensando em votar nela no primeiro turno. Estava ainda mais inclinado a isso, mas agora… Sério, não sei mais.

    Robson Fernando

    agosto 16 2010 Responder

    Mário, se o Estado laico fosse um Estado oficialmente ateísta, ele negaria a existência de Deus(es) e professaria oficialmente a descrença, inclusive obrigando a negação das religiões nas escolas. Trataria o ateísmo como (des)crença prioritária e os cidadãos ateus teriam mais direitos que os crentes em um ou mais deuses.

    E irreligião não é igual a ateísmo. Existem pessoas crentes em “Deus” (há concepções variadas de Deus) mas que não têm religião.

    Tanto não é lamentável dizer que um Estado laico não tem nada com crenças e descrenças como é válido dizer que o laicismo verdadeiro não trata nenhuma crença ou descrença específicas com prioridade.

      Mário César Mancinelli de Araújo

      agosto 17 2010 Responder

      Pelo contrário. O Estado Laico é sim “Estado Ateu” por ser ARELIGIOSO.

      O que isso quer dizer é que:

      – A inscrição “Deus seja louvado” em nosso dinheiro é INCONSTITUCIONAL, assim como é em qualquer Estado Laico. Nos EUA, por exemplo, houve um processo contra isso e venceram. Só não foi tirada a inscrição das notas por ser “muito caro para fazer a alteração”.

      – É INCONSTITUCIONAL ensinar religião em escolas dos 3 níveis de governo, porque o Estado brasileiro NÃO TEM UMA RELIGIÃO.

      Enfim, o significado de “Estado Laico” é sim “Estado Ateu”. Digamos, por exemplo, que o Estado Laico fosse uma pessoa. Ele seria sim, ateu.

      Isso não tem NADA a ver com a imposição de alguma religião ou da falta dela. O único estado em que se impõe a não religião é o Estado Socialista (União Soviética, Cuba, etc). E o estado onde religiosos tem menos direitos do que ateus é o Estado Secularista.

      Então, por favor, não misture as coisas. E estou aqui falando do conceito de “Estado Laico”, não do nome que está escrito em nossa constituição.

        Robson Fernando

        agosto 17 2010 Responder

        Como falei, a ausência de religião não é igual ao ateísmo. E o ateísmo nega os deuses, coisa que um Estado laico não faz.

        Sobre os dois casos (a inscrição e o ensino), o primeiro está totalmente certo, e o segundo também concordo, embora a proposta original do ensino religioso fosse ensinar os preceitos básicos de todas as religiões mais professadas do mundo pra dar aos alunos o direito de escolher (mas é facilimamente pervertível).

          Mário César Mancinelli de Araújo

          agosto 18 2010

          O ateísmo pessoal, quando passa totalmente do agnosticismo, realmente nega deuses. Mas não é esse o caso de um Estado Laico ou Ateu.

          Nesse caso o Estado simplesmente não opina sobre a questão, até porque o Estado REALMENTE não tem como opinar (apenas os governantes têm).

          E o Estado não impõe nada. Até mesmo no Estado Socialista/Comunista, que “teoricamente” é ateu, a religião não é completamente proibida. Vide o último Papa, de onde ele é, etc.

          Enfim… O conceito é sim este. Não pode haver NENHUMA intromissão da religião com o Estado. Se isso acontece, é declarado ato inconstitucional.

          Então acabou aí. Não há argumentos possíveis que possam desmentir isso. Ah não ser pela fé.

          Robson Fernando

          agosto 18 2010

          Com isso eu concordo.

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