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ago10

Enchentes e deslizamentos de terra no Grande Recife têm como causa desmatamentos e aterros do passado

Isso o professor Ricardo Braga, da UFPE, explica de forma esclarecedora. De fato as raízes ecocancerosas de cidades como o Recife têm tudo a ver com a realidade atual de enchentes na planície e deslizamentos de terra nos morros.

Foco ambiental: alagamentos e inundações
por prof. Ricardo Braga

Se olharmos o mapa de relevo, veremos que Recife, Olinda e Jaboatão possuem uma planície costeira muito baixa, quase ao nível do mar, rodeada de morros de 60 a 100 metros de altura, em semi-círculo. Podemos dizer que essas cidades formam um grande anfiteatro, onde os morros são as arquibancadas, a planície é o palco, e céu e mar compõem o cenário.

Originalmente as matas cobriam os morros e garantiam a infiltração das águas de chuva, retendo-as para liberar devagarzinho, atenuando as enxurradas e, em conseqüência, o pico das enchentes. Na planície, mesmo assim os riachos enchiam, mas podiam se espalhar em seu leito natural expandido, que eram as várzeas. Depois dezenas de riachos drenavam facilmente águas para os rios Beberibe, Capibaribe, Tejipió e Jaboatão.

Hoje, quando chove forte, casas que ocuparam o morro desmatado, escorregam pela barreira levando sonhos de seus moradores. Outras, na planície, são inundadas de maneira implacável pelas águas apressadas. Que destino caótico de nossa gente, particularmente a de menor renda!

Mas é a história da ocupação dos espaços quem determinou o caos. A cidade impermeabilizou o solo com as edificações e pavimentações, fazendo com que a vazão do escoamento das águas se multiplicasse por até seis vezes quando chove; a erosão dos morros traz junto com as enxurradas a lama de barro e areia; os riachos passaram a ser canais, considerados pela população como local de despejo de esgoto e lixo, dificultando dramaticamente a passagem da água; a carência de áreas de habitação levou à ocupação das margens dos cursos d´água, não deixando alternativa para as águas apressadas, se não recuperar a sua várzea à força.

Resultado: alagamentos, pela dificuldade de drenagem nos lugares onde a chuva cai; e inundações, pelo transbordamento de riachos e canais.Mesmo que todas as causas sejam explicáveis, não é fácil mudar o cenário, que se repete a cada ano. Vê-se que o esforço das prefeituras em limpar os canais e coletar regularmente o lixo é indispensável, mas insuficiente.

Por parte da população, é preciso uma tomada de consciência de que cada um contribui para o caos quando corta e ocupa a barreira em lugares de risco de desmoronamento, espalha lixo como se o espaço fosse de ninguém, obstrui a microdrenagem com a construção de casas, muros e passagens de pedestres, e ocupa as margens dos riachos e canais, não deixando espaço sequer para a sua limpeza.Por parte do poder público, parece ser necessária uma postura mais determinada e menos paliativa, exigindo a elaboração do Plano Diretor Metropolitano de Drenagem Urbana, integrando os municípios na mesma estratégia de solução. Esta, por sua vez, implica em medidas estruturais inovadoras, como reservatórios de amortecimento de cheias em algumas descidas de morros. Ao mesmo tempo, são fundamentais medidas de educação, que possibilitem o reconhecimento pela sociedade que vive nas áreas afetadas, da importância da atitude preventiva, antes que o afogamento seja inevitável.

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