02

ago10

Lição do dia: não seja “missionário” da linguagem

Com a vida, mesmo com as piores lapadas, aprendemos algumas coisas que nos demandam ajustes de conduta e de métodos de ativismo.

Meu caso é – ou melhor, foi – o “missionarismo” linguístico que eu fazia na tentativa de propagar a consciência de que a linguagem legitima formas de opressão contra categorias de seres desfavorecidos – predominantemente mulheres, negr@s e animais.

Esse tema não vou deixar de trabalhar intelectualmente, mas a vida me mostrou que ser um/a “ativista” mais do que os limites do bom senso não é uma boa ideia e, pior, não conscientiza ninguém.

No meu caso, quando eu via notícias ou mesmo tweets de gente falando, por exemplo, “‘dono’ do cachorro” ou “o homem” (como sinônimo de “ser humano”), eu pedia para que a pessoa não utilizasse a(s) palavra(s) imprópria(s) e, ao invés, usasse a(s) politicamente correta(s). No caso em que o feedback era possível, a resposta nem sempre era positiva ou aprovatória.

Perdi pelo menos uma seguidora no Twitter por isso, e enfrentei outros inconvenientes.

Até que, semana retrasada, finalmente tomei consciência de que esse modo de “ativismo” não é conveniente. É patrulha ideológica, é ditar às pessoas o que elas devem falar e o que não falar, e isso não agradaria nem a mim mesmo.

Eu pessoalmente não me sentiria bem se o Arauto não usasse o PCIG e  alguém me insistisse via comentários para eu usá-lo, para não legitimar o machismo reproduzido pela língua portuguesa – já que o português é um idioma machista por diversos detalhes de sua ortografia e gramática, e falá-lo sem reagir a seu androcentrismo pareceria uma legitimação da ordem opressora.

Patrulhar as palavras que as pessoas escrevem ou falam não lhes dá nenhuma consciência de gênero ou de exploração animal. Não adianta convencer, por exemplo, uma mulher a deixar de coincidir “o homem” com “o ser humano” sem previamente lhe falar sobre a milenar opressão contra as mulheres e como ela continua ainda hoje, reproduzida em detalhes sociais como a educação e a própria linguagem. Em outras palavras, sem lhe fornecer o conhecimento bastante para que ela adquira a consciência de gênero, de que seu gênero é tratado como recessivo na sociedade (e o homem, como o gênero dominante).

Sem a educação feminista necessária, ela não vai se convencer de que falar/escrever “homem” como sinônimo de ser humano é uma legitimação de um sistema opressor. Aliás, nem foi suficientemente estudada ainda a relação entre uso de palavras “pró-opressivas” (como “don@” referente a tutor/a de animais, “homem” como ser humano ou o caso da palavra “denegrir”, que significa ao mesmo tempo “depreciar” e “tornar negr@“) e a legitimação de fato de formas de opressão.

Demorei para aprender, mas enfim tenho consciência disso. Espero evitar problemas com seguidoræs do Twitter e outr@s irmã/o/s de consciência de hoje em diante.

Saindo do relato pessoal para a transmissão de aprendizado, eu digo: não seja patrulheir@ ideológic@ da linguagem de outrem, porque você, além de não conscientizar ninguém, ainda vai ganhar antipatizantes em vez de simpatizantes de sua luta.

@
imagrs

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rayssa gon

agosto 3 2010 Responder

eu tbm me sentia meio incomodada com essa questão do machismo linguistico.

mas penso que , talvez, mesmo não abandonando essas palavras ou expressões ainda é possivel se conscientizar da carga opressiva que elas carregam.

richard dawkins faz isso muito bem em Deus, um Delirio.

apesar de ter abandonado a palavra homem, e adotado humanidade (assim , como deixado de usar denegrir ou judiar) eu ainda uso masculino pra designar uma coletividade, com os autores do ensaio existindo ou não mulheres no meio. :S

    Robson Fernando

    agosto 3 2010 Responder

    Pois é, Rayssa, o português é um idioma essencialmente androcêntrico. Dele não há como escapar hoje em dia. O Português com Inclusão de Gênero, que uso aqui no blog, é uma forma de fazer o português ser menos machista, mas ainda não resolve tudo.

    Aliás, parabéns e obrigado por sua consciência linguística. Só tenha cuidado pra não se ver policiando a fala de outras pessoas.

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